Madiba

Não importa o seu idioma, credo ou cor. Madiba significa falar em união, liberdade e respeito.

As palavras, quando bem empregadas, podem mudar vidas, dar coragem aos desamparados e segregados. Segregação? No dicionário dele, essa palavra nunca existiu.

Ele venceu as correntes da prisão com a força dos gestos, palavras e pensamentos. Para ele, o homem deveria ser sinônimo de razão e paixão. Paixão por todos os seus semelhantes, do gueto ao bairro de alto padrão, todos eram iguais, perante sua humildade.

Que todos os tambores do mundo, agora, rufem. Ele chegou ao céu.

Céu de estrelas, onde todas tem o mesmo brilho. Brilho forte e intenso como seu olhar. Olhar de Pai. Pai da África.

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Black Friday

[Noite. Festa chique. Dois amigos se encontram na beira da piscina. O mais alto segura um drink com guarda-chuvinha decorativo. O mais baixo inicia a conversa]

Grande Januário, meu capitão do time de 79!

Ô, Alberto! Melhor beque central que eu já vi jogar! Que bom que você veio, rapaz!

E como é que eu poderia faltar nessa tua festa!? Não é todo dia que se fica entre as 48 personalidades destaque pela Revista Business & Business. Você merece!

Obrigado, obrigado. Mas esse prêmio, na verdade, eu tenho que compartilhar com todos vocês. O que eu faria da minha vida sem todos aqueles que estão aqui? O prêmio é de vocês também!

Imagina… você é que é o maioral. Tá até mais magro!

Pff… falando em mais magro, você vai estar ocupado na terça-feira da semana que vem? Aqui em casa mesmo eu vou receber o prêmio das “11 melhores combinações de terno e gravata da cidade”, promovida pela Camisaria Cabral. Essa mistura de verde limão e roxo escarlate, tradicional, sempre agrada.

Outro prêmio? Tá muito chique esse meu amigo! É claro que eu venho! O que eu teria para fazer de bom em uma terça-feira a noite? A patroa que fique com a novela.

Então marca na agenda: mês que vem tem o “Prêmio Lambreta Destaque”, o “Melhor Carta Postada no Correio”, “Prêmio Salada Mista de melhor Churrasco do Bairro” e… qual mais, mesmo? Tinha mais um… [estala os dedos] ah sim, ia quase me esquecendo… Venci o prêmio de “Melhor Dedão do Pé Esquerdo” do país…

Dedão do pé esquerdo? Ué… é aquele lá que vivia cheio de frieira? Impossível.

Sim… e eu tenho que admitir que ele ainda tem frieira. Das bravas, rapaz…

Então Januário, cacete. Como diabos é que você ganhou o prêmio?

Comprei tudo naquela tal de Black Friday…  Nunca vi tanto desconto junto. O do churrasco estava pela metade do preço. O da Lambreta uma pechincha. E eu não resisti quando eu vi esse esse do dedão do pé esquerdo… também sou humano, né? Me dei um presente.

Eu não acredito. VOCÊ TEVE CORAGEM DE COMPRAR ESSES PRÊMIOS?

Claro que tive. Paguei no cartão, parcelado e sem juros!

Mas me fala uma coisa, então: chegaram todos direitinho?

Dentro do prazo! Essa tal de Black Friday é uma maravilha!

Ah, então eu não posso perder a do ano que vem…. minha esposa vai adorar o Prêmio de Lavador de Louça Honorário, Malabarista Destaque e aquele lá que lista os melhores…

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É sexta, cruz credo, 3 vezes!

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Caramba! Eu não consigo acreditar! Escute só como foi meu dia hoje:

Primeiro eu acordei atrasado, já que o despertador não cumpriu com a sua função básica, que era me acordar. Aí, me arrumei correndo, tomei café correndo e derrubei um pouco de leite na blusa. Eu estava atrasado, então nem me dei ao trabalho de trocar. Limparia no banheiro do escritório…

Chegando na marginal, um trânsito enorme. Vários caminhões (quebrados) e umas obras que nunca terminam. E os semáforos “Cascão”? Esses tem medo até de garoa. Nem preciso dizer que cheguei na empresa muito, mas muito depois do que eu deveria ter chegado, né?

Minha onda de azar não havia terminado. Meu chefe estava na minha sala e, em vez de me falar “bom dia” ele me disse: “Por que você chegou atrasado? Você entregou o relatório que eu te pedi pra fazer até as 9 horas? E, principalmente, porque você ainda está com calça do seu pijama?

Surpreso com a informação, eu tentei argumentar que era a nova moda entre os executivos de Boston, mas ele não acreditou. Por que será? Soou tão natural que eu quase acreditei em mim mesmo. Fui despedido sem chance de defesa. Acho que menos pelo relatório que eu deveria entregar e mais pelo pijama listrado. Estava feio mesmo. Mencionei que estava furado na virilha esquerda? Então… muito glamour.

Voltando para casa, o pneu furou em algum desses malditos buracos na rua. Descobri que estava sem estepe e sem crédito no celular (porque essas coisas nunca acontecem uma de cada vez e sim, eu ainda tenho pré-pago, qual o problema?), então resolvi deixar minha caranga velha de guerra estacionada no Mercadão, perto de outro calhambeque velho. Peguei um ônibus, lotado (e de pijama) e voltei pra casa.

Meu filho já estava de volta da escola. Disse que tinha faltado um professor, a terceira vez só naquela semana, e que por isso ele tinha saído mais cedo. Me perguntou se não era a melhor hora para irmos ao parque jogar bola, coisa que eu venho prometendo a ele desde o começo do ano.

Expliquei a história do pneu. Ele parou, olhou pra mim, e naquela voz e inocência de criança me perguntou: “Mas papai…. Não é lá no Mercadão que está tendo aquele negócio que os carros velhos são destruídos por uma máquina enorme?”.

Respirei fundo, percebendo que havia acabado de perder a Ofélia, meu carrinho amado. Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa minimamente simpática, meu filho completou: “não faz mal… a gente pode ir naquele carro conversível do amigo da mamãe

Que amigo da mamãe?” – retruquei curioso.

Aquele que sempre vem aqui quando você não está”. Respondeu e virou as costas, se concentrando em qualquer besteira no tablet.

Vamos fazer a contagem? Perdi meu carro, meu emprego, minha dignidade e, agora, pelo visto, a minha esposa também. O que mais falta acontecer?

*Toc toc*. Sim.. é uma onomatopeia para batida na porta. Ele pode ter tocado a campainha, mas a minha memória jura que foi uma batida na porta. Duas para ser mais exato.

As batidas na porta denunciavam uma visita e eu nem tinha tirado a calça pijama ainda. Perguntei quem era. Era o entregador de jornal. Cidadão estava atrasado, hein? Mais atrasado que eu. Mas usava uniforme, o que, bem…. deve contar alguns pontos a favor dele. E sim, eu ainda assino jornal. Mas que implicância comigo hoje, hein?

A manchete da primeira dobra? “Político corrupto e incompetente vai para cadeia”.

Cocei a cabeça. Poxa… era meu dia de sorte.

O Zé é o Zé

Anonimo

O Zé não tem nome. Pode ser João, Antônio, Pedro, Aderbal… Até mesmo José. O Zé é o Zé.

O Zé não tem nacionalidade. Pode ser daqui, acolá, de cima, de baixo, leste ou oeste. O Zé é do mundo. O Zé é o Zé.

O Zé não tem cor. Pode ser preto, branco, amarelo, vermelho púrpura, sépia, filtros do Instagram. O Zé é o arco íris. O Zé é o Zé.

O Zé não nasceu ontem. O Zé não nasceu hoje. O Zé não vai nascer amanhã. O Zé é o Zé e ponto.

O Zé não tem gosto. Gosta de tudo. Não gosta de nada. O Zé é o Zé.

O Zé não tem emprego fixo. Pode ser pedreiro, pode ser gerente, pode ser padeiro, pode ser aviador. O Zé tudo faz. O Zé é o Zé.

O Zé está atolado em dívidas, mas sempre sobra um pouco para emprestar para quem precisa. O Zé não é egoísta. O Zé é o Zé.

O Zé não tem time de futebol. Torce para todo mundo. E todo mundo torce pelo Zé. O Zé é o Zé.

Eu posso ser o Zé. O Zé pode ser você. Nós somos o Zé. Ninguém é o Zé.

Onde está o Zé?

O mundo de Bóris

Ele chegou, ainda pequeno, sapateando em minha cama com barro por toda parte. Foi um encontro desastrado como costuma ser a raça dele. E lá fomos nós para um banho naquela madrugada fria. Ai, você me pergunta: como ele conseguiu isso? ‘Simples’: cavando túneis por debaixo da terra, empurrando portas com o fucinho, ou ainda, dando patadas na maçaneta.

O FBI, a Scotland Yard e a Yakusa ligaram para cá. Eles queriam saber como ele fazia tudo isso? Nós não sabiamos. Nem ele. Isso, sem falar nas suas habilidades de ninja! Não.. não.. nada de jogar estrelinhas para desaparecer como nos vídeos games. Bastava um grande salto, e lá estava o cão caramelo para fora de casa. Não somos desalmados, que fique bem claro. Ele ia por que queria ir. Nada na vida dele foi imposto, nem mesmo a morte.

Quando queria, sabia ser um lord para pedir comida ou uma esfinge egípcia. Xii.. quando ficava nessa posição, era sinal de coisa errada. ‘Necessidades’ fora de lugar. O cão também tinha seu lado esportista. Não podia ver uma calça de fazer ginástica(aquela que a mulherada usa para ficar com o bubum empinado, sabe?) Lá ia ele todo serelepe para mais uma caminhada. Como todo bom brasileiro, gostava de um bom futebol, e para completar, tinha nome de presidente russo, mas não era pinguço.

É… ele tinha seu próprio mundo.

Momento poético em espanhol

Depois de um longo tempo…

Estrella

Miro la estrella que va por el cielo

Busco la respuesta que no veo

Las calles llenas de rancor

Dónde está el amor?

Dónde están las flores con sus colores?

Vamos seguir cantando

Como el pájaro por la mañana

El día nos espera

Para cantar

Para vivir

Miro la estrella que va por el cielo

 

Resenha: Gonzaguinha & Gonzagão

Intenso, emocionante.  Assim como os dois personagens de Gonzaguinha & Gonzagão: Uma história brasileira de Regina Echeverria.

O livro narra a história de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, em paralelo com a de Gonzaguinha, seu filho, um dos grandes nomes da MPB.

É interessante notar o tom de confissão dos cantores ao deporem sobre várias passagens de suas vidas, composições e brigas.

Tantos homens casam por amor e nascem filhos defeituosos, que não dão em nada. Eu sempre tive essa vida  desregrada, vivi na zona de prostituição no Mangue e me nasceu esse artista maravilhoso” (Pág. 194)

Nunca fui o Júnior, com o instrumento e a simpatia do pai e por isso há quem pense que nem sou filho dele.  O que fazer, não? Os rótulos nos são imposto e o importante é não vivê-los. Não é porque meu pai é quem é que eu deveria me dar bem com ele.” (Pág. 197)

Esses dois pequenos trechos acima, mostram a maior qualidade dessa obra: a pesquisa de dados e entrevistas feitas pela autora que afinal, é jornalista. No final das contas, os relatos, por si só, acabam guiando o leitor. A tal ponto que a autora só dá umas ‘pinceladas’ com informações históricas e não musicais.

Mas aí também pode morar o lado negativo do livro. Por se apoiar muito em relatos fornecidos pela família, a quem supor uma certa ‘preguiça’ da autora ao escrevê-lo.

O fato é que, quem se deparar com essas 300 páginas vai conhecer uma das mais belas histórias da música brasileira.

Gonzaguinha & Gonzagão, uma história brasileira

Autora: Regina Echeverria

Editora: LeYa

303 páginas (excetuando-se discografia dos artistas)

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