Libertem as biografias!

Sou um fã incondicional de biografias. Grande parte da minha refeição literária se dá através desse gênero, ainda que os artistas retratados não necessariamente sejam meus ídolos. Aprendi muito sobre música lendo sobre Tim Maia e Elis Regina. Sobre televisão e humor com Bussunda. Sobre cinema (e transtornos psicológicos) com Hithcock.

Hoje as biografias estão no centro de uma ampla discussão. Mais do que elas, está em debate a liberdade de biógrafo e biografado, um de publicar seu estudo histórico e o outro de proteger sua privacidade.

nelson motta

Nelson Motta, autor de “Vale Tudo (Tim Maia)

O Procure Saber é uma associação de artistas que levantou, a princípio, uma válida e importante questão sobre direitos autorais e a fiscalização do ECAD. Na pauta há, também, as biografias não autorizadas, que, em tese, fariam biógrafo e editora lucrarem utilizando a fama do artista (inclusive com direitos para o cinema), invadindo sua privacidade e a de seus familiares e amigos.

Pena que a segunda parte seja uma enorme e completa BOBAGEM.

Os biógrafos brasileiros, ao menos os mais importantes, como Paulo César de Araújo (censurado por Roberto Carlos), Regina Echeverria (autora das biografia de Gonzagão/Gonzaguinha e Elis Regina), Nelson Motta (Tim Maia) e Ruy Castro (Carmem Miranda, Garrincha e Nelson Gonçalves) realizam um incansável trabalho de RECONSTRUÇÃO HISTÓRICA.

Jornais e revistas da época são vasculhados, bem como centenas de pessoas entrevistadas. Incontáveis também são as entrevistas já realizadas que são vistas e revistas. Locais importantes são visitados. Não é um trabalho de uma semana, um mês. É um trabalho que leva anos. A vida de uma pessoa pública já está, em grande parte, escrita. Decodificá-la e traduzi-la para o grande público é o segundo desafio. E talvez o grande medo dos biografados.

regina echeverria

Regina Echeverria, autora de “Furacão Elis”, “Gonzaguinha e Gonzagão” e Cazuza

Montar esse quebra-cabeças, com peças espalhadas ao longo de décadas, é imensamente diferente do que “noticiar” que Beltrano atravessou a rua com o cadarço desamarrado ou deixou molho de tomate cair em restaurante no Leblon. Privacidade por privacidade, o dia a dia é bem mais cruel.

As inverdades e calúnias tão temidas acontecem todos os dias em portais e colunas em jornais. Dificilmente várias pessoas confirmarão a passagem “mentirosa”. O próprio autor tem senso crítico suficiente para avisar, durante o trecho, que tal afirmação não tem a mesma base sólida que as demais. Ou mesmo nem é inserida.

Na questão da grana, os artistas tem se mostrado mesquinhos. Ou, pelo menos, sem visão de futuro. Uma boa biografia revive bons momentos e coloca sob a luz dos holofotes antigos sucessos que podem estar adormecidos. É inevitável ouvir mais musicas de determinado artista após ler sobre sua vida.

Os autores, por sua vez, tem que ser remunerados pelo seu trabalho, assim como as editoras que empregam conhecimento técnico e know-how literário nas obras. Simples assim.

Já os biografados tem que seguir sua vida, sem esperar nada em troca. Podem (e deveriam) participar do processo de elaboração do livro, rebatendo, NA OBRA, trechos que por ventura não concordem ou tenham uma visão diferente. Fulano falou que faltei a um show no Circo Voador porque bebi demais? Bem, não é bem assim… e pimba! Tenho absoluta certeza que os autores citados adorariam ter esse respaldo.

Cabe ressaltar, aqui, que as auto-biografias são tão importantes quanto as escritas por terceiros. Há passagens e memórias que só o próprio astro pode descrever o que viu, pensou, sentiu. Os livros escritos por André Agassi e Erasmo Carlos são dois bons exemplos disso.

A verdade é que cada biografia escrita ajuda a construir um pedaço da cultura e da história do Brasil. Quem dera mais corajosos ousem escrever sobre políticos, cantores, atores, esportistas. Grandes histórias seriam reveladas e períodos obscuros seriam melhor entendidos.

Wilson Simonal que o diga. Ninguém sabe o duro que ele deu. Além, claro, do biógrafo e seus leitores.

rui-castro

Ruy Castro, autor de O Anjo Pornográfico (Nelson Rodrigues), Estrela Solitária (Garricha) e Carmen (Carmen Miranda).

