Madiba

Não importa o seu idioma, credo ou cor. Madiba significa falar em união, liberdade e respeito.

As palavras, quando bem empregadas, podem mudar vidas, dar coragem aos desamparados e segregados. Segregação? No dicionário dele, essa palavra nunca existiu.

Ele venceu as correntes da prisão com a força dos gestos, palavras e pensamentos. Para ele, o homem deveria ser sinônimo de razão e paixão. Paixão por todos os seus semelhantes, do gueto ao bairro de alto padrão, todos eram iguais, perante sua humildade.

Que todos os tambores do mundo, agora, rufem. Ele chegou ao céu.

Céu de estrelas, onde todas tem o mesmo brilho. Brilho forte e intenso como seu olhar. Olhar de Pai. Pai da África.

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Black Friday

[Noite. Festa chique. Dois amigos se encontram na beira da piscina. O mais alto segura um drink com guarda-chuvinha decorativo. O mais baixo inicia a conversa]

Grande Januário, meu capitão do time de 79!

Ô, Alberto! Melhor beque central que eu já vi jogar! Que bom que você veio, rapaz!

E como é que eu poderia faltar nessa tua festa!? Não é todo dia que se fica entre as 48 personalidades destaque pela Revista Business & Business. Você merece!

Obrigado, obrigado. Mas esse prêmio, na verdade, eu tenho que compartilhar com todos vocês. O que eu faria da minha vida sem todos aqueles que estão aqui? O prêmio é de vocês também!

Imagina… você é que é o maioral. Tá até mais magro!

Pff… falando em mais magro, você vai estar ocupado na terça-feira da semana que vem? Aqui em casa mesmo eu vou receber o prêmio das “11 melhores combinações de terno e gravata da cidade”, promovida pela Camisaria Cabral. Essa mistura de verde limão e roxo escarlate, tradicional, sempre agrada.

Outro prêmio? Tá muito chique esse meu amigo! É claro que eu venho! O que eu teria para fazer de bom em uma terça-feira a noite? A patroa que fique com a novela.

Então marca na agenda: mês que vem tem o “Prêmio Lambreta Destaque”, o “Melhor Carta Postada no Correio”, “Prêmio Salada Mista de melhor Churrasco do Bairro” e… qual mais, mesmo? Tinha mais um… [estala os dedos] ah sim, ia quase me esquecendo… Venci o prêmio de “Melhor Dedão do Pé Esquerdo” do país…

Dedão do pé esquerdo? Ué… é aquele lá que vivia cheio de frieira? Impossível.

Sim… e eu tenho que admitir que ele ainda tem frieira. Das bravas, rapaz…

Então Januário, cacete. Como diabos é que você ganhou o prêmio?

Comprei tudo naquela tal de Black Friday…  Nunca vi tanto desconto junto. O do churrasco estava pela metade do preço. O da Lambreta uma pechincha. E eu não resisti quando eu vi esse esse do dedão do pé esquerdo… também sou humano, né? Me dei um presente.

Eu não acredito. VOCÊ TEVE CORAGEM DE COMPRAR ESSES PRÊMIOS?

Claro que tive. Paguei no cartão, parcelado e sem juros!

Mas me fala uma coisa, então: chegaram todos direitinho?

Dentro do prazo! Essa tal de Black Friday é uma maravilha!

Ah, então eu não posso perder a do ano que vem…. minha esposa vai adorar o Prêmio de Lavador de Louça Honorário, Malabarista Destaque e aquele lá que lista os melhores…

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É sexta, cruz credo, 3 vezes!

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Caramba! Eu não consigo acreditar! Escute só como foi meu dia hoje:

Primeiro eu acordei atrasado, já que o despertador não cumpriu com a sua função básica, que era me acordar. Aí, me arrumei correndo, tomei café correndo e derrubei um pouco de leite na blusa. Eu estava atrasado, então nem me dei ao trabalho de trocar. Limparia no banheiro do escritório…

Chegando na marginal, um trânsito enorme. Vários caminhões (quebrados) e umas obras que nunca terminam. E os semáforos “Cascão”? Esses tem medo até de garoa. Nem preciso dizer que cheguei na empresa muito, mas muito depois do que eu deveria ter chegado, né?

