Querido ladrão…

Querido Ladrão,

Seja bem vindo, pela décima primeira vez, na minha residência. Fique a vontade. O bolo de fubá ainda está em cima da mesa, como você deixou ontem, mas o café é fresquinho, pode pegar na cafeteira.

Como você pode notar, não sobrou muita coisa. Apenas reparei que você não quis levar o vaso de flores de Holambra, lá da sala de estar. O que foi que aconteceu? Não gostou da decoração? Você está dizendo que eu não tenho bom gosto? É isso? Bom… Eu preferi ser otimista e achar que você não conseguiu carregar. Eu entendo… vídeo game, notebook, celular, jóias, roupas, sapatos, imã de geladeira, panela de pressão e a lição de casa dos meninos é muita coisa para levar só com duas mãos.

A propósito, se vier amanha também, por favor, tire os sapatos antes de entrar na cozinha. Como nos últimos dias choveu bastante, suas pegadas deixam a casa uma imundice. Eu posso ter ficado pobre com as suas visitas, mas ainda somos limpinhos, então, se toca mané e me ajuda aí.

Aproveitando a carta, é possível deixar anotado no caderno, que fica em cima da escrivaninha do segundo quarto, seu nome completo, RG e CPF? Ainda preciso terminar de preencher a Declaração do Imposto de Renda (sempre na última hora) e preciso colocá-lo como dependente. Você acha que sai barato sustentar um bandido profissional? Faça o seguinte também: já deixa anotado quanto você ganha, em média. Eu sei que nem todo roubo é tão proveitoso quanto em minha casa, mas tenho certeza que você melhora a cada dia. A prática leva á perfeição, não é esse o ditado popular?

Amanhã não estarei por aqui entre as 8 e 11 da manhã, mas vovó chega as 11:30. A nonna andou reclamando de você, então, sugiro que não esteja mais aqui nesse horário ou você corre o risco de levar uma bengalada na cabeça. Vai por mim…. a bengalada dói. E muito.

Atenciosamente,

Moradores do 315.

PS: Hoje vai passar um filme muito bom durante a sua estada. Pena que você levou a televisão em uma de suas visitas. Tá vendo só? Se lascou. Vai ter que se contentar com o rádio… Opa, pera aí. O rádio você também levou.

PS2: O vizinho pediu pra você cantar mais baixo. Quer dizer…. foi o ladrão do vizinho quem pediu. Ele disse que não consegue se concentrar no assalto com você cantando. Tá tão mau assim, galã?

PS3: Não quer levar a sogra, na próxima visita? Pago bem.

O testamento de seu Abelardo

(Cenário: Ampla biblioteca, cercada por estantes altas por todos os lados, todas recheadas de livros de todas as épocas. No centro, uma grande mesa de madeira, com 12 cadeiras. Ao centro, um arranjo de flores. Na cabeceira, Josias utiliza seu monóculo para abrir um envelope pardo lacrado. Ao lado direito, Eulália, de véu preto sobre o rosto).

Josias: Muito bem, muito bem…. vamos proceder a leitura do testamento do seu Abelardo, que infelizmente nos deixou na semana passada, vítima de mais um gol do Mirassol sobre o Palmeiras. Que seu Abelardo descanse em paz, certamente vai fazer muita falta. Não tantas quanto os zagueiros, mas ainda assim…

Eulália: Vai, começa logo seu moço!

Josias: Calma Srta. Eulália… já vou começar!

Eulália: Acho bom!

Josias: Bem… Seu Abelardo diz o seguinte em seu testamento. Abre aspas: Após muito pensar para quem deixaria todos os meus bens mais preciosos, eu resolvi dividir a minha fortuna, conseguida após anos e anos de ladroagens, falsificações e malandragens de toda ordem. Honestamente, eu a nunca conseguiria honestamente. Para a minha querida netinha Eulália…

Eulália [interrompendo]: Sou eu! Sou eu!

Josias [ignorando a interrupção]: …deixo todas as jóias da família. Que ela faça bom uso dos colares, dos anéis, das gargantilhas e de todos os brincos que tenho guardado na escrivaninha e que, com certeza, não ficariam tão bonitas nos pescoços e orelhas das madames que antes as guardavam em suas caixinhas de jóias.

Deixo também toda a minha coleção de bijuterias, desejando que ela saiba enganar a todos, assim como eu fiz por muito tempo.

Eulália: Obrigado vovô, você não vai se decepcionar! Eu sabia que ficaria com a riqueza da família!

Josias: Para o meu querido Wagner.. ou Vagner? Nunca consegui escrever direito o nome desse abestado…

Eulália [interrompendo novamente]… meu irmão!

Josias [olhando torno] …deixo a minha coleção de bandidinhos de chumbo, de discos da Carmem Miranda e de cadeados que colecionei ao longo de toda uma vida de assaltos em residências, chiques e humildes. Que ele se inspire nesses objetos para seguir o legado da família.

Eulália [suspirando]: puxa… maninho teve muita sorte. Também ficou com a riqueza da família.

Josias: Para Terêncio, meu filho, deixo os contatos que tenho com todos os políticos mais poderosos do país, porque, afinal de contas, ladrão que se preze também deve ter os seus ídolos e mestres, para crescer, evoluir e se tornar um bandido melhor. Deixo, ainda, as indicações para cargos no Senado.

Eulália: Vovô sempre foi muito cuidadoso com a nossa educação. Acho que essa parte também é uma das riquezas da família.

Josias: Por fim, deixo para meu fiel motorista, Jarbas, meus mais sinceros votos de agradecimento pela companhia inestimável em todas as viagens que fizemos, seja para turismo, seja fugindo da polícia…

Eulália [interrompendo]: Ha ha ha.. coitado do Jarbas! Ficou na pindaíba…

Josias [irritado]: e deixo também minha plantação de tomates na minha fazendinha no interior de Goiás. Adeus.

Eulália [furiosa]: O QUE? VOVÔ DEIXOU PRO JARBAS A FAZENDA DE TOMATE?! QUE INJUSTIÇA! ELE SIM FICOU COM A FORTUNA DA FAMÍLIA! ISSO É UM ABSURDO! UM ABSURDO! COMO ASSIM O JARBAS?!

Luzes diminuem lentamente enquanto Eulália reclama.

Fecha a cortina.

Final Popular

Itaquera e La Boca se misturam, pois ali, vive gente humilde, mas, trabalhadora e feliz. Pacaembu e La Bombonera. Dois caldeirões que mexem com o brio dos donos da casa e faz os visitantes pensarem duas vezes, antes de pisar ali. Duas “nações” onde o Dez azul e amarelo reverência o Dez alvinegro. Mesmo, o primeiro sendo Dom Diego e o segundo não tendo conquistado título nenhum perante a sua massa Fiel. Por que ele é o rival? Não, ele é o Rivellino. Irmãos “gigantes” por natureza, que como todo “irmão”, a partir de amanhã, brigarão. Brigarão pela América do Sul.

Resenha: A harmonia do mundo

Resenha originalmente escrita para o blog Ciensacional ( http://ciensacional.com.br/) em outubro de 2011

Imagine você, um professor universitário, que se vê superado pelo seu pupilo. E o que sente? Raiva? Orgulho? Não, uma grande frustração. Esse é o caso do mestre Michael Maestlin. Ele foi o mentor de um dos maiores físicos da história: o alemão Johannes Kepler. E esse caso é contado no romance “A harmonia do mundo”, escrito por Marcelo Gleiser e lançado pela Companhia das Letras em 2006.

Kepler, assim como Copérnico, também acreditava que os planetas giravam em torno do sol. E isso em uma época em que a igreja católica e o seu próprio mestre diziam justamente o contrário, que o sol girava em torno dos planetas. Soma-se a toda essa celeuma cientifica o fato de estarmos em plena Contra Reforma do século XVII, ou seja, os nervos estavam à “flor da pele”.

E, como se já não bastasse, Kepler vinha de família humilde, tem a vida arrasada pela morte da mulher e pela constante falta de dinheiro. Isso até se tornar matemático oficial do reino da Dinamarca por influência de outro físico, Tycho.

Toda a história é narrada a partir do diário que Kepler escreve para Maestlin antes de morrer. Aí está um ponto positivo que podemos encontrar descrito na “orelha” do livro: “Baseado em ampla e cuidadosa pesquisa, narrado num estilo saboroso, “A harmonia do mundo” relata (…) numa conjunção, talvez única, a fé inabalável nos desígnios de Deus e o anseio místico por demonstrá-los na perfeição do universo”. Resumindo: essa cuidadosa pesquisa feita pelo autor ajuda muito no entendimento da obra.

Como se trata de um romance, as fórmulas e teorias desenvolvidas por Kepler acabam em segundo plano, diante de todo contexto histórico dado por Gleiser durante a narrativa.

Sobre o autor

Marcelo Gleiser nasceu no Rio de Janeiro em 1959. É físico, astrônomo, escritor, roteirista e leciona em diversas universidades dos EUA. Como escritor foi ganhador do prêmio Jabuti pelas obras “A dança do universo” (1997) e “O fim da terra e do céu” (2001). Seu último livro é “Criação imperfeita: Cosmo, vida e o código oculto da natureza”, lançando em 2010.

Um romance físico

Janelas

Me debrucei sobre o parapeito daquela janela e mirei o horizonte cheio de casas, montanhas, ruas, carros… vida. Um lágrima escorreu do meu olho esquerdo e dei uma leve sorriso. Não estou acostumado a chorar. Mas aquela lágrima foi inevitável. Pensei no emprego que tinha acabado de perder, nas coisas horríveis que meu patrão, digo, ex-patrão me falou. Coisas injustas, humilhantes.

Pensei também nas contas a pagar, em tudo o que eu teria que abrir mão naquele momento. Luxos, supérfluos. Pensei na festa de aniversário da minha filha. Na festa que ela não mais teria. Outras tantas lágrimas lavaram meu rosto. Combinavam perfeitamente com o coração apertado e aquele nó na garganta. Como explicar? Como simplesmente dizer que “papai não tem dinheiro”? Como negar um doce, um bolo, um presente?

