Goiânia: O acidente radiológico que o Brasil esqueceu

O acidente nuclear de Goiânia, ocorrido em 13 de setembro de 1987, pode ser resumido como uma seqüência de besteiras misturada com irresponsabilidade e ignorância – no sentido de ignorar o real perigo da cisa toda.

Tudo começou quando Roberto Santos Alves e Wagner Mota, catadores de sucata, invadiram o antigo Instituto Goiano de Radioterapia, que tinha sido desativado há algum tempo. O objetivo era depenar o local e revender o metal para um ferro velho.

A operação ia bem, até que um deles percebeu uma máquina radioterapêutica. Obviamente, o rapaz não enxergou o objeto como PERIGO IMINENTE e sim como LUCRO CERTO. Perspicaz.

Um deles confundiu um pedaço da máquina – uma caixinha – com um peça de chumbo e levou-a para o ferro velho do seu Devair Alves Ferreira e de seu Ivo Alves Ferreira. No dia 18 de setembro de 1987, o acidente toma proporções catastróficas.

Os donos do ferro velho desmontaram a caixa e descobriram o “ouro azul”. Era um pó, muito parecido com sal de cozinha, entretanto, emitia uma luz azulada quando colocado em um local escuro.

Na verdade, o pozinho era Cloreto de Césio (césio-137)

No ferro velho, a descoberta fez a alegria das crianças e dos mais idosos. Como ninguém fazia idéia que o que eles tinham acabado de descobrir na caixa era altamente perigoso, nenhum cuidado foi tomado. As crianças brincavam de passar o pó no rosto e ir brilhar no escuro. Muitos dos que tiveram contato com o Césio-137 saíram do ferro velho e acabaram transmitindo o elemento radiológico, já que, em contato com o ar úmido, o Césio impregna roupas, alimentos e é facilmente espalhado para outras pessoas.

Algumas horas depois de acidente, muitos tiveram sintomas parecidos com intoxicação alimentar. Quanto mais as horas passavam, mais pessoas recorriam ao hospital para se tratar dos mesmo sintomas: náuseas, tonturas, vômitos, diarréias…

Milhares de pessoas foram contaminadas

Enquanto as pessoas eram contaminadas, a caixinha com o pó de Césio esperava a vez de ser examinada, lá na Vigilância Sanitária:

A caixa radioativa está dentro desse saco... Acredite se quiser!

Somente em 29 de setembro daquele ano, as autoridades levantaram a bunda da cadeira e admitiram o desastre nuclear. Mas aí já era tarde. Leide das Neves Ferreira ingeriu involuntariamente pequenas quantidades de césio depois de brincar com o pó azul. A menina de seis anos foi a vítima com a maior dose de radiação do acidente.

Inacreditavelmente, os números da tragédia são menores do que uma primeira lida no caso sugere. No total 112 800 pessoas foram expostas aos efeitos do césio, muitas com contaminação corporal externa revertida a tempo. Destas, 129 pessoas apresentaram contaminação corporal interna e externa concreta, vindo a desenvolver sintomas e foram apenas medicadas. Porém, 49 foram internadas, sendo que 21 precisaram sofrer tratamento intensivo; destas, quatro não resistiram e acabaram morrendo.

A responsabilidade, nesse caso, não pode ser creditada somente aos catadores, ou ao pessoal do ferro velho. Houve uma irresponsabilidade sem tamanho ao abandonarem a máquina no hospital desativado, mesmo que, segundo administrador do Instituto Goiano de Radioterapia, o local oferecesse segurança para isso.

Como visto, não foi o suficiente…. E, para variar, ninguém foi punido…

Quer saber mais sobre o acidente?
Leia o verbete na Wikipédia
Ou visite o site do Portal Química Online (altamente recomendado… contém gluten fotos)
Ainda há a opção de você assistir o filme produzido sobre a tragédia: “Césio 137 – o Pesadelo de Goiânia”

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42 comentários sobre “Goiânia: O acidente radiológico que o Brasil esqueceu

  1. ” No total 112 800 pessoas foram expostas aos efeitos do césio, muitas com contaminação corporal externa revertida a tempo. ”

    Quem diria em amigo.
    algo tão pequeno, “Insignificante” aos leigos, trouxe tanto trasntorno para a população.

    e que venha Chernobyl \o/

  2. conheço um capitão da força aérea que já visitou e estudou o local, ele disse que até hoje algumas frutas da região possuem césio de maneira incomum e as autoridades locais sabem e não fazem nada, a contaminação aiiiiiiiiiiiiiiiiiinda existe lá

  3. Essa eu não sabia Fernando…

    Quer dizer que se eu for pra Goiânia e comer uma fruta, posso levar de brinde um pouquinho de Césio? Que beleza!

    A radioatividade mexeu com a cidade. As casas valorizaram em vez de desvalorizar…. que coisa não?

  4. Isso reforca a minha ideia que a construcao de uma bomba atomica é inviavel.
    Pense bem, se voce quer produzir uma catastrofe no inimigo, voce mandaria um foguete com todo o estardalhaço que naturalmente faz? ou mandaria uma ampola com um pouco de material radioativo e “distribuiria” por toda a cidade?