Minha onda de azar não havia terminado. Meu chefe estava na minha sala e, em vez de me falar “bom dia” ele me disse: “Por que você chegou atrasado? Você entregou o relatório que eu te pedi pra fazer até as 9 horas? E, principalmente, porque você ainda está com calça do seu pijama?

Surpreso com a informação, eu tentei argumentar que era a nova moda entre os executivos de Boston, mas ele não acreditou. Por que será? Soou tão natural que eu quase acreditei em mim mesmo. Fui despedido sem chance de defesa. Acho que menos pelo relatório que eu deveria entregar e mais pelo pijama listrado. Estava feio mesmo. Mencionei que estava furado na virilha esquerda? Então… muito glamour.

Voltando para casa, o pneu furou em algum desses malditos buracos na rua. Descobri que estava sem estepe e sem crédito no celular (porque essas coisas nunca acontecem uma de cada vez e sim, eu ainda tenho pré-pago, qual o problema?), então resolvi deixar minha caranga velha de guerra estacionada no Mercadão, perto de outro calhambeque velho. Peguei um ônibus, lotado (e de pijama) e voltei pra casa.

Meu filho já estava de volta da escola. Disse que tinha faltado um professor, a terceira vez só naquela semana, e que por isso ele tinha saído mais cedo. Me perguntou se não era a melhor hora para irmos ao parque jogar bola, coisa que eu venho prometendo a ele desde o começo do ano.

Expliquei a história do pneu. Ele parou, olhou pra mim, e naquela voz e inocência de criança me perguntou: “Mas papai…. Não é lá no Mercadão que está tendo aquele negócio que os carros velhos são destruídos por uma máquina enorme?”.

Respirei fundo, percebendo que havia acabado de perder a Ofélia, meu carrinho amado. Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa minimamente simpática, meu filho completou: “não faz mal… a gente pode ir naquele carro conversível do amigo da mamãe

Que amigo da mamãe?” – retruquei curioso.

Aquele que sempre vem aqui quando você não está”. Respondeu e virou as costas, se concentrando em qualquer besteira no tablet.

Vamos fazer a contagem? Perdi meu carro, meu emprego, minha dignidade e, agora, pelo visto, a minha esposa também. O que mais falta acontecer?

*Toc toc*. Sim.. é uma onomatopeia para batida na porta. Ele pode ter tocado a campainha, mas a minha memória jura que foi uma batida na porta. Duas para ser mais exato.

As batidas na porta denunciavam uma visita e eu nem tinha tirado a calça pijama ainda. Perguntei quem era. Era o entregador de jornal. Cidadão estava atrasado, hein? Mais atrasado que eu. Mas usava uniforme, o que, bem…. deve contar alguns pontos a favor dele. E sim, eu ainda assino jornal. Mas que implicância comigo hoje, hein?

A manchete da primeira dobra? “Político corrupto e incompetente vai para cadeia”.

Cocei a cabeça. Poxa… era meu dia de sorte.

O Zé é o Zé

Anonimo

O Zé não tem nome. Pode ser João, Antônio, Pedro, Aderbal… Até mesmo José. O Zé é o Zé.

O Zé não tem nacionalidade. Pode ser daqui, acolá, de cima, de baixo, leste ou oeste. O Zé é do mundo. O Zé é o Zé.

O Zé não tem cor. Pode ser preto, branco, amarelo, vermelho púrpura, sépia, filtros do Instagram. O Zé é o arco íris. O Zé é o Zé.

O Zé não nasceu ontem. O Zé não nasceu hoje. O Zé não vai nascer amanhã. O Zé é o Zé e ponto.

O Zé não tem gosto. Gosta de tudo. Não gosta de nada. O Zé é o Zé.

O Zé não tem emprego fixo. Pode ser pedreiro, pode ser gerente, pode ser padeiro, pode ser aviador. O Zé tudo faz. O Zé é o Zé.

O Zé está atolado em dívidas, mas sempre sobra um pouco para emprestar para quem precisa. O Zé não é egoísta. O Zé é o Zé.

O Zé não tem time de futebol. Torce para todo mundo. E todo mundo torce pelo Zé. O Zé é o Zé.

Eu posso ser o Zé. O Zé pode ser você. Nós somos o Zé. Ninguém é o Zé.

Onde está o Zé?

O mundo de Bóris

Ele chegou, ainda pequeno, sapateando em minha cama com barro por toda parte. Foi um encontro desastrado como costuma ser a raça dele. E lá fomos nós para um banho naquela madrugada fria. Ai, você me pergunta: como ele conseguiu isso? ‘Simples': cavando túneis por debaixo da terra, empurrando portas com o fucinho, ou ainda, dando patadas na maçaneta.

O FBI, a Scotland Yard e a Yakusa ligaram para cá. Eles queriam saber como ele fazia tudo isso? Nós não sabiamos. Nem ele. Isso, sem falar nas suas habilidades de ninja! Não.. não.. nada de jogar estrelinhas para desaparecer como nos vídeos games. Bastava um grande salto, e lá estava o cão caramelo para fora de casa. Não somos desalmados, que fique bem claro. Ele ia por que queria ir. Nada na vida dele foi imposto, nem mesmo a morte.

Quando queria, sabia ser um lord para pedir comida ou uma esfinge egípcia. Xii.. quando ficava nessa posição, era sinal de coisa errada. ‘Necessidades’ fora de lugar. O cão também tinha seu lado esportista. Não podia ver uma calça de fazer ginástica(aquela que a mulherada usa para ficar com o bubum empinado, sabe?) Lá ia ele todo serelepe para mais uma caminhada. Como todo bom brasileiro, gostava de um bom futebol, e para completar, tinha nome de presidente russo, mas não era pinguço.

É… ele tinha seu próprio mundo.

Momento poético em espanhol

Depois de um longo tempo…

Estrella

Miro la estrella que va por el cielo

Busco la respuesta que no veo

Las calles llenas de rancor

Dónde está el amor?

Dónde están las flores con sus colores?

Vamos seguir cantando

Como el pájaro por la mañana

El día nos espera

Para cantar

Para vivir

Miro la estrella que va por el cielo

 

Resenha: Gonzaguinha & Gonzagão

Intenso, emocionante.  Assim como os dois personagens de Gonzaguinha & Gonzagão: Uma história brasileira de Regina Echeverria.

O livro narra a história de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, em paralelo com a de Gonzaguinha, seu filho, um dos grandes nomes da MPB.

É interessante notar o tom de confissão dos cantores ao deporem sobre várias passagens de suas vidas, composições e brigas.

Tantos homens casam por amor e nascem filhos defeituosos, que não dão em nada. Eu sempre tive essa vida  desregrada, vivi na zona de prostituição no Mangue e me nasceu esse artista maravilhoso” (Pág. 194)

Nunca fui o Júnior, com o instrumento e a simpatia do pai e por isso há quem pense que nem sou filho dele.  O que fazer, não? Os rótulos nos são imposto e o importante é não vivê-los. Não é porque meu pai é quem é que eu deveria me dar bem com ele.” (Pág. 197)

Esses dois pequenos trechos acima, mostram a maior qualidade dessa obra: a pesquisa de dados e entrevistas feitas pela autora que afinal, é jornalista. No final das contas, os relatos, por si só, acabam guiando o leitor. A tal ponto que a autora só dá umas ‘pinceladas’ com informações históricas e não musicais.

Mas aí também pode morar o lado negativo do livro. Por se apoiar muito em relatos fornecidos pela família, a quem supor uma certa ‘preguiça’ da autora ao escrevê-lo.

O fato é que, quem se deparar com essas 300 páginas vai conhecer uma das mais belas histórias da música brasileira.

Gonzaguinha & Gonzagão, uma história brasileira

Autora: Regina Echeverria

Editora: LeYa

303 páginas (excetuando-se discografia dos artistas)

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Querido ladrão…

Querido Ladrão,

Seja bem vindo, pela décima primeira vez, na minha residência. Fique a vontade. O bolo de fubá ainda está em cima da mesa, como você deixou ontem, mas o café é fresquinho, pode pegar na cafeteira.

