Libertem as biografias!

Sou um fã incondicional de biografias. Grande parte da minha refeição literária se dá através desse gênero, ainda que os artistas retratados não necessariamente sejam meus ídolos. Aprendi muito sobre música lendo sobre Tim Maia e Elis Regina. Sobre televisão e humor com Bussunda. Sobre cinema (e transtornos psicológicos) com Hithcock.

Hoje as biografias estão no centro de uma ampla discussão. Mais do que elas, está em debate a liberdade de biógrafo e biografado, um de publicar seu estudo histórico e o outro de proteger sua privacidade.

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Nelson Motta, autor de “Vale Tudo (Tim Maia)

O Procure Saber é uma associação de artistas que levantou, a princípio, uma válida e importante questão sobre direitos autorais e a fiscalização do ECAD. Na pauta há, também, as biografias não autorizadas, que, em tese, fariam biógrafo e editora lucrarem utilizando a fama do artista (inclusive com direitos para o cinema), invadindo sua privacidade e a de seus familiares e amigos.

Pena que a segunda parte seja uma enorme e completa BOBAGEM.

Os biógrafos brasileiros, ao menos os mais importantes, como Paulo César de Araújo (censurado por Roberto Carlos), Regina Echeverria (autora das biografia de Gonzagão/Gonzaguinha e Elis Regina), Nelson Motta (Tim Maia) e Ruy Castro (Carmem Miranda, Garrincha e Nelson Gonçalves) realizam um incansável trabalho de RECONSTRUÇÃO HISTÓRICA.

Jornais e revistas da época são vasculhados, bem como centenas de pessoas entrevistadas. Incontáveis também são as entrevistas já realizadas que são vistas e revistas. Locais importantes são visitados. Não é um trabalho de uma semana, um mês. É um trabalho que leva anos. A vida de uma pessoa pública já está, em grande parte, escrita. Decodificá-la e traduzi-la para o grande público é o segundo desafio. E talvez o grande medo dos biografados.

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Regina Echeverria, autora de “Furacão Elis”, “Gonzaguinha e Gonzagão” e Cazuza

Montar esse quebra-cabeças, com peças espalhadas ao longo de décadas, é imensamente diferente do que “noticiar” que Beltrano atravessou a rua com o cadarço desamarrado ou deixou molho de tomate cair em restaurante no Leblon. Privacidade por privacidade, o dia a dia é bem mais cruel.

As inverdades e calúnias tão temidas acontecem todos os dias em portais e colunas em jornais. Dificilmente várias pessoas confirmarão a passagem “mentirosa”. O próprio autor tem senso crítico suficiente para avisar, durante o trecho, que tal afirmação não tem a mesma base sólida que as demais. Ou mesmo nem é inserida.

Na questão da grana, os artistas tem se mostrado mesquinhos. Ou, pelo menos, sem visão de futuro. Uma boa biografia revive bons momentos e coloca sob a luz dos holofotes antigos sucessos que podem estar adormecidos. É inevitável ouvir mais musicas de determinado artista após ler sobre sua vida.

Os autores, por sua vez, tem que ser remunerados pelo seu trabalho, assim como as editoras que empregam conhecimento técnico e know-how literário nas obras. Simples assim.

Já os biografados tem que seguir sua vida, sem esperar nada em troca. Podem (e deveriam) participar do processo de elaboração do livro, rebatendo, NA OBRA, trechos que por ventura não concordem ou tenham uma visão diferente. Fulano falou que faltei a um show no Circo Voador porque bebi demais? Bem, não é bem assim… e pimba! Tenho absoluta certeza que os autores citados adorariam ter esse respaldo.

Cabe ressaltar, aqui, que as auto-biografias são tão importantes quanto as escritas por terceiros. Há passagens e memórias que só o próprio astro pode descrever o que viu, pensou, sentiu. Os livros escritos por André Agassi e Erasmo Carlos são dois bons exemplos disso.

A verdade é que cada biografia escrita ajuda a construir um pedaço da cultura e da história do Brasil. Quem dera mais corajosos ousem escrever sobre políticos, cantores, atores, esportistas. Grandes histórias seriam reveladas e períodos obscuros seriam melhor entendidos.

Wilson Simonal que o diga. Ninguém sabe o duro que ele deu. Além, claro, do biógrafo e seus leitores.

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Ruy Castro, autor de O Anjo Pornográfico (Nelson Rodrigues), Estrela Solitária (Garricha) e Carmen (Carmen Miranda).

Aproveite e leia os textos desse blog sobre as biografias de Roberto Carlos, Gonzaguinha e Gonzagão, Marighella, André Agassi e Boni

A lojinha do Obama fechou. Volte mais tarde.