    Um pouquinho do pó magico de césio 137 infectou 112.800 pessoas, se colocarmos um pouco desse pó em 10 pontos estratégico da cidade de Sao Paulo, entao, poderemos ter 1.128.000 pessoas infectadas, o que pra qualquer país, é uma tragédia.

    E o mais legal, sem a necessidade de enviar uma bomba, entao, a guerra nao seria declarada, nao haveria um imovel destruido e nao teria a repercussao internacional imediata…. ou seja, a bomba atomica nao existe! e se existe é burrice!

  5. O que você falou Celso, faz todo o sentido.. tanto é verdade que o Bin Laden (aliás.. eles se esconde melhor que a Carmem San Diego…) já usou essa tática contra os EUA, na época da contaminação de cartas por Antrax…

    Vai ver que é por isso que há tanto medo em relação aos ataques com armas biológicas…

    PS: Usar uma bomba atômica ou contaminar aos poucos é quase como escolher como matar uma formiga… colocando veneno pela casa toda, ou usando uma britadeira…

  6. Oii gente aii de cima oq vc’s falaram faz todo o
    sentido estou fazendo um trabalho escolar e vou citar um pouco disso
    na minha apresentação..
    “pq se declarar em um a guerra se eu
    posso destruí-lá sem q ninguém perceba
    q sou eu..!?”

    bligadin..!

  7. moro em abadia de goias onde estao depositados todo o lixo do acidente do cesio ,da minha casa posso ver os morros onde esta enterrada provas dessa tragica historia.Fico indignada pelos protestos que a populaçao abadiense fez na epoca, hoje se orgulham tanto ate tem como ponto turistico o “cemiterio do cesio137 “,quanta hipocrisia desse povo hein? SE TIVEREM A OPORTUNIDADE VISITEM O PARQUE TELMA ORTEGAL E CONHEÇAM O TRABALHO DA CNEN,CONHEÇA ONDE ESTAO ENTERRADAS OBJTOS E A HISTORIA DESSE ACIDENTE.

  8. Frank,

    Nós, desta terra tupiniquim (ou seria tupininguém?!), padecemos de aminésia seletiva.
    Lembra-se de Marcelo? O cara que sodomizou/devorou diversas crianças, foi capa da revista veja no início dos anos 90?
    Maníaco do parque? Alguém sabe o fim dos meninos que tacaram fogo no cobertor (que por acaso, tinha um índio dentro!)?
    O nome do menino que foi arrastado preso ao cinto de segurança?
    Guilherme de Pádua…
    Champinha…
    Sérgio Naia (quem foi?)…
    Nardoni?
    Da mesma forma que dentro em breve, Eloá será esquecida…
    E, perceba bem: estes foram nomes que chegaram ao conhecimento da opinião pública!
    E todos os outros Vinícius, Isabelas, Eloás e etc… que ocorrem todos os dias, mas que não tomamos conhecimento?

  9. Elisa: Pensei bastante antes de abrir seu link. Site russo é ruço de engolir…

    Entretanto, eu tomei coragem e abri (o link, seus imundos). Fotos SENSACIONAIS, do ponto de vista fotográfico/jornalístico.

    Obrigado pela contribuição e volte sempre!

  10. Todas as observações que foram feitas são válidas, afinal são jovens se envonvendo com problemas brasileiros. Precisamos estar informados e termos pontos de vistas e senso crítico desde a adolescência, só faço uma sugestão, o problema da radioatividade foi muito mais cultural e educacional do que qualquer outro.
    Pessoas sem formação e sem informação, infelizmente estão a toda parte e ocupando muitos lugares. Isso sim é uma fator importantíssimo e que deve ser corrigido. Pessoas comuns e agentes de cargos públicos devem buscar sempre e mais informações a respeito de vários assuntos de alfa a ômega, para minimizar a situação caótica que passa o nosso país acerca de estar bem informado e ser culturalmente um diferencial.

    • Isso é verdade Maria Eliene. A “culpa” propriamente dita não foi de quem pegou o Césio. Eles simplesmente ignoravam a periculosidade daquela coisa. A culpa mesmo foi de quem largou lá. Ou quem julgou que não seria perigoso.

      A informação é a base de qualquer nação. Veja Cuba, por exemplo.

      Abraço e volte sempre…

  11. Infiro que a radioatividade em Goiânia, foi um acontecimento dos mais sérios e que hoje a humanidade deixou cair no esquecimento, às causas e as consequências foram de muita importância e que por isso não deveria ficar no arquivo morto, ao contrário deveria ser solucionado. Afinal Goiânia virou uma bomba atômica.

  12. Inacreditável como a irresponsabilidade do ser humano pode chegar a este nível.
    Desativar um hospital e deixar tudo o que há nele.
    Se isso tudo aconteceu por conta da irresponsabilidade para com uma máquina de RaioX, imagine o que poderia acontecer se tivessem que se deparar diante de uma situação com uma usína nuclear…
    Seria catastrófico…
    O Brasil, é em partes um país evoluído, mas a propria sociedade não tem porte suficiente para trabalhar com um material tão potente e tão de um perigo tão insano quanto a do Urânio ou Celsio!!

    By: Hyanka 13anos

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  17. Pois é depois de todo o ocorrido não há punição para nemhum individuo…tendo como base no assunto devemos pensar bem antes de agir,para que não ocorra o mesmo acidente nuclear novamentre…Pensem nisso…

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