Como você pode notar, não sobrou muita coisa. Apenas reparei que você não quis levar o vaso de flores de Holambra, lá da sala de estar. O que foi que aconteceu? Não gostou da decoração? Você está dizendo que eu não tenho bom gosto? É isso? Bom… Eu preferi ser otimista e achar que você não conseguiu carregar. Eu entendo… vídeo game, notebook, celular, jóias, roupas, sapatos, imã de geladeira, panela de pressão e a lição de casa dos meninos é muita coisa para levar só com duas mãos.

A propósito, se vier amanha também, por favor, tire os sapatos antes de entrar na cozinha. Como nos últimos dias choveu bastante, suas pegadas deixam a casa uma imundice. Eu posso ter ficado pobre com as suas visitas, mas ainda somos limpinhos, então, se toca mané e me ajuda aí.

Aproveitando a carta, é possível deixar anotado no caderno, que fica em cima da escrivaninha do segundo quarto, seu nome completo, RG e CPF? Ainda preciso terminar de preencher a Declaração do Imposto de Renda (sempre na última hora) e preciso colocá-lo como dependente. Você acha que sai barato sustentar um bandido profissional? Faça o seguinte também: já deixa anotado quanto você ganha, em média. Eu sei que nem todo roubo é tão proveitoso quanto em minha casa, mas tenho certeza que você melhora a cada dia. A prática leva á perfeição, não é esse o ditado popular?

Amanhã não estarei por aqui entre as 8 e 11 da manhã, mas vovó chega as 11:30. A nonna andou reclamando de você, então, sugiro que não esteja mais aqui nesse horário ou você corre o risco de levar uma bengalada na cabeça. Vai por mim…. a bengalada dói. E muito.

Atenciosamente,

Moradores do 315.

PS: Hoje vai passar um filme muito bom durante a sua estada. Pena que você levou a televisão em uma de suas visitas. Tá vendo só? Se lascou. Vai ter que se contentar com o rádio… Opa, pera aí. O rádio você também levou.

PS2: O vizinho pediu pra você cantar mais baixo. Quer dizer…. foi o ladrão do vizinho quem pediu. Ele disse que não consegue se concentrar no assalto com você cantando. Tá tão mau assim, galã?

PS3: Não quer levar a sogra, na próxima visita? Pago bem.

O testamento de seu Abelardo

(Cenário: Ampla biblioteca, cercada por estantes altas por todos os lados, todas recheadas de livros de todas as épocas. No centro, uma grande mesa de madeira, com 12 cadeiras. Ao centro, um arranjo de flores. Na cabeceira, Josias utiliza seu monóculo para abrir um envelope pardo lacrado. Ao lado direito, Eulália, de véu preto sobre o rosto).

Josias: Muito bem, muito bem…. vamos proceder a leitura do testamento do seu Abelardo, que infelizmente nos deixou na semana passada, vítima de mais um gol do Mirassol sobre o Palmeiras. Que seu Abelardo descanse em paz, certamente vai fazer muita falta. Não tantas quanto os zagueiros, mas ainda assim…

Eulália: Vai, começa logo seu moço!

Josias: Calma Srta. Eulália… já vou começar!

Eulália: Acho bom!

Josias: Bem… Seu Abelardo diz o seguinte em seu testamento. Abre aspas: Após muito pensar para quem deixaria todos os meus bens mais preciosos, eu resolvi dividir a minha fortuna, conseguida após anos e anos de ladroagens, falsificações e malandragens de toda ordem. Honestamente, eu a nunca conseguiria honestamente. Para a minha querida netinha Eulália…

Eulália [interrompendo]: Sou eu! Sou eu!

Josias [ignorando a interrupção]: …deixo todas as jóias da família. Que ela faça bom uso dos colares, dos anéis, das gargantilhas e de todos os brincos que tenho guardado na escrivaninha e que, com certeza, não ficariam tão bonitas nos pescoços e orelhas das madames que antes as guardavam em suas caixinhas de jóias.

Deixo também toda a minha coleção de bijuterias, desejando que ela saiba enganar a todos, assim como eu fiz por muito tempo.

Eulália: Obrigado vovô, você não vai se decepcionar! Eu sabia que ficaria com a riqueza da família!

Josias: Para o meu querido Wagner.. ou Vagner? Nunca consegui escrever direito o nome desse abestado…

Eulália [interrompendo novamente]… meu irmão!

Josias [olhando torno] …deixo a minha coleção de bandidinhos de chumbo, de discos da Carmem Miranda e de cadeados que colecionei ao longo de toda uma vida de assaltos em residências, chiques e humildes. Que ele se inspire nesses objetos para seguir o legado da família.

Eulália [suspirando]: puxa… maninho teve muita sorte. Também ficou com a riqueza da família.

Josias: Para Terêncio, meu filho, deixo os contatos que tenho com todos os políticos mais poderosos do país, porque, afinal de contas, ladrão que se preze também deve ter os seus ídolos e mestres, para crescer, evoluir e se tornar um bandido melhor. Deixo, ainda, as indicações para cargos no Senado.

Eulália: Vovô sempre foi muito cuidadoso com a nossa educação. Acho que essa parte também é uma das riquezas da família.

Josias: Por fim, deixo para meu fiel motorista, Jarbas, meus mais sinceros votos de agradecimento pela companhia inestimável em todas as viagens que fizemos, seja para turismo, seja fugindo da polícia…

Eulália [interrompendo]: Ha ha ha.. coitado do Jarbas! Ficou na pindaíba…

Josias [irritado]: e deixo também minha plantação de tomates na minha fazendinha no interior de Goiás. Adeus.

Eulália [furiosa]: O QUE? VOVÔ DEIXOU PRO JARBAS A FAZENDA DE TOMATE?! QUE INJUSTIÇA! ELE SIM FICOU COM A FORTUNA DA FAMÍLIA! ISSO É UM ABSURDO! UM ABSURDO! COMO ASSIM O JARBAS?!

Luzes diminuem lentamente enquanto Eulália reclama.

Fecha a cortina.

Final Popular

Itaquera e La Boca se misturam, pois ali, vive gente humilde, mas, trabalhadora e feliz. Pacaembu e La Bombonera. Dois caldeirões que mexem com o brio dos donos da casa e faz os visitantes pensarem duas vezes, antes de pisar ali. Duas “nações” onde o Dez azul e amarelo reverência o Dez alvinegro. Mesmo, o primeiro sendo Dom Diego e o segundo não tendo conquistado título nenhum perante a sua massa Fiel. Por que ele é o rival? Não, ele é o Rivellino. Irmãos “gigantes” por natureza, que como todo “irmão”, a partir de amanhã, brigarão. Brigarão pela América do Sul.

Resenha: A harmonia do mundo

Resenha originalmente escrita para o blog Ciensacional ( http://ciensacional.com.br/) em outubro de 2011

Imagine você, um professor universitário, que se vê superado pelo seu pupilo. E o que sente? Raiva? Orgulho? Não, uma grande frustração. Esse é o caso do mestre Michael Maestlin. Ele foi o mentor de um dos maiores físicos da história: o alemão Johannes Kepler. E esse caso é contado no romance “A harmonia do mundo”, escrito por Marcelo Gleiser e lançado pela Companhia das Letras em 2006.

Kepler, assim como Copérnico, também acreditava que os planetas giravam em torno do sol. E isso em uma época em que a igreja católica e o seu próprio mestre diziam justamente o contrário, que o sol girava em torno dos planetas. Soma-se a toda essa celeuma cientifica o fato de estarmos em plena Contra Reforma do século XVII, ou seja, os nervos estavam à “flor da pele”.

E, como se já não bastasse, Kepler vinha de família humilde, tem a vida arrasada pela morte da mulher e pela constante falta de dinheiro. Isso até se tornar matemático oficial do reino da Dinamarca por influência de outro físico, Tycho.

Toda a história é narrada a partir do diário que Kepler escreve para Maestlin antes de morrer. Aí está um ponto positivo que podemos encontrar descrito na “orelha” do livro: “Baseado em ampla e cuidadosa pesquisa, narrado num estilo saboroso, “A harmonia do mundo” relata (…) numa conjunção, talvez única, a fé inabalável nos desígnios de Deus e o anseio místico por demonstrá-los na perfeição do universo”. Resumindo: essa cuidadosa pesquisa feita pelo autor ajuda muito no entendimento da obra.

Como se trata de um romance, as fórmulas e teorias desenvolvidas por Kepler acabam em segundo plano, diante de todo contexto histórico dado por Gleiser durante a narrativa.

Sobre o autor

Marcelo Gleiser nasceu no Rio de Janeiro em 1959. É físico, astrônomo, escritor, roteirista e leciona em diversas universidades dos EUA. Como escritor foi ganhador do prêmio Jabuti pelas obras “A dança do universo” (1997) e “O fim da terra e do céu” (2001). Seu último livro é “Criação imperfeita: Cosmo, vida e o código oculto da natureza”, lançando em 2010.

Um romance físico

Janelas

Me debrucei sobre o parapeito daquela janela e mirei o horizonte cheio de casas, montanhas, ruas, carros… vida. Um lágrima escorreu do meu olho esquerdo e dei uma leve sorriso. Não estou acostumado a chorar. Mas aquela lágrima foi inevitável. Pensei no emprego que tinha acabado de perder, nas coisas horríveis que meu patrão, digo, ex-patrão me falou. Coisas injustas, humilhantes.

Pensei também nas contas a pagar, em tudo o que eu teria que abrir mão naquele momento. Luxos, supérfluos. Pensei na festa de aniversário da minha filha. Na festa que ela não mais teria. Outras tantas lágrimas lavaram meu rosto. Combinavam perfeitamente com o coração apertado e aquele nó na garganta. Como explicar? Como simplesmente dizer que “papai não tem dinheiro”? Como negar um doce, um bolo, um presente?

O céu ia sendo pintado com cores que só a paleta de um Artista seria capaz de criar. Enxuguei as lágrimas na manga da camisa, respirei fundo e dei as costas para aquela janela. Prometi a mim mesmo que só olharia para aquela paisagem novamente quando minha vida estivesse refeita. No dia que eu pudesse dizer sim aos desejos mais justos de minha filha.

Passou-se dias, meses… anos? Não sei ao certo.

Só sei que percebi que estava na hora de cumprir aquela minha promessa. Me debrucei no parapeito daquela janela, olhei para uma paisagem muita parecida com aquela que tinha visto outrora e mais uma teimosa lagrima escorreu pelo meu rosto. Ventava. Dessa vez a lagrima pulou feliz, foi libertada do cativeiro na qual a mantive todo esse tempo.

Eu recuperei meu emprego. Quer dizer… fui contratado pela empresa concorrente. Comecei debaixo, ganhando menos do que gostaria e menos ainda do que merecia. Dei uma boa ideia aqui, outra ali. Ganhei a confiança dos meus superiores. Fui subindo de cargo. Voltei a ser eu mesmo.

Numa daquelas jogadas que a vida reserva no tabuleiro da existência minha empresa comprou minha ex-empresa. Virei chefe do meu antigo patrão. Juro que fui o mais profissional que consegui, mas ele não aguentou a humilhação (qual humilhação eu não sei, mas, enfim…). Com o ego ferido, pediu as contas.

Hoje aquelas montanhas, árvores, ruas e carros não olham um homem derrotado pelas circunstâncias da vida, mas sim alguém que fez da janela uma porta para ser outra pessoa. Cujos desafios sequer imaginava da última vez.

Que artista imaginaria os contornos que a vida traçou para, naquele momento, estar olhando aquela paisagem novamente? E, pensando nisso, quais caprichos estariam reservados para mim, quando, finalmente, olhar pela janela mais uma vez?

Pela última vez?

Momento Poético 5

Depois de um longo e congelante inverno, esse reles escriba volta com seu momento poético. Agora na versão número 5 e em inglês! Chique! Corre lá e pega o dicionário!

 

The time says for us

I walk through the avenues looking for the perfect soul for that I can share my dreams, confusions and doubts

Set down in pubs I see all around of me thinking: what´s going on? I don´t know girl

My friends laugh of me when I tell for them my adventures search a true love

But, I don´t desist, God will help me find a treasure hide in any beach, jungle or until the sky

I lost my heaven, who knew?

The time says for us if we were right or wrong

If we didn’t go so quickly

Relax boy.. Let the nature show your way with your heart

Enjoy it and the facts happen naturally

 

Boas notícias?

Quinta feira, 9:43 da manhã. Tudo parecia calmo na empresa do seu Nicolau. Ops, desculpa… DOUTOR NICOLAU. Está melhor agora? Posso continuar umas das minhas poucas falas aqui nessa história? Sim? Muito obrigado.

Como eu ia dizendo, Doutor Nicolau chegou no escritório, cumprimentou o porteiro, deu um tapa na bunda da faxineira e foi até a sua sala. Uma manhã ainda normal. Deu até tempo de sentar em sua poltrona velha, porém fofinha e olhar as principais notícias nos portais online. Dizia ele:

Er.. então, né… DIZIA ELE.

VAI PÔ! SUA VEZ… JÁ ACABEI!

Ah sim… hum… vamos lá. Uma bela manhã lá fora. Um terno bem passado. Um café da manhã delicioso. Esposa no cabeleireiro e as crianças na escola…

Nicolau ouve um toc toc e manda entrar. Era Aristides, seu assistente pessoal e, porque não, amigo: “Chefe… hum… Bom dia… tenho más notícias…

E é aqui que a vida deixa de ser como nos comerciais de margarina. Fale Aníbal… mas seja breve. Você sabe que não suporto más notícias…”

Então é melhor sentar, porque as más notícias vieram a cavalo. Ou melhor… de ônibus” – a voz do Aristides não demonstrava qualquer emoção.

Fale homem!” – Doutor Nicolau aproveitou e afrouxou a gravata.

O  Nakashima, da Contabilidade. Estava no ônibus, vindo pra cá. Aí o ônibus deu uma freada, o Nakashima bateu a cabeça no banco e está no hospital” – relatou, preciso. Os gestos que fazia com as mãos davam uma boa ilustração da gravidade da batida.

E os relatórios mensais estão bem? Digo… o Ishimura está ferido?” – levantou-se e apoiou as palmas da mãos na mesa.

É Nakashima – resolveu ser um pouco enfático, já que constantemente ele próprio era chamado de “Arineu” –  e ele não está nada bem. E os relatórios estavam no pendrive dele, que agora é só farelo. Na hora de tirar o cara de lá, alguém deixou o pendrive cair… e aí foi como se uma manada de elefantes tivesse passado por cima. Um massacre.”

Quero ver como é que eu vou explicar pros acionistas…” - coçou a cabeça e deu um chute numa pedrinha imaginária.

” Bom, isso eu não sei. Mas aproveita e explica porque as ações da empresa despencaram hoje…”

COMO É QUE É? TÁ FICANDO MALUCO?

Não… ainda não – balançou a cabeça de forma negativa. Mas hoje as ações da empresa estão menores que a minha vontade de trabalhar na segunda pela manhã…” – balançou a cabeça de novo, dessa vez de maneira afirmativa

Acabou? Chega né… tá difícil de suportar… ”  – Doutor Nicolau estava prestes a explodir. Metaforicamente, claro.

Eu mencionei que a concorrente virou parceira do nosso melhor fornecedor? Vão baratear os preços e tal…

NÃO! ISSO NÃO!! AI MEU CORAÇÃO…” – Pôs a mão no peito e, tentou em vão, desabotoar a camisa.

Ih chefe… imagina seu disser que o craque do nosso time tá de malas prontas…

A voz saiu arrastada, desfalecendo: “Pra Europa? Pras Arábias?

Não… pro nosso rival!

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH…

Eu odeio você

Eu odeio você
Não suporto seu olhar, seu animal
Vou contar o final dos livros que você lê
Vou falar que o mocinho morre no final

Eu odeio você
Não deixarei o ultimo pedaço de bolo
Sumirei com o restinho do pavê
Não sobrará nem um grão como consolo

Eu odeio você, já disse
Vou te deletar do meu Orkut
Não me importo se é esquisitice
O que vale é o caput

Não passe pela minha porta
Não entupa a minha aorta
Vai-te, suma, transporta
O que nasceu ruim nunca desentorta

Para completar todo o meu asco
Um recado, papo reto, desafeto
Saia da minha vida, pule do penhasco
Carrasco…