Aproveite e leia os textos desse blog sobre as biografias de Roberto Carlos, Gonzaguinha e Gonzagão, Marighella, André Agassi e Boni

A lojinha do Obama fechou. Volte mais tarde.

closed-sign-tm

A oposição a um governo é uma coisa séria. Sem ela, ninguém contesta os atos do governo, nem o avalia de uma forma (mais) crítica. Será que decisão X é tão boa assim? Por que não pode ser feito de outra forma? E assim adiante. No entanto, a oposição nos Estados Unidos vai até o limite. Ou passa dele, depende de qual partido você faz parte.

Em novembro do ano passado, quando Obama foi reeleito para ocupar o trono a cadeira maior na Casa Branca, eu escrevi isso:

“A dobradinha Obama-Biden tem mais quatro anos. Com o mundo inteiro de olho e a vigilância em casa bastante pesada, não serão dias tranquilos. Principalmente porque agora não será possível gastar a carta na manga que foi a captura de Osama bin Laden. Vão ter que achar outro trunfo.”

Bem, odeio estar certo (mentira, essa é a melhor parte), mas o tal trunfo necessário não veio. O Obamacare (simplificando, um SUS, que em teoria funciona bem) ainda é alvo de disputa entre os Congressistas, uns pela aprovação e outros pela não inclusão. Mas não foi uma disputa comum, como vemos no Brasil. Afetou o orçamento federal, como não acontecia há 17 anos, na administração Clinton (mesmo partido de Obama, curiosamente).

Assim como cá, o orçamento do país tem que ser aprovado antes do ano fiscal terminar. Lá, termina em 30 de setembro e… oh wait. Dealine. Até a meia noite, nada havia sido decidido e, portanto, TODAS as repartições federais não essenciais não poderiam gerar novos gastos a partir de outubro, afinal… eles não estão previstos. Por volta de 800.000 funcionários públicos em férias não remuneradas até segunda ordem.

E o que isso significa, na prática? Sabe a Estátua Liberdade, com seu braço erguido, iluminando Nova York? Então… not today. Fechada. NASA? Fechada. Apenas o centro de controle funciona, já que temos algumas pessoas na Estação Espacial Internacional que não podem ficar desamparadas. Parques federais e museus também estão entre os locais que “baixaram as portas”.

O Governo Democrata se defende, dizendo que a proposta de orçamento está lá há meses. Os Republicanos dizem que o aprovam, DESDE QUE a implantação do Obamacare seja adiada em pelo menos um ano e que o imposto federal para financiar a cobertura de pessoas sem planos de saúde não seja criado.

No Twitter, a equipe Obama escreveu: “They actually did it. A group of Republicans in the House just forced a government shutdown over Obamacare instead of passing a real budget.“. E completou: “Despite the shutdown, the new health insurance marketplace opens for business as planned on October 1″.

O fechamento das repartições federais não tem data definida para acabar. Dura até que o Congresso entre em acordo e aprove o orçamento, com ou sem Obamacare e novo imposto. Sim, eu previ os tempos difíceis lá em cima (que podem se repetir anualmente). Pressão política, econômica, social. Não tá fácil pra ninguém.

Até lá, se você vai viajar para a terra do Tio Obama, fique atento: você pode esbarrar com Tio Sam perdido pelas ruas, sem emprego.

O extravagante adeus da MTV Brasil

Fim de noite do dia 26 de setembro de 2013. A MTV Brasil fez sua última transmissão ao vivo. Uma festa dentro da emissora, reunindo todas as gerações de VJ’s que passaram pelos mais de 20 anos do canal. A nova e a velha guarda reunida, no encerramento mais animado que a televisão brasileira já viu. Aprende aí RedeTV!

Consenso entre os espectadores, a festa foi o fechamento perfeito para o canal que marcou a vida de muita gente, menos a minha. No máximo o Piores Clipes e o Rockgol, sobre o qual eu falei nesse texto.

A MTV sempre foi uma bagunça organizada, mas ontem, na saideira, isso foi levado ao limite. Todo mundo falando ao mesmo tempo, gente tirando foto na frente da câmera, enquadramento todo torto, cortes para onde não estava acontecendo nada. Isso sim é tevê de verdade!

Uma ideia interessante foi utilizar “câmeras de monitoramento”, fictícias ou não, para mostrar o deslocamento das pessoas nos corredores e elevadores. Clássico também foi repassar as vinhetas antigas que, até hoje, ninguém entende. Nem quem criou, diga-se de passagem.

O Twitter da emissora ficou aberto para postagem dos convidados: “@MTVBrasil: To procurando pequenos ítens roubáveis pra vender no Mercado Livre depois. Fuck da Police“. A Sarah Oliveira levou a placa do 4º andar. E não é piada. Ou ainda: “@MTVBrasil: Tá todo mundo PELADO. Vocês não conseguem ver“.

Nos últimos minutos, um compilado gigante de imagens de arquivo sobre os bastidores, com MUITA GENTE que hoje é famosa, mas que na época queria alcançar voos mais altos. Até um Zeca Camargo fazendo cosplay de Caetano Veloso apareceu.

E não podia encerrar de outro jeito: uma contagem regressiva toda errada. Muda. Logo depois, a reprise de um programa chamado MTV ao Vivo. Hahaha.

E amanhã? A festa é de despedida, mas a MTV continua no ar, com programas gravados. E com o mesmo nome. E a mesma temática. Os donos serão outros (ou os originais, depende do ponto de vista), mas o defunto é o mesmo.

É ou não a CARA da MTV?

foto

De gênio e louco, Hitchcock tem um pouco.

Os atores não são gado. Eles têm que ser tratados como gado”. Frases estúpidas, atitudes cruéis com atrizes, piadas pornográficas, péssimo clima no set de filmagem. Choro. Algemas. Pneumonia. Uma combinação camarada dessas, em apenas um diretor, só poderia resultar em… clássicos históricos e ainda hoje cultuados da sétima arte. Por mais contraditório que possa parecer, era assim que trabalhava Alfred Hitchcock. Experimente ser escroto dessa forma em seu emprego… é “rua” sem pensar duas vezes.

Nos últimos meses fiz uma maratona de filmes do gordinho sinistro, dos mais celebrados aos menos famosos. Acho que não é necessário comentar sobre Psicose, Um Corpo que Cai, Os Pássaros e o meu favorito, Janela Indiscreta. Se você não viu e não sabe do que estou falando, corra atrás. Mas, enfim, amarrei os filmes à leitura de “Fascinado pela Beleza – Alfred Hitchcock e suas atrizes”, o terceiro livro da trilogia de Donald Spoto sobre Hitch… sem o “cock” (piada dele, a propósito). Para o meu azar, os dois primeiros não foram publicados em português. Ainda.

Dessa forma, quero comentar sobre alguns filmes que não são tão lembrados quanto deveriam. A extensa filmografia do Mestre tem pérolas quase inacreditáveis de tão boas. Recomendo que os assista. Não vou me estender nas resenhas de três para não tirar a graça dos filmes. Escolhi estilos bem distintos: comédia, suspense e ação.

o-terceiro-tiro

. P*** que pariu. Hitchcock. Sem mais.

O Terceiro Tiro (The trouble with Harry, 1955): O que fazer quando um tiro acidental mata um desconhecido? Os habitantes de uma pequena cidade em New England não estão lá muito preocupados, mas, definitivamente, não sabem o que fazer com ele. Muita gente não entendeu esse filme. Encare-o como uma comédia de humor negro e esqueça o suspense, o mistério. A fotografia é belíssima (repare como é colorida… esse é o tom) e a trilha sonora é das mais alegres. Um filme surpreendente.

A Sombra de Uma Dúvida (The shadow of a doubt, 1943): A vida segue monótona em uma típica família americana do interior, até que o tio Charlie chega da cidade grande. Ele é rico, inteligente, galã… mas esconde alguma coisa? Atuações perfeitas de Teresa Wright e Joseph Cotten. Repare no brilho dos olhos da atriz e a evolução desse olhar ao longo dos 108 minutos. O suspense permeia o filme todo, mas é uma pena que, assim como vários filmes de Hitchcock, o final seja rápido demais.

Cortina rasgada (Torn Curtain, 1966): Um cientista americano (Paul Newman) vai a um congresso de física com sua noiva, a bela Julie Andrews. As atitudes suspeitam forçam a também cientista a descobrir coisas que ela não gostaria. A principio achei o filme bem mais ou menos, mas, lembrando de várias cenas… que baita filme! O último terço é frenético e, mais de uma vez pensei: e agora? Como é que se sai dessa?

Aliás, essa é uma característica da filmografia de Hitch. De cara o filme não parece tão bom, mas à medida que você digere as cenas e entende o significado (os extras ajudam muito nisso), a história ganha outra avaliação. De fato, são filmes para ver duas vezes, pelo menos.

Há vários outros filmes, cada um com sua peculiaridade. Saboteur (1942), por exemplo, tem protagonistas péssimos e a história não é tão envolvente, mas os coadjuvantes (e a cena do cinema!) valem o filme todo. Em Topázio (Topaz, 1969), as cenas com o dono da floricultura são ótimas, assim como as filmadas em Cuba. Confesso que preferi o segundo final apresentado nos extras (mais audacioso que o original). Por fim, o trailer de Frenesi (Frenzy, 1972) é épico. A forma de filmar Festim Diabólico (Rope, 1948) é totalmente diferente do resto da filmografia. Uma obra de arte.

Alfredinho tinha seus fantasmas interiores e essa é a maior qualidade de “Fascinado pela Beleza”: por vezes contradiz e rebate afirmações do Mestre, mostrando outra face, desconhecida, sombria, e até irritante, muitas vezes mascarada pela qualidade dos filmes.

Atrás da câmera tinha um gênio. Perturbado, mas ainda assim, um gênio.

Fazendo a notícia: Bombas em Boston

Chegar em casa após um cansativo dia de trabalho e relaxar na poltrona pensando no dever cumprido é o sonho de todo trabalhador. Não é diferente com os maratonistas, que após 42 quilômetros colocando pé a frente de pé, querem cruzar a linha de chegada, olhar para seus tempos e também sentir a sensação de dever cumprido.

Não foi o que ocorreu com os corredores da maratona de Boston, uma das mais tradicionais do mundo. Duas explosões aconteceram na reta de chegada, quando os anônimos terminavam a corrida.

Eu descobri através do Facebook. O sentimento de ataque terrorista é o primeiro que aparece, mas não necessariamente é o verdadeiro. Pela CNN, descobri que as explosões ocorreram em locais diferentes, o que é MUITO preocupante.

O caos estava instalado. Dois mortos, 23, 28 51 100 feridos – 06 em estado grave, pelos relatos –  e muita incerteza.

No Twitter pipocavam conjecturas. E mais sustos estariam por vir: além das 2 bombas detonadas – neste ponto noticia-se BOMBAS e não um mero botijão de gás – pelo menos outras 3 foram encontradas no trajeto dos maratonistas.

Pouco depois, descobriu-se que outra explosão havia acontecido, dessa vez na biblioteca de Boston, próximo ao memorial ao ex-presidente JFK. Entretanto, ainda não estava claro se os incidentes estavam relacionados ou não. Aliás, na biblioteca, poderia nem ser uma explosão, mas sim um incêndio (ou algo do tipo).

A coisa ficou séria. A Casa Branca foi cercada e devidamente protegida. O tráfego aéreo sobre a cidade foi interrompido. USA under attack again?

Até o começo da noite não se procuravam culpados. O fato é que em 15 de abril é comemorado o dia do “fundador” da Coréia do Norte, Kim Il-sung. Das duas uma: ou os norte coreanos ficaram malucos de vez ou alguém muito esperto aproveitou a data, uma vez que o dia “tradicional” para ataques terroristas é 11 e não 15.

(POST EM ATUALIZAÇÃO – SE OCORRER ALGO NOVO, CLARO).

Bombas em Boston

O Primeiro de Abril mais longo do Brasil

“Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus DIREITOS, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.”

O inflamado texto acima é parte do editorial de O Globo, publicado no dia 2 de abril de 1964, após um dos momentos chave da história do Brasil. O deposto João Goulart não terminaria seu mandato, assim como seu antecessor Jânio Quadros.

Mas, afinal, o Palácio do Planalto exercia mesmo a tal da ação subversiva? Os tais vermelhos haviam mesmo envolvido a mais alta esfera política do Brasil?

Os eventos que levaram à queda (ou à rasteira em?) de Jango começaram com os parafusos a menos de Jânios Quadros. O homem da caspa de mentira (?), do sanduíche de mortadela no bolso, dos cabelos desalinhados e dos bilhetinhos retos e diretos não aguentou a pressão de Brasília e pediu pra sair. O que ele REALMENTE queria fica para a galeria de mistérios que aparentemente jamais serão descobertos.

Mas o fato estava consumado em 25 de agosto de 1961. Em seu lugar assumiria o gaúcho João Goulart, eleito democraticamente vice-presidente, ainda que não comungassem das mesmas ideias. É bom lembrar que presidente e vice eram eleitos separadamente e não necessariamente eram chapas pertenciam a mesma chapa.

Já em 61 as Forças Armadas movimentaram-se para impedir que comunista (será?) Jango, naquele momento em um rolê uma visita à China (ainda sob influência de Mao Tsé Tung), vestisse a faixa presidencial.

E ATÉ QUE FAZIA SENTIDO.

Em plena Guerra Fria, quando um simples “vish, eu não deixa queito” poderia provocar uma saraivada de mísseis para todos os lados, DAR A IMPRESSÃO de aliança com russos e chineses poderia provocar uma reação nada amigável de nossos vizinhos estadunidenses, seja explosiva ou econômica.

Particularmente eu duvido que o Brasil se transformaria em um regime comunista. E duvido, também, que a melhor forma de acabar com a tal da ameaça fosse a base da força. Não faltaram eleições diretas um ou dois anos de depois?

Jango ainda se sustentou um tempo, mas os tanques dos militares foram mais potentes.

É claro (?) que não se poderia imaginar que o controle militar perduraria por tanto tempo, muito menos que a perseguição aos ditos comunistas resultaria em imagens como o suicídio (mais do que forjado) de Vladmir Herzog. Sem contar toda a parte da tortura e dos desaparecimentos inexplicados, inadmissíveis em qualquer tipo de governo.

Mas todo esse contexto histórico dos últimos parágrafos serviu para embasar uma percepção que me ocorreu nas pesquisas para esse texto: ainda há um traço, um sentimento, uma ideia (e até mesmo um saudosismo) em muita gente de que o golpe de 64, ou melhor, a Revolução de 64 não apenas foi benéfica, mas como infelizmente acabou. Veja:

“A data de 31 de março de 1964 é magna na história de nosso país, quando brasileiros patriotas tomaram armas contra os traidores da Pátria, que queriam fazer do Brasil uma grande Cuba tropical. Heróis, alguns ainda vivos. É preciso retirar da História as sua lições”.

Percebem a similaridade entre o texto acima, postado por um cidadão qualquer no Youtube e o editorial de O Globo, no início do texto? O traço se mantém. Assustador? Natural? Certo ou errado?

O xeque mate dado em 31 de março resultou, na manhã seguinte, no Primeiro de Abril mais longo – e sem graça – da história do Brasil. Tão longo que, pelo visto, ainda não acabou para muita gente.

Se eu fosse você reservaria 49 minutos do seu dia para assistir a entrevista do brilhante  Geneton Moraes Neto com o General Leônidas Pires Gonçalves. É interessante demais como um mesmo fato – por exemplo a morte de Herzog – pode ser vista de ângulos tão diferentes. Tão diferentes que nem parecem o mesmo fato.

foto_mat_27219 GOLPE-ultima-hora-2-de-abril-de-1964

Tenho cada vez mais certeza que, mais do que um Golpe ou Revolução Militar, o que ocorreu no Brasil entre 1964 e 1985 foi uma verdadeira Guerra Civil Brasileira.

Varig, da excelência à falência: o que deu errado?

“Varig, Varig, Varig”. Um dos jingles mais conhecidos e tradicionais do país gravou em milhares de brasileiros o nome de uma companhia aérea que muito fez, mas que hoje não passa de uma massa falida e de uma excelente história para contar. Afinal, o que aconteceu com a Pioneira, do ápice ao fundo do poço?

A Varig, fundada no Rio Grande do Sul da década de 20 (sob o nome de Viação Aérea Rio Grandense), cresceu e se destacou como uma sólida empresa nas mãos de Rubem Berta (hoje no ramo de clínicas e avenidas). Os pilares desse crescimento foram o respeito (e a fartura) para com o cliente e, com os funcionários, o intenso treinamento técnico e humano, fornecendo todos os subsídios necessário para trabalhar. A estrutura era invejável, acolhendo todos.

A comissária de bordo Claudia Vasconcellos escreveu o livro “Estrela Brasileira“. Boa parte das informações aqui contidas de lá foram tiradas.

Primeiramente há que se falar do serviço de bordo estupendo. Algumas coisas que captei durante a leitura do livro fizeram meus olhos saltarem, a boca salivar e o estômago perguntar por que eu estava deitado e não viajando Varig. Veja só que loucura:

“Servíamos canapés frios — torradinhas cobertas com pasta de roquefort, ovas de salmão com maionese, foie gras e pequenas bolinhas de caviar com uma minifatia de limão — e quentes, palitos de churrasquinho e casquinhas de siri.

(…) Passávamos um carrinho de bebidas, com garrafas de Johnnie Walker — Black e Red Label —, Chivas, Ballantine’s, Jack Daniel’s, Crown Royal, Glenfiddich, Campari, gim Tanqueray, vodka Stolichnaya, Vermouth Seco, Vermouth Doce, Dubonnet, Carpano, Cachaça Nega Fulô, rum cubano e um balde de gelo com champanhe — o gargalo envolto em guardanapo de linho. (…) cervejas de várias nacionalidades, suco de tomate, Ginger Ale, Seven Up, club soda, água tônica, Coca-Cola, guaraná, água com gás e jarras de suco (…) angostura, orange bitter, vidrinhos com cereja em calda e azeitonas e um copo com espetinhos (…), um copo grande com agitadores, copos para short e long drinks e flutes. Na parte inferior, copos para água, vinho tinto e branco”.

E você pensa que é só? Ainda tinha o carro de caviar. “Trazia, na parte superior, uma lagosta com galantine, uma concha cheia de gelo moído encimado por uma lata grande de caviar Beluga Malossol e limões cortados ao seu redor, vodka Stolichnaya envolta em gelo enluvando a garrafa (…), tigelinhas com manteiga clarificada, sour cream, limões em fatias, cebola cortada em cubinhos reduzidos ao seu tamanho mínimo, gema e clara de ovo picadas, uma forma coberta por um guardanapo com blinis aquecidos e melba toasts (…) melões com presunto de Parma.

Não, não acabou! Faltaram as sopas, as saladas, torradas e o churrasco. Churrasco? Acredite se quiser. Ah… Eu citei as nozes, os queijos, tortas, café, chás e licores digestivos? Que bom, porque faltou o café da manhã, com pães, bolos e ovos fritos na hora, pelo cozinheiro na galley.

Tantas outras coisas, gastronômicas e materiais, também eram servidas a bordo. Valeria um texto só para elas. A leitura do livro é imprescindivel. E eu, como Bacharelando em Administração, ficava me perguntando como manter essa estrutura em todos os vôos. A Varig rodava o Brasil e o mundo e tinha esse serviço de bordo impecável.

Por que faliu?

A falência, claro, tem várias explicações e uma delas é a mudança no paradigma dos serviços de bordo. Hoje nos surpreendemos com “amendoim e bolacha” a vontade. E só. O espaço entre as poltronas foi diminuído. O avião deixou de ser uma ocasião especial, um luxo, e passou a ser rotina para muita gente. Isso é ruim? De forma alguma. É apenas outro modelo de negócio, no qual tudo é mais pratico e rápido. Antes, o ápice era a viagem. Hoje, é partir e chegar. De preferência sem atrasos.

Outro motivo foi a perda de alguns privilégios nos vôos internacionais. O padrão da Varig era uma excelente propaganda para os militares (assim como a seleção de 70). Ainda: as lojas da Varig no exterior eram “embaixadas”, nas quais turistas e exilados liam jornais e revistas tupiniquins. No governo Collor isso foi por água abaixo. Concorrência faz o preço baixar e a demanda diluir. E por falar em governo, é bom lembrar a terrível década de 80, com trocentos planos econômicos e inflação a 60 mil pés. Quem se arriscaria a viajar assim?

As dividas e balanços negativos começaram a se acumular na década de 90 (muito em função, como dito, dos custos crescentes e do preço congelado de passagens) e, com isso, a decadência se tornou mais obvia: os atrasos de salário (ou pagamento em parcelas) minavam o maior patrimônio da Varig: os funcionários. Como se não bastasse, tinham que usar mais do que criatividade para suprir a carência de objetos a bordo. Até pó de café alguém traziam. Insustentável.

A Pioneira foi loteada, vendeu o que podia. Agonizou. Demitiu por telegrama. Morreu.

Hoje a Varig é uma (saudosa) lembrança na memória daqueles que acordaram pelas manhãs ouvindo o cantar dos pássaros, que aprenderam sobre a cultura do país para qual viajavam, que deram valor a sofisticação. Tudo isso nos vôos da Varig.

Varig, Varig, Varig!