Quem matou Euclydes da Cunha?

Estamos em 1906. Imagine, caro leitor, que você regresse de uma temporada no Acre nesse mesmo ano e descubra que sua esposa está grávida. Mas, bem… o filho não é seu. Sua honra foi manchada, o chapéu de corno assentou muito bem na sua cabeça, dando-lhe um ar austero e selvagem. O estrago estava feito. Pelo menos você tem a sorte a seu lado: o bebê, fruto da sacanagem da sua mulher, nasceu morto. Mas você é um cidadão bondoso (a-hã), releva a situação e mantém seu casamento, apesar das brigas constantes. Tem filhos morenos como o pai e como a mãe. Mas então, em 1908, “nasce uma espiga de milho (de olhos azuis) no meio do seu cafezal“. Sua honra foi manchada de novo e o chapéu de corno agora cria raízes muito sólidas. A sede de sangue ativa suas papilas gustativas e você saliva, na ânsia de limpar seu nome.

Euclides da Cunha, autor de Os Sertões (que você com certeza só leu o resumo porque foi obrigado a fazer a prova na escola), passou por essa situação. Recebeu uma carta anônima (claro… nessas horas ninguém é homem suficiente para assumir que está oficializando o chifre em outrem) que avisava que um certo Dilermando de Assis estava, hã… batendo cartão no relógio de ponto de sua mulher. E, pior, Dilermando – além do nomezinho que Deus me livre – tinha por volta de 20 anos. Trocado por um garotão…

O próprio Dilermando descreve que “Euclydes travava (…), a meu respeito, terríveis discussões com sua esposa, a ponto de (…) romper-lhe as roupas (…)”. Apesar de ser um fetiche comum, as brigas nada tinham a ver com a vida sexual do casal. O pau comia direitinho, ainda mais depois do nascimento daquele peste loirinha, totalmente diferente do padrão moreno da família.

A História conta que Dilermando e Anna, esposa de Euclides, tinham interesses em comum, principalmente relacionados a literatura, música e artes plásticas. Os dois se entendiam. Como o próprio Ricardão conta: “Insultando [dona Anna], vexando-a diante dos estranhos, afugentando-a de si, esquecendo-a  em troca de suas predileções literárias, abandonando-a longamente. foi (…) [Euclides da Cunha] quem, desgraçadamente para si, a largou na desventura e fomentou a sua infelicidade“. Situação que acabou por resultar em separação. Anna fugiu para casa de Dilermando, com o consentimento de Sólon, filho mais velho de Euclides. Não tencionava mudar-se para lá, era apenas uma fuga que logo seria engolida pelo pelotão. Mas o pelotão veio armado.

Na manhã de 15 de agosto de 1909 – portanto, 3 anos após a primeira prova de que Anna procurava nos braços de Dilermando o que não encontrava nos de Euclides da Cunha – o desfecho dessa história aconteceu. O escritor foi até a casa do militar, por volta das 10 da manhã, bradando um revólver perigosamente carregado. Veja que essa história nunca poderia terminar bem: corno armado + casa do Ricardão + Ricardão = tragédia

Vim pra matar ou morrer! – anunciou o chifrudo, deixando bem clara a sua intenção. O primeiro tiro acertou a virilha direita de Dilermando. Um descontrolado Euclides gritava: Bandido! Desgraçado! Mato-os!. Obviamente eram os copos de álcool fazendo efeito. O segundo tiro deveria ser fatal, mas não foi. Acertou o peito, numa área não letal. Dilermando cambaleou  e caiu no quarto. A sede de sangue de Euclides não terminava no Ricardão. Sua ira acabou direcionada para o irmão de Dilermando, chamado de Dinorah (mais alguém além de mim achou o nome extremamente feminino?). A bala foi na nuca.

Dilermando então pegou seu revólver e antes que pudesse dar um fim na situação, tomou um terceiro tiro (!), dessa vez em uma das costelas à direita. Mesmo após tanto chumbo, foi capaz de ser eficaz e matou o repórter, escritor, sociólogo, historiador, geógrafo, poeta, engenheiro e, porque não, corno brabo Euclydes Rodrigues da Cunha.

Presunto literário: foi defender a honra e acabou no necrotério

O delegado Joaquim Pedro de Oliveira Alcântara já não concorda com a versão de auto-defesa descrita no parágrafo acima. Transcrevo trechos do inquérito: “Tive a evidência de que dona Anna, Dilermando, Dinorah e Sólon estavam na intimidade das relações adulterinas entre Dilermando e dona Anna, e formavam em torno do esposo ultrajado, um cordão vigilante e protetor que o (…) impedisse de defender sua honra.
(…) As duas testemunhas de vista narram que o Dr. Euclydes fugia pelo jardim, mal ferido, quando Dilermando, com propósito homicida caracterizado, chegou a porta, injuriou-o – “espera cachorro!” – e alvejou-o com um tiro que lhe levou a morte.

A pergunta que persiste por mais de um século é: Quem matou Euclides da Cunha?

a) Ele mesmo, ao invadir a casa de Dilermando, estando armado.
b) Anna, pois pulou a cerca por 3 anos, tendo DOIS filho com o Ricardão
c) Dilermando, que além de atirar, não foi homem suficiente para procurar sua própria mulher, arrebatando a dos outros.

Decidam!

Fonte: Revista Nosso Século, nº 2, Editora Abril

10 pensamentos sobre “Quem matou Euclydes da Cunha?

  1. Ótimo artigo, Frank!

    Realmente a história brasileira está cheia desses episódios trágicos, pois infelizmente era costume “lavar a honra com sangue”. A história de Euclides da Cunha foi contada na minissérie Desejo, da TV Globo (não assisti, mas parece que foi boa, foi feita na da época de ouro das minisséries globais).

    Sua pesquisa ficou muito boa (a coleção Noso Século é mesmo uma preciosidade!) e gostei do tom bem-humorado com que conta a história trágica. Parabéns!

    Quanto a quem matou Euclides, é difícil… todas as partes envolvidas têm sua parcela de culpa; é mais fácil culpar uma pessoa, mas como diziam os antigos, “quando um não quer, dois não brigam…”

    Grande abraço!

  2. Se ela não se safasse sexualmente com o Outro como ia se satisfazer. Ora bolas, a mulher sempre é considerada a culpada. E chega de sacralização do passado. Foram humanos como nós. Parabéns pelo texto corajoso. Agora nao precisa colocar a mulher como vadia. Espero que quando for corno, e acho qué isso será inevitável, vê se seja compreensível com ela, para nao dar dor de cabeça para o Ricardão e não fazer gastar dinheiro do nosso imposto para pagar delegado, rabecão e tudo mais. Abraços e corre logo para casa Batista. Obs. Corno causa muito acidente quando volta para casa. Prejudica o transito de acha que ricardão é bobo. Nessa hora já está bebendo a geladinha contando a trepada e ela fazendo seu tricozinho como um anjo esperando você,

  3. Ana da Cunha é uma “abre alas” no quesito: ser a primeira mulher a ter coragem de não se contentar com um homem apenas. É preciso que fique bem claro que nos dias de hoje somos uma sociedade hedonista, sociedade essa composta de homens e mulheres, os quais todos traem, sem excessão, até aqueles e aquelas que se declaram egangélicos, cristãos, etc. A Ana da Cunha estava, naquela época, preparada para viver no séc. XX, XXI, etc., entretanto, o corno do seu marido, apesar de ser um intelectual famoso, não estava preparado para tal. Hoje qualquer acadêmico de engenharia encara um chifre sem nenhum problema. Viva a cornagem.

    • Sensacional Débora. Adorei a frase ” o corno do seu marido, apesar de ser um intelectual famoso, não estava preparado para tal”.

      Agora eu me pergunto: VOCÊ está preparada para tomar uma galhada, colocar o chapéu pontudo, ser contemplada… enfim… viver com o atestado de corno? Cairia bem uma chifrada?

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