Quando escrevi o texto sobre o lixo em Nápoli, fui buscar informações com um amigo romanista que mora na Itália, mais especificamente em Trieste. O nome dele é Igor.
Ele me explicou algumas coisas interessantes sobre a Máfia e a Camorra que quero compartilhar com vocês…
Reparem que o que está escrito é a visão de quem mora lá, de quem tem a cultura de lá, então, conseqüentemente, é a interpretação local. Muitíssimo valiosa por sinal.
É quase como algum gaúcho explicar pra um japonês porque raios os colorados não vestem azul ou os gremistas não vestem vermelho.
Sem mais delongas, vamos ao texto:
Sobre o lixo:
“O problema do lixo em Nápoli surgiu por causa da máfia local chamada “Camorra”, da corrupção política e do atraso que há no sul da Itália.
Faz décadas que a “Camorra” enriquece com o negocio do “tratamento” e eliminação do lixo industrial. Os “camorristas” negociam o tratamento e a eliminação do lixo industrial das muitas fabricas do norte do país a preços tão baixos que até estão fora do mercado. A Camorra, graças ao envolvimento com a política, é dona de lixões regulares e clandestinos. Aqui eles eliminam o lixo extremamente tóxico, sem passar por nenhum processo de tratamento e os sítios onde são localizados esses lixões estão poluídos; o índice de doenças cancerígenas aumentou e muitos sítios foram interditados. Com o seqüestro dos lixões regulares, começou a faltar espaço para eliminar o lixo de Napoli e das cidades limítrofes.
Os políticos de Napoli nunca perseguiram uma política seria para enfrentar o problema que surgiu há décadas, muito pelo contrario, eles instituíram comissões que deveriam ter enfrentado o problema, repletas de incapazes, amigos e parentes de políticos que recebiam e recebem milhares de euros sem conhecer nada sobre o assunto.
Eles não construíram nenhum “termovalorizador” (tem muitos no norte da Itália) que são incineradores que geram uma combustão a altíssimas temperaturas, produzindo energia elétrica e deixaram a camorra administrar a vontade os lixões regulares que se tornaram sítios poluídos.
A população está revoltada, não confia mais em ninguém, com medo da Camorra trazer outro lixão tóxico. Daí o protesto e o bloqueio dos acessos para os caminhões. O atual governo individuou os lixões não contaminados e mandou o exercito a vigiar os sítios.
Sobre a Máfia:
Tem uma grande diferença entre a máfia e a Camorra. A Camorra não quer lutar contra o poder, pra eles os negócios são a prioridade, sabem que a prisão é quase inevitável e mesmo assim nunca lutaram contra o estado: o lucro vem acima de tudo e combater o estado poderia atrapalhá-lo.
A máfia não aceita o estado, as penas, a lei. A máfia sempre lutou contra o estado, organizando atentados de formas grandiosas, matando juízes, chefes da policia, sindicalistas, padres, políticos, policiais… A máfia organizou atentados contra a população civil em Roma, Florença, Milão…
Depois de ter acabado com a cúpula da máfia a situação melhorou, no sentido que não temos mais atentados, mas as varias máfias continuam no sul do país.
Assim a situação italiana: Mafia na Sicília; Camorra em Napoli e na região Campania; “Ndrangheta” na região Calábria e “Sacra Corona Unità” na região Puglia.
…
É interessante notar que a política, no sentido pejorativo da palavra, acontece em todos os lugares. Enquanto aqui no Brasil temos Dantinhas, Hu-Hu, Cacciola, Nahas & Cia Ltda, a Itália conta com seus “neo Dom Corleones”…
E nós, cidadãos do mundo? Aonde nos encaixamos?










Entendo que a verdadeira máfia, no sentido exato da palavra, situa-se no meio político. A Máfia combate o Estado Organizado por disputa de poder com os outros mafiosos que dizem combater a máfia organizada.
Por: Osvaldo em Terça-feira, 12 Maio 2009
às 22:54