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A oposição a um governo é uma coisa séria. Sem ela, ninguém contesta os atos do governo, nem o avalia de uma forma (mais) crítica. Será que decisão X é tão boa assim? Por que não pode ser feito de outra forma? E assim adiante. No entanto, a oposição nos Estados Unidos vai até o limite. Ou passa dele, depende de qual partido você faz parte.

Em novembro do ano passado, quando Obama foi reeleito para ocupar o trono a cadeira maior na Casa Branca, eu escrevi isso:

“A dobradinha Obama-Biden tem mais quatro anos. Com o mundo inteiro de olho e a vigilância em casa bastante pesada, não serão dias tranquilos. Principalmente porque agora não será possível gastar a carta na manga que foi a captura de Osama bin Laden. Vão ter que achar outro trunfo.”

Bem, odeio estar certo (mentira, essa é a melhor parte), mas o tal trunfo necessário não veio. O Obamacare (simplificando, um SUS, que em teoria funciona bem) ainda é alvo de disputa entre os Congressistas, uns pela aprovação e outros pela não inclusão. Mas não foi uma disputa comum, como vemos no Brasil. Afetou o orçamento federal, como não acontecia há 17 anos, na administração Clinton (mesmo partido de Obama, curiosamente).

Assim como cá, o orçamento do país tem que ser aprovado antes do ano fiscal terminar. Lá, termina em 30 de setembro e… oh wait. Dealine. Até a meia noite, nada havia sido decidido e, portanto, TODAS as repartições federais não essenciais não poderiam gerar novos gastos a partir de outubro, afinal… eles não estão previstos. Por volta de 800.000 funcionários públicos em férias não remuneradas até segunda ordem.

E o que isso significa, na prática? Sabe a Estátua Liberdade, com seu braço erguido, iluminando Nova York? Então… not today. Fechada. NASA? Fechada. Apenas o centro de controle funciona, já que temos algumas pessoas na Estação Espacial Internacional que não podem ficar desamparadas. Parques federais e museus também estão entre os locais que “baixaram as portas”.

O Governo Democrata se defende, dizendo que a proposta de orçamento está lá há meses. Os Republicanos dizem que o aprovam, DESDE QUE a implantação do Obamacare seja adiada em pelo menos um ano e que o imposto federal para financiar a cobertura de pessoas sem planos de saúde não seja criado.

No Twitter, a equipe Obama escreveu: “They actually did it. A group of Republicans in the House just forced a government shutdown over Obamacare instead of passing a real budget.“. E completou: “Despite the shutdown, the new health insurance marketplace opens for business as planned on October 1″.

O fechamento das repartições federais não tem data definida para acabar. Dura até que o Congresso entre em acordo e aprove o orçamento, com ou sem Obamacare e novo imposto. Sim, eu previ os tempos difíceis lá em cima (que podem se repetir anualmente). Pressão política, econômica, social. Não tá fácil pra ninguém.

Até lá, se você vai viajar para a terra do Tio Obama, fique atento: você pode esbarrar com Tio Sam perdido pelas ruas, sem emprego.

O extravagante adeus da MTV Brasil

Fim de noite do dia 26 de setembro de 2013. A MTV Brasil fez sua última transmissão ao vivo. Uma festa dentro da emissora, reunindo todas as gerações de VJ’s que passaram pelos mais de 20 anos do canal. A nova e a velha guarda reunida, no encerramento mais animado que a televisão brasileira já viu. Aprende aí RedeTV!

Consenso entre os espectadores, a festa foi o fechamento perfeito para o canal que marcou a vida de muita gente, menos a minha. No máximo o Piores Clipes e o Rockgol, sobre o qual eu falei nesse texto.

A MTV sempre foi uma bagunça organizada, mas ontem, na saideira, isso foi levado ao limite. Todo mundo falando ao mesmo tempo, gente tirando foto na frente da câmera, enquadramento todo torto, cortes para onde não estava acontecendo nada. Isso sim é tevê de verdade!

Uma ideia interessante foi utilizar “câmeras de monitoramento”, fictícias ou não, para mostrar o deslocamento das pessoas nos corredores e elevadores. Clássico também foi repassar as vinhetas antigas que, até hoje, ninguém entende. Nem quem criou, diga-se de passagem.

O Twitter da emissora ficou aberto para postagem dos convidados: “@MTVBrasil: To procurando pequenos ítens roubáveis pra vender no Mercado Livre depois. Fuck da Police“. A Sarah Oliveira levou a placa do 4º andar. E não é piada. Ou ainda: “@MTVBrasil: Tá todo mundo PELADO. Vocês não conseguem ver“.

Nos últimos minutos, um compilado gigante de imagens de arquivo sobre os bastidores, com MUITA GENTE que hoje é famosa, mas que na época queria alcançar voos mais altos. Até um Zeca Camargo fazendo cosplay de Caetano Veloso apareceu.

