Outra vez na funerária…

Como vocês puderam ler no causo passado, seu Luiz estava arrumando um corpo antes de me atender… Ainda bem que esse “atender” refere-se à negócios e não ao atendimento que ele costuma normalmente oferecer aos hã… clientes. Vocês se lembram também que eu disse que houve outro caso envolvendo essa mesma funerária? Bom… lá vai o caso.

Alguns meses depois eu voltei na funerária e, para minha surpresa, seu Luiz já tinha terminado a reforma que estava fazendo e transferiu o estabelecimento para o endereço ao lado. Um das coisas mais hã… funestas que eu já vi.

A fachada tem uma cruz preta gigante, feita de mosaico e duas imagens de santos em cada ponta da fachada. Ambas com velas acesas. Também há 2 gárgulas (isso mesmo, gárgulas) guardando a entrada. Por dentro, a coisa era normal. Parecia um escritório, um pouco maior que o normal. Seu Luiz dessa vez não estava arrumando corpo nenhum. Entrei, conversamos um pouco e eu elogie a fachada nova. Sim, eu tive a coragem de elogiar a fachada nova.

Agora eu me pergunto. Pra que que eu fui fazer isso?

Ele ficou feliz com o elogio e me disse: “Você gostou é? Então deixa eu te mostrar uma coisa lá em cima”. Engoli a seco. O que raios ele ia me mostrar? Olhei para minha parceira de patrocínio e ela fez com a cabeça um gesto como “você que sabe. Ninguém mandou elogiar“.

Não tinha lá muita escolha e aceitei. O que não se faz para conseguir uma graninha pro jornal?

Para fins de imaginação: seu Luiz é um senhor, um pouco corcunda, cabelos brancos despenteados e sobrancelhas brancas e grossas, curvadas pra dentro. Pele enrugada e baixinho. Tem uma pinta em algum lugar do rosto. Me lembra muito o ajudante do Dr. Frankeinstein. Tem olheiras profundas.

Subimos as escadas ele indicou o caminho. Imaginei que ele era um pscicopata aniquilador de adolescentes, que usava o corpo das vítimas para fazer experiências. Pelo menos era o que aquele corredor me dizia. Ele parou em frente a uma porta fechada e disse: “É aqui“.

Destrancou e abriu a porta lentamente… lentamente… Meu coração batia acelerado. Eu não sabia o que iria encontrar do outro lado. Será que era mais um corpo que ele estava arrumando? Seria uma coleção de órgãos? Eu não podia imaginar.

Ele finalmente abriu a porta. Eu queria ter fotografado o que vi. Foi a cena mais antítese que eu já presenciei.

A sala era bem iluminada e alta. Espalhados, pelo menos uns 40 esquifes (caixões), alguns empilhados, outros abertos, outros forrando as paredes. Quase não se via as do fundo. Os caixões formavam uma espécie de semi círculo grande. No meio deles, 2 Renas, bem ao estilo Papai Noel, em tamanho natural.

Gostaram? Fui eu que fiz!” – O velho sorria para a própria criação.
A… a rena? Ah.. ela é.. perfeita!” – Eu olhava em volta, incrédulo.
Fiz para o Natal. Tenho mais 4 dessas lá embaixo.

As renas eram perfeitas. Com pêlo e tudo o mais. Os olhos era de retrós e o tamanho, como eu disse, era o mesmo de uma rena adulta. Realmente muito bonita. Mas o lugar que ela se encontrava não combinava, nem um pouco.

Depois de gravar na memória o que eu tinha visto, disse que precisava ir. Elogiei mais uma vez o trabalho do cara e saí.

Renas e caixões. Corpos e negócios. Tudo muito funesto. Mas um emprego como outro qualquer. O cara realmente entende de mortos.

2 pensamentos sobre “Outra vez na funerária…

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