O céu ia sendo pintado com cores que só a paleta de um Artista seria capaz de criar. Enxuguei as lágrimas na manga da camisa, respirei fundo e dei as costas para aquela janela. Prometi a mim mesmo que só olharia para aquela paisagem novamente quando minha vida estivesse refeita. No dia que eu pudesse dizer sim aos desejos mais justos de minha filha.

Passou-se dias, meses… anos? Não sei ao certo.

Só sei que percebi que estava na hora de cumprir aquela minha promessa. Me debrucei no parapeito daquela janela, olhei para uma paisagem muita parecida com aquela que tinha visto outrora e mais uma teimosa lagrima escorreu pelo meu rosto. Ventava. Dessa vez a lagrima pulou feliz, foi libertada do cativeiro na qual a mantive todo esse tempo.

Eu recuperei meu emprego. Quer dizer… fui contratado pela empresa concorrente. Comecei debaixo, ganhando menos do que gostaria e menos ainda do que merecia. Dei uma boa ideia aqui, outra ali. Ganhei a confiança dos meus superiores. Fui subindo de cargo. Voltei a ser eu mesmo.

Numa daquelas jogadas que a vida reserva no tabuleiro da existência minha empresa comprou minha ex-empresa. Virei chefe do meu antigo patrão. Juro que fui o mais profissional que consegui, mas ele não aguentou a humilhação (qual humilhação eu não sei, mas, enfim…). Com o ego ferido, pediu as contas.

Hoje aquelas montanhas, árvores, ruas e carros não olham um homem derrotado pelas circunstâncias da vida, mas sim alguém que fez da janela uma porta para ser outra pessoa. Cujos desafios sequer imaginava da última vez.

Que artista imaginaria os contornos que a vida traçou para, naquele momento, estar olhando aquela paisagem novamente? E, pensando nisso, quais caprichos estariam reservados para mim, quando, finalmente, olhar pela janela mais uma vez?

Pela última vez?

Momento Poético 5

Depois de um longo e congelante inverno, esse reles escriba volta com seu momento poético. Agora na versão número 5 e em inglês! Chique! Corre lá e pega o dicionário!

 

The time says for us

 

I walk through the avenues looking for the perfect soul for that I can share my dreams, confusions and doubts

Set down in pubs I see all around of me thinking: what´s going on? I don´t know girl

 

My friends laugh of me when I tell for them my adventures search a true love

But, I don´t desist, God will help me find a treasure hide in any beach, jungle or until the sky

I lost my heaven, who knew?

 

The time says for us if we were right or wrong

If we didn’t go so quickly

Relax boy.. Let the nature show your way with your heart

Enjoy it and the facts happen naturally  

 

Me sigam: www.twitter.com/carlaojr

 

 

Boas notícias?

Quinta feira, 9:43 da manhã. Tudo parecia calmo na empresa do seu Nicolau. Ops, desculpa… DOUTOR NICOLAU. Está melhor agora? Posso continuar umas das minhas poucas falas aqui nessa história? Sim? Muito obrigado.

Como eu ia dizendo, Doutor Nicolau chegou no escritório, cumprimentou o porteiro, deu um tapa na bunda da faxineira e foi até a sua sala. Uma manhã ainda normal. Deu até tempo de sentar em sua poltrona velha, porém fofinha e olhar as principais notícias nos portais online. Dizia ele:

Er.. então, né… DIZIA ELE.

VAI PÔ! SUA VEZ… JÁ ACABEI!

Ah sim… hum… vamos lá. Uma bela manhã lá fora. Um terno bem passado. Um café da manhã delicioso. Esposa no cabeleireiro e as crianças na escola…

Nicolau ouve um toc toc e manda entrar. Era Aristides, seu assistente pessoal e, porque não, amigo: “Chefe… hum… Bom dia… tenho más notícias…

E é aqui que a vida deixa de ser como nos comerciais de margarina. Fale Aníbal… mas seja breve. Você sabe que não suporto más notícias…”

Então é melhor sentar, porque as más notícias vieram a cavalo. Ou melhor… de ônibus” – a voz do Aristides não demonstrava qualquer emoção.

Fale homem!” – Doutor Nicolau aproveitou e afrouxou a gravata.

O  Nakashima, da Contabilidade. Estava no ônibus, vindo pra cá. Aí o ônibus deu uma freada, o Nakashima bateu a cabeça no banco e está no hospital” – relatou, preciso. Os gestos que fazia com as mãos davam uma boa ilustração da gravidade da batida.

E os relatórios mensais estão bem? Digo… o Ishimura está ferido?” – levantou-se e apoiou as palmas da mãos na mesa.

É Nakashima – resolveu ser um pouco enfático, já que constantemente ele próprio era chamado de “Arineu” -  e ele não está nada bem. E os relatórios estavam no pendrive dele, que agora é só farelo. Na hora de tirar o cara de lá, alguém deixou o pendrive cair… e aí foi como se uma manada de elefantes tivesse passado por cima. Um massacre.”

Quero ver como é que eu vou explicar pros acionistas…” - coçou a cabeça e deu um chute numa pedrinha imaginária.

” Bom, isso eu não sei. Mas aproveita e explica porque as ações da empresa despencaram hoje…”

COMO É QUE É? TÁ FICANDO MALUCO?

Não… ainda não – balançou a cabeça de forma negativa. Mas hoje as ações da empresa estão menores que a minha vontade de trabalhar na segunda pela manhã…” – balançou a cabeça de novo, dessa vez de maneira afirmativa

Acabou? Chega né… tá difícil de suportar… “  – Doutor Nicolau estava prestes a explodir. Metaforicamente, claro.

Eu mencionei que a concorrente virou parceira do nosso melhor fornecedor? Vão baratear os preços e tal…

NÃO! ISSO NÃO!! AI MEU CORAÇÃO…” – Pôs a mão no peito e, tentou em vão, desabotoar a camisa.

Ih chefe… imagina seu disser que o craque do nosso time tá de malas prontas…

A voz saiu arrastada, desfalecendo: “Pra Europa? Pras Arábias?

Não… pro nosso rival!

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH…

Eu odeio você

Eu odeio você
Não suporto seu olhar, seu animal
Vou contar o final dos livros que você lê
Vou falar que o mocinho morre no final

Eu odeio você
Não deixarei o ultimo pedaço de bolo
Sumirei com o restinho do pavê
Não sobrará nem um grão como consolo

Eu odeio você, já disse
Vou te deletar do meu Orkut
Não me importo se é esquisitice
O que vale é o caput

Não passe pela minha porta
Não entupa a minha aorta
Vai-te, suma, transporta
O que nasceu ruim nunca desentorta

Para completar todo o meu asco
Um recado, papo reto, desafeto
Saia da minha vida, pule do penhasco
Carrasco…

R-U-A

A Rua é muito mais do que aquele pedaço de pixe, também chamado de pistas de rolamento (alô, é da auto escola?), na qual os veículos compartilham com nossas fossas nasais tudo aquilo que rejeitam. A Rua – assim mesmo, com R maiúsculo – começa imediatamente após o portão de nossas residências e se estende ate onde a vista alcança. Ou até onde o Google Maps tem registro.

Se essa rua (se essa rua) fosse minha
Eu mandava (eu mandava) ladrilhar
Com asfalto (com asfalto) de verdade
Para meu (para o meu) carrão passar

É na Rua que as pessoas são mais pessoas. Você encontra meninos cujos sobrenomes seguem a morada, velhos ébrios, mulheres que juram que a palma da sua mão diz muito mais do que simplesmente a culpa por um punzinho maroto. O seu vizinho pode ser um gentleman, mas não se iluda: mais cedo ou mais tarde ele vai largar aquela latinha de refrigerante na sarjeta. A latinha vai se misturar com algumas dignidades perdidas e juntas escorrerão para o bueiro do esquecimento.

A Rua é também o local de trabalho de muita gente. Não xingue o moço da que coloca o papel de propaganda no para brisa do seu carro. Mesmo que chova e a papa grudenta emporcalhe todo o seu vidro. Aprenda a dar bom dia para as garis e margaridas, para os vendedores de pano de prato, para aquele tiozinho inconveniente que insiste em te vender o bilhete de loteria. A Rua pode ludibriar sua capacidade de enxergá-los como seres humanos.

Pausa importante: isso não é um Power-Point motivacional. Está mais para uma reflexão sobre a Rua. Fim da pausa importante.

A Rua não tem apenas aspectos negativos. Ela pode ser muito mais importante do que imagina. Tão importante quanto os vermes que aumentam sua resistência e evitam que você adoeça a cada ventinho de janela entreaberta.

A Rua faz brilhar os olhos das crianças que ficam penduradas nas grades dos edifícios. Geralmente é também o primeiro desafio delas. Atravessar a rua andando, mesmo que de mãos dadas, envolve um grau de adrenalina muito maior do que chutar uma bola ou abocanhar a mamadeira. É desafiante. É a Rua.

Não há estádio de futebol melhor. Não há autódromo melhor. Não há campo de bets/taco que a supere. Na verdade, a Rua pode ser o que você quiser, do jeito que você quiser. É uma tela em branco pedindo as tintas da criatividade. É a massinha de modelar esperando mãos que a transforme numa obra.

A Rua é minha, é sua , é todo mundo. Por isso mesmo ela não é de ninguém.

Cidade pequena é uma merda

Naquele nascer tímido do sol ouvia-se o sino da Igreja Matriz repicar ao fundo. Tão ao fundo que, na verdade, estamos falando da Matriz da cidade vizinha. Assim começou o dia  num pequeno vilarejo encravado no meio do quase nada, mas que o Prefeito insiste em chamar de cidade quando faz seus discursos emocionados no seu palanque de madeira ilegal.

De fato aquela cidade era pequena. Um ovo, se você quiser uma comparação. Tanto é que  todos os habitantes -  do capelão ao cafetão – possuiam apenas 2 sobrenomes legítimos. Uma família casava-se c0m a outra e inventava um sobrenome, só pra impressionar aqueles que ousavam pedir a lista telefônica. Ousar é a palavra certa. Todo mundo lá se conhece por nome, sobrenome, apelido, ficha criminal, maternidade, emprego…. Todo mundo sabe quem traiu quem, quem tá devendo na venda ou quem ganhou um aumento no trampo só porque puxou o saco do patrão. Não adianta esconder seu segredo naquele porquinho rosado da estante da sala… todo mundo sabe.

Os parágrafos que você pacientemente leu dão uma ideia geral de como é o cenário da nossa historinha. O que eu quero contar é como Azaléia foi obrigada a sumir do mapa por causa de algo que ela não fez, com o dinheiro que ela não tinha, num local que ela nunca visitou. Vejamos como foi:

Azália era ruiva. Azaléia também. Azália tinha olhos verdes. Azaléia também. Azália gostava de pintar suas unhas com Amarelo Pastel, 219 da marca Hits, exatamente a mesma cor de Azaléia. Nessa altura da frase você já deve ter sacado que Azaléia e Azália eram irmãs gêmeas e gostavam de mostrar essa qualidade pra toda a população da nossa cidadezinha de merda.

Azaléia era a gêmea boa, pura, casta. Praticamente uma Paulina Martins. Já Azália, por sua vez, era a encarnação de Paola Bracho. Usurpadora Feelings. Mas como já dissemos exaustivamente nesse texto, a cidade era pequena, todos se conheciam… Azália não poderia colocar em prática tudo o que planejava. Teve que se contentar com um mero plano para comer bem. E quase de graça.

O plano deveria contar com a participação involuntária da irmã, ao menos no primeiro teste. E foi assim que aconteceu:

Azália entrou em sua cafeteria favorita para tomar seu brunch favorito. Sentou-se numa mesa afastada e pediu completo, com direito a croissants, cappuccinos, tortas de limão, pães recheados, doces, cafés… Não sairia por menos de 30 reias. Azaléia (a irmã boa) entrou pouco tempo depois. Pediu coisas leves, saudáveis. Não gastaria mais do que 7 reais para pagar tudo o que iria consumir.

Ambas satisfeitas após a refeição, pediram a conta. O pulo do gato deveria ser dado no momento da entrega da conta. Azália levantou-se, foi até a mesa da irmã, abraçou-a e beijou-lhe as faces. Enquanto a falsidade reinava em cima, em baixo suas hábeis mãos trocavam as contas. Azália saiu primeiro e pagou os 7 reais. Azaléia, coitada, argumentou com a moça do caixa que não tinha consumido tudo aquilo e que havia ocorrido um engano. Usou exatamente esses termos: “Sua garçonete deve ter trocado as contas“. Saiu pagando os 7 reais também.

Vitória de Azália! Em uma semana repetiria o golpe, dessa vez com uma estranha. E num restaurante maior, claramente o mais chique da cidade. O que não quer dizer muita coisa, claro.

Repetiu-se tudo como no teste. Escolheu uma vítima que estivesse comendo pouco, trocou as contas e saiu pagando menos da metade do que deveria. O pobre cidadão reivindicou seus direitos de bancar somente o que consumiu e conseguiu o consentimento da gerência. Só que dessa vez dona Flora, velhinha ranzinza e com o grau das lentes dos óculos muito baixo para corrigir seu problema de visão, presenciou tudo, atribuiu o golpe a Azaléia e como uma autêntica fofoqueira, espalhou para a cidade inteira.

Azaléia era oficialmente uma gatuna mau caráter, que se aproveitava da boa fé dos comerciantes para aplicar sórdidos golpes. Seus feitos foram inflacionados, de modo que se contava que até estátua sumida de Santo Agostinho era sua culpa.  A casa foi pixada com palavras de ordem e protesto. O capelão fez o sermão daquele Domingo falando sobre o ocorrido e meteu o santo pau na pobre garota. As lojas não lhe vendiam nada parcelado. Entradas no cinema lhe eram negadas. Nenhum garotão boa pinta lhe convidava pra sair. A vida de Azaléia tinha virado um inferno.

Sendo assim, nada mais restava para Azaléia. Era hora de abandonar aquela cidadezinha de merda. Para sua irmã Azália, um mundo de possibilidades abriu-se. Hoje ela ainda percorre cidades do interior aplicando seus pequenos golpes, sempre fazendo questão de apresentar-se como Azaléia.

Pobres gêmeas…

Precisa-se de elogios. Remunera-se bem

Dentre todos os funcionários daquela repartição pública, Alcidinei era o primeiro a chegar. Era ele que acendia as luzes, fazia o café, ligava os computadores, passava um pano nas mesas e verificava se tudo estava nos conformes, não necessariamente nessa ordem. Era também a última alma viva a abandonar o local de trabalho, desligando as máquinas, arrumando as cadeiras, guardando as canetas as gavetas e apagando as luzes, necessariamente nessa ordem. Era o funcionário exemplar, que nunca será promovido e seu salário não será maior em função dos seus esforços. Só por essas duas características, já valia a pena tê-lo no staff.

Entre o grande evento de chegar e o de partir de sua Secretaria, ele trabalhava. E trabalha bem pra caramba. Tudo o que você precisasse ele dava um jeito de conseguir, mesmo que não fosse de competência dele. Telefonava para todos os ramais, almoçava o mais rápido possível para voltar ao batente, levava relatórios para fazer em casa, ajudava os velhinhos, entretia as crianças, buscava água para os engravatados. Os colegas percebiam essas qualidades e, obviamente, empurravam o seu serviço para o pobre Alcidenei. Ele não ligava. A alegria da vida dele era trabalhar como funcionário público.

Você pode achar estranho as expressões “funcionário público” e “trabalho” estarem relacionadas sem que um “não” esteja infiltrado. Mas pode confiar nesse narrador que agora usa toda a sua capacidade de argumentação para desmistificar a figura lendária da quem bate o ponto em uma Prefeitura, Câmara ou qualquer emprego que necessite de um concurso.

As vezes, tudo o que aqueles seres esquisitos e que segundo o senso comum tem a vida ganha por mamar nas tetas do Governo precisam é de um elogio.

Conto isso porque certo dia – uma sexta-feira, pra ficar mais dramático – aquele advogado suado que aparece pouco antes do expediente terminar, carregando uma resma de papel debaixo do sovaco, adentrou as belas portas de mogno polido. Ao ver aquela cena sinistra tornar-se realidade, os funcionários foram sumindo, um por um. Exceto Alcidinei, que manteve-se impassível, esperando o árduo serviço que certamente enfrentaria. Ele não tinha o que temer. Estava armado com seu crachá no pescoço, sua caneta na mão e o carimbo ao alcance dos dedos.

Foram longos 43 minutos de perguntas, respostas, argumentações, digitações, corridas até a impressora para pegar folhas e mais folhas. O suor vertida de cada poro de Alcidinei. Várias vezes teve que refazer tudo, pois aquele adevogadozinho de meia pataca insistia que estava tudo errado: era inadmissível que seu nome fosse escrito COM acento.

Ao final da batalha, a surpresa: “Muito bem meu rapaz. Foi o melhor atendimento que eu recebi em mais de 32 anos de serviços. Estou impressionado. Não posso fazer outra coisa senão elogiá-lo diretamente ao Prefeito. E é isso que vou fazer agora“.

Alcidinei esboçou um sorriso de satisfação. Iria esfregar, finalmente, um cargo de confiança na cara dos colegas. O advogado era influente. Tudo valeria a pena.

O advogado saiu do guichê, foi até o fim do corredor e parou, antes de colocar o pé na escadaria. Olhou para os lados, girou 180º e refez os passos, dessa vez retornando até onde estava nosso herói. A pergunta não poderia ser mais direta:

Sofro de perda de memória recente, amigo. O que é que eu ia fazer agora?

O sorriso desapareceu da face de Alcidinei com a mesma velocidade com que tinha aparecido. Não lhe restou outra resposta:

Nada importante, senhor. Pode ir em paz“.

O tiro que não veio. Ao menos dessa vez

Entre o marco que chamamos de nascimento e outro marco, que chamamos de morte, ocorre um fenômeno chamado vida. A vida, como todas as coisas nesse mundo, tem seus momentos positivos e seus momentos negativos. Em comum, a certeza de que todos eles acontecem muito rápido. Talvez mais rápido do que você imagina. Breves frações de segundo definem o rumo das próximas frações de segundo. Pude sentir essa particularidade de forma muito peculiar no sábado passado. Foi banal, mas poderia ser trágico.

Minha caminhada na volta da biblioteca passa pelo estacionamento de um supermercado. O trajeto, além de ser mais rápido, é menos cansativo. Otimização de tempo em pleno sábado é o que há! Pois bem… estava eu entrando no estacionamento (um estacionamento pequeno e aberto) quando ouço o gerente (ao menos eu acho que era o gerente) chamando um cidadão que estava a uns 15 metros a frente. Ele chamava na boa, sem agressividade. “Ow.. galã… chega aí galã… Deixa eu trocar uma palavra com você“.

Eu diminui a marcha absolutamente despreocupado e aí tudo aconteceu muito rápido, frações de segundo: o rapaz tirou de dentro da jaqueta um caderno e uma embalagem de Ferrero Rocher e desatou a correr, saindo do estacionamento, virando a esquina e descendo a rua. O gerente gritou “Pega… pega o desgraçado… Pode pegar“. Um borrão azul passou por mim a toda velocidade, seguindo o mesmo caminho do meliante. Era o boy empacotador com o uniforme do supermercado. Só aí é que foi cair a minha ficha que se tratava de um furto.

Uma vez entendido, eu também saí correndo – lembre-se que eu estava com dois livros na mão- sacando o celular e colocando em modo de filmagem (espírito jornalístico entrou em modo automático, quase involuntário). Se o cara lá fosse pego, eu poderia registrar alguma coisa importante. Sabe-se lá quem era a pessoa e o que ela já havia feito na vida. Imagina a honra que seria aparcer no Datena? Infelizmente, os dois mais envolvidos na situação eram muito mais rápidos do que eu . Adrenalina é um baita dopping natural. Quando este que vos fala desceu a rua eles já estavam virando a outra esquina. Não consegui acompanhá-los.

Não sei o que se passou desse ponto adiante. Suspeito que o ladrãozinho pé de chinelo tenha se dado mais ou menos bem. O produto do furto havia sido largado na rua (eu mesmo o vi na mão do gerente), mas ao menos ele deve  ter escapulido, para tentar de novo, em outro estabelecimento.

Foi então que eu refleti sobre o que havia se passado. Por mais estranho que pareça, eu corri um sério risco passando pelo estacionamento justamente naquela hora. E se, em vez do caderno e do chocolate, ele tivesse sacado uma arma? Talvez ele não hesitasse em atirar e aí sobraria pipoco pra todo lado. Como geralmente ocorre nesses casos, quem não tem nada a ver com a situação leva a pior. No caso, a vitima que levaria o chumbo no pior lugar possível seria esse pobre blogueiro…

A fração de segundo que me fez ficar estático quando o larápio tirou os ítens da jaqueta poderia ter me matado. Mas não foi fatal. Ao menos dessa vez.

Escolha bem suas frações de segundo. São elas as responsáveis pelo seu hoje, pelo se amanhã e, talvez com uma ponta de saudosismo, do seu ontem. Isso se você chegar ao ponto de ter um ontem.

Em tempo: Agora admiro quem é capaz de dar descrições para retratos falados de bandidos. Sinceramente não consigo lembrar da cara do infeliz. Muito menos das roupas. E acho que não conseguiria nem se ficasse olhando meia hora para cada traço em sua face…

Um conto chato

O estagiário Luizinho tinha acabado de voltar do seu café da manhã no bar do Portuga. O sexagenário lusitano já tinha sua padaria há pelo menos uma década e nesse meio tempo vários clientes fiéis sempre tomavam o lanche matinal lá. Mas o foco dessa história é o estagiário, que relaxava sentado em sua nova cadeira estofada, um braço por detrás da cabeça e o outro a cutucar o dente molar, procurando limpar pedaços do pão na chapa que o pingado não conseguiu desgrudar.

O sol batia em cheio na mesa de trabalho do estagiário. Uma pilha de papéis aqui, outros ali, um porta retrato com a imagem de sua mãe e irmãos aos pés do Cristo Redentor. Luizinho fez um giro de 45º (ou teria sido 65º? Nunca saberemos)  e  foi ao banheiro. A sala permaneceu no mais absoluto silêncio. Nem a porcaria do telefone que costuma tocar a cada 30 segundos deu sinal de vida. Tudo estava anormalmente calmo.

Após um relaxante uso do toalete, o estagiário partiu para o ataque, isto é, para o ataque á pilha de papéis já mencionada. Ele tinha a esperança, ainda que vaga, de que aqueles papéis magicamente criassem pernas e fossem sozinhos até o arquivo. Mas como isso ainda é ficção, teria que cuidar ele mesmo daquele punhado de celulose em forma de folha. Sentou-se e começou a digitar.

1 hora depois todas aquelas informações que não faziam o menor sentido – nem se colocadas de ponta cabeça – foram devidamente registradas no computador. Pegou a pilha de papéis e colocou dentro do armário, numa pastinha intitulada “Baixas”. Agora a missão era telefonar para alguns clientes do escritório, que, digamos, não estavam em dia com as prestações do carnê do Baú. Era a parte mais divertida, já que Luizinho sempre levava com bom humor ter que cobrar os caloteiros que insistiam em dizer que “o patrão não está“. Ficou pensando em quantas empregadas domésticas apareciam no instante em que ligava e que desapareciam assim que o clássico tu-tu-tu-tu soava dos dois lados. Era uma conta bem grande.

O primeiro telefonema ia para Ariel. Ficou olhando para aquele nome sem saber se Ariel era homem ou mulher. Lembrou, claro, da Pequena Seria, mas mesmo assim ficou com a impressão que Ariel era homem. Resolveu tentar ser o mais cuidadoso possível para definir um gênero,até que o interlocutor desse alguma pista…

E assim passou a manhã. Deu-se conta que as 12 badaladas do relógio já deveriam ter soado quando sua barriga deu sinal de vida e de estresse. Aí lembrou-se que o relógio da sua sala não dava nem meia badalada, quanto mais 12. Refletiu um minuto sobre essas afirmações e decidiu que já era hora de comer.

Os dias de Luizinho eram todos assim… TODOS.

O amor de Próclise e Ênclise

Menina  recatada, a jovem Ênclise era o modelo de garota que todo pai sonhou em ter. Nunca era vista desacompanhanda e, nas raras vezes em que falava, só o fazia com a permissão do pai Verbo. Não é que Ênclise detestava a vida que levava, mas sentia que lhe faltava algo. De fato, essa proteção paterna as vezes a incomodava. E o que dizer da tia Locução? Andando na rua, ela obrigatoriamente tinha que se virar entre eles. Mal dava uma espiadinha para um Travessão dentro de uma loja e já tomava chapuletada na orelha. Ela prometia que um dia isso mudaria. Ah se mudaria!

Próclise era rebelde, espevitada. Muito dessa personalidade desordeira pode ser creditada a falta de uma família fixa. Hora nadava com o Tenente Não e com o General Nunca. Em outro momento, era vista na República dos Advérbios. Mal piscava o olho e já havia corrido para a compania dos Pronomes Relativos.
Talvez isso signifcasse uma personalidade independente, cheia de si. Mas Próclise também sentia falta de algo.

Um belo dia, Próclise e Ênclise se encontraram. Rolaram versos, estrofes, poemas… sonetos. A afinidade entre as duas era visível, em qualquer tipo de fonte. A oposição veio de todos os lados, principalmente da família de Ênclise, conservadora ferrenha. Choveram aspas, pontos de interrogação e outros recursos literários contra o amor das duas. Mas o ponto final nessa história já havia sido dado.

Vírgula vai, vírgula vem, Ênclise fugiu para a casa da Próclise. A convivência mostrou que, de fato, foram feitas uma para a outra. Decidiram reproduzir e perpetuar a espécie. E graças ao gene dominante da Ênclise e recessivo da Próclise (que, aliás, é uma baita ironia), nasceu a pequenina, porém genial Mesóclise.

Agrada-la-ia saber que essas três meninas-mulheres viveram felizes para sempre?

Arrudeira

Num condomínio de classe média alta, os moradores viviam bem. Era um condomínio planejado, com piscina, árvores… nem o nome de carro velho atrapalhava a harmonia. Os condôminos se regozijavam de serem considerados o centro do bairro. Todo mundo ficava de olho no que acotecia naquele lugar.

Um belo dia, os moradores decidiram colocar um vaso de arruda no saguão de entrada, para representar o local. Todos os prédios dos arredores tinham alguma coisa simbolizando. Por exemplo: um vizinho mais o sul (que tem um interior considerado muito moderno) ostentava um pote de Requeijão. Outro, bem na divisa com outro bairro, tinha uma Cruz. Para terminar os exemplos, o prédio mais rico da região tinha na fachada uma Serra.
Pois bem, na reunião, mais de 50% votaram pelo sim. Nem foi preciso um segundo turno. Era um vaso muito bonito, realmente, apesar da fama. Vocês sabem… arruda tem uma fama…

Ceraca de 2 anos depois, notava-se que a arrudeira permaneceria ali até secar. Não foi bem assim. O zelador percebeu, através de uma câmera de segurança, que a planta estava sujando o chão. E não pravava por aí. Outros vasos que até então ninguém lembrava que ali estavam, começaram a fazer imundices. O saguão estava ficando bastante feio de se ver.

Alguns moradores começaram a protestar, pedindo que o zelador as retirasse dalí, principalmente porque os vizinhos religiosos já tinham precebido e estavam comentando. As folhas jogadas no chão davam uma péssima impressão, como se o edifício fosse sempre assim, mal cuidado.
Entretanto, uma parcela dos condôminos pedia a permanência da planta. Para eles, não havia necessidade de uma postura tão radical. Pra resolver o quiproquó, bastava limpar em volta dos vasos. Até varrer pra baixo do tapete valia.

Só se ouvia, nos corredores, elevadores e andares, discussões, bate-bocas e, se não fosse o pobre porteiro, muitos já teriam chegado as vias de fato. O caos havia se instalado naquela outrora pacata morada. Alguma coisa necessariamete seria feita. E assim foi.

O zelador colocou o vaso de arruda na casa de máquinas. Argumentou que as imagens eram suficientes para que ele tomasse tal atitude. O grupo dos moradores que pedia a aniquilação da planta comemorou distribuindo panetones. O grupo dos que apoiavam a permanência da planta recorreu ao síndico. O administrador, por sua vez, confirmou a decisão do zelador, alegando que se as crianças não podem correr no hall e os adultos não podem fazer bacanal na garagem, a planta também não poderia sujar o chão.

Todavia, a arruda – como dito anteriormente – foi colocada na casa de máquinas. Ora… lá é ventilado, iluminado e, portanto, a planta poderia continuar na sua eterna missão de realizar fotossíntese. Isso desagradou a oposição. Eles queriam não só o afastamento, mas também que ela fosse tancafiada no almoxarifado escuro e tenebroso. Esse pedido não atendido. A planta havia custado caro, afinal de contas.

A planta permanecerá lá até que seja esquecida. Alguem, fatalmente, vai retirá-la de lá assim que a poeira baixar. A vida vai seguir nesse condomínio. Quem sabe, daqui a alguns anos, não resolvem colocar uma planta melhor no lugar? Mas quem vai garantir que essa planta é realmente melhor?