E não podia encerrar de outro jeito: uma contagem regressiva toda errada. Muda. Logo depois, a reprise de um programa chamado MTV ao Vivo. Hahaha.

E amanhã? A festa é de despedida, mas a MTV continua no ar, com programas gravados. E com o mesmo nome. E a mesma temática. Os donos serão outros (ou os originais, depende do ponto de vista), mas o defunto é o mesmo.

É ou não a CARA da MTV?

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De gênio e louco, Hitchcock tem um pouco.

Os atores não são gado. Eles têm que ser tratados como gado”. Frases estúpidas, atitudes cruéis com atrizes, piadas pornográficas, péssimo clima no set de filmagem. Choro. Algemas. Pneumonia. Uma combinação camarada dessas, em apenas um diretor, só poderia resultar em… clássicos históricos e ainda hoje cultuados da sétima arte. Por mais contraditório que possa parecer, era assim que trabalhava Alfred Hitchcock. Experimente ser escroto dessa forma em seu emprego… é “rua” sem pensar duas vezes.

Nos últimos meses fiz uma maratona de filmes do gordinho sinistro, dos mais celebrados aos menos famosos. Acho que não é necessário comentar sobre Psicose, Um Corpo que Cai, Os Pássaros e o meu favorito, Janela Indiscreta. Se você não viu e não sabe do que estou falando, corra atrás. Mas, enfim, amarrei os filmes à leitura de “Fascinado pela Beleza – Alfred Hitchcock e suas atrizes”, o terceiro livro da trilogia de Donald Spoto sobre Hitch… sem o “cock” (piada dele, a propósito). Para o meu azar, os dois primeiros não foram publicados em português. Ainda.

Dessa forma, quero comentar sobre alguns filmes que não são tão lembrados quanto deveriam. A extensa filmografia do Mestre tem pérolas quase inacreditáveis de tão boas. Recomendo que os assista. Não vou me estender nas resenhas de três para não tirar a graça dos filmes. Escolhi estilos bem distintos: comédia, suspense e ação.

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. P*** que pariu. Hitchcock. Sem mais.

O Terceiro Tiro (The trouble with Harry, 1955): O que fazer quando um tiro acidental mata um desconhecido? Os habitantes de uma pequena cidade em New England não estão lá muito preocupados, mas, definitivamente, não sabem o que fazer com ele. Muita gente não entendeu esse filme. Encare-o como uma comédia de humor negro e esqueça o suspense, o mistério. A fotografia é belíssima (repare como é colorida… esse é o tom) e a trilha sonora é das mais alegres. Um filme surpreendente.

A Sombra de Uma Dúvida (The shadow of a doubt, 1943): A vida segue monótona em uma típica família americana do interior, até que o tio Charlie chega da cidade grande. Ele é rico, inteligente, galã… mas esconde alguma coisa? Atuações perfeitas de Teresa Wright e Joseph Cotten. Repare no brilho dos olhos da atriz e a evolução desse olhar ao longo dos 108 minutos. O suspense permeia o filme todo, mas é uma pena que, assim como vários filmes de Hitchcock, o final seja rápido demais.

Cortina rasgada (Torn Curtain, 1966): Um cientista americano (Paul Newman) vai a um congresso de física com sua noiva, a bela Julie Andrews. As atitudes suspeitam forçam a também cientista a descobrir coisas que ela não gostaria. A principio achei o filme bem mais ou menos, mas, lembrando de várias cenas… que baita filme! O último terço é frenético e, mais de uma vez pensei: e agora? Como é que se sai dessa?

Aliás, essa é uma característica da filmografia de Hitch. De cara o filme não parece tão bom, mas à medida que você digere as cenas e entende o significado (os extras ajudam muito nisso), a história ganha outra avaliação. De fato, são filmes para ver duas vezes, pelo menos.

Há vários outros filmes, cada um com sua peculiaridade. Saboteur (1942), por exemplo, tem protagonistas péssimos e a história não é tão envolvente, mas os coadjuvantes (e a cena do cinema!) valem o filme todo. Em Topázio (Topaz, 1969), as cenas com o dono da floricultura são ótimas, assim como as filmadas em Cuba. Confesso que preferi o segundo final apresentado nos extras (mais audacioso que o original). Por fim, o trailer de Frenesi (Frenzy, 1972) é épico. A forma de filmar Festim Diabólico (Rope, 1948) é totalmente diferente do resto da filmografia. Uma obra de arte.

Alfredinho tinha seus fantasmas interiores e essa é a maior qualidade de “Fascinado pela Beleza”: por vezes contradiz e rebate afirmações do Mestre, mostrando outra face, desconhecida, sombria, e até irritante, muitas vezes mascarada pela qualidade dos filmes.

Atrás da câmera tinha um gênio. Perturbado, mas ainda assim, um gênio.

Fazendo a notícia: Bombas em Boston

Chegar em casa após um cansativo dia de trabalho e relaxar na poltrona pensando no dever cumprido é o sonho de todo trabalhador. Não é diferente com os maratonistas, que após 42 quilômetros colocando pé a frente de pé, querem cruzar a linha de chegada, olhar para seus tempos e também sentir a sensação de dever cumprido.

Não foi o que ocorreu com os corredores da maratona de Boston, uma das mais tradicionais do mundo. Duas explosões aconteceram na reta de chegada, quando os anônimos terminavam a corrida.

Eu descobri através do Facebook. O sentimento de ataque terrorista é o primeiro que aparece, mas não necessariamente é o verdadeiro. Pela CNN, descobri que as explosões ocorreram em locais diferentes, o que é MUITO preocupante.

O caos estava instalado. Dois mortos, 23, 28 51 100 feridos – 06 em estado grave, pelos relatos –  e muita incerteza.

No Twitter pipocavam conjecturas. E mais sustos estariam por vir: além das 2 bombas detonadas – neste ponto noticia-se BOMBAS e não um mero botijão de gás – pelo menos outras 3 foram encontradas no trajeto dos maratonistas.

Pouco depois, descobriu-se que outra explosão havia acontecido, dessa vez na biblioteca de Boston, próximo ao memorial ao ex-presidente JFK. Entretanto, ainda não estava claro se os incidentes estavam relacionados ou não. Aliás, na biblioteca, poderia nem ser uma explosão, mas sim um incêndio (ou algo do tipo).

A coisa ficou séria. A Casa Branca foi cercada e devidamente protegida. O tráfego aéreo sobre a cidade foi interrompido. USA under attack again?

Até o começo da noite não se procuravam culpados. O fato é que em 15 de abril é comemorado o dia do “fundador” da Coréia do Norte, Kim Il-sung. Das duas uma: ou os norte coreanos ficaram malucos de vez ou alguém muito esperto aproveitou a data, uma vez que o dia “tradicional” para ataques terroristas é 11 e não 15.

(POST EM ATUALIZAÇÃO – SE OCORRER ALGO NOVO, CLARO).

Bombas em Boston

O Primeiro de Abril mais longo do Brasil

“Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus DIREITOS, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.”

O inflamado texto acima é parte do editorial de O Globo, publicado no dia 2 de abril de 1964, após um dos momentos chave da história do Brasil. O deposto João Goulart não terminaria seu mandato, assim como seu antecessor Jânio Quadros.

Mas, afinal, o Palácio do Planalto exercia mesmo a tal da ação subversiva? Os tais vermelhos haviam mesmo envolvido a mais alta esfera política do Brasil?

Os eventos que levaram à queda (ou à rasteira em?) de Jango começaram com os parafusos a menos de Jânios Quadros. O homem da caspa de mentira (?), do sanduíche de mortadela no bolso, dos cabelos desalinhados e dos bilhetinhos retos e diretos não aguentou a pressão de Brasília e pediu pra sair. O que ele REALMENTE queria fica para a galeria de mistérios que aparentemente jamais serão descobertos.

Mas o fato estava consumado em 25 de agosto de 1961. Em seu lugar assumiria o gaúcho João Goulart, eleito democraticamente vice-presidente, ainda que não comungassem das mesmas ideias. É bom lembrar que presidente e vice eram eleitos separadamente e não necessariamente eram chapas pertenciam a mesma chapa.

Já em 61 as Forças Armadas movimentaram-se para impedir que comunista (será?) Jango, naquele momento em um rolê uma visita à China (ainda sob influência de Mao Tsé Tung), vestisse a faixa presidencial.

E ATÉ QUE FAZIA SENTIDO.

Em plena Guerra Fria, quando um simples “vish, eu não deixa queito” poderia provocar uma saraivada de mísseis para todos os lados, DAR A IMPRESSÃO de aliança com russos e chineses poderia provocar uma reação nada amigável de nossos vizinhos estadunidenses, seja explosiva ou econômica.

Particularmente eu duvido que o Brasil se transformaria em um regime comunista. E duvido, também, que a melhor forma de acabar com a tal da ameaça fosse a base da força. Não faltaram eleições diretas um ou dois anos de depois?

Jango ainda se sustentou um tempo, mas os tanques dos militares foram mais potentes.

É claro (?) que não se poderia imaginar que o controle militar perduraria por tanto tempo, muito menos que a perseguição aos ditos comunistas resultaria em imagens como o suicídio (mais do que forjado) de Vladmir Herzog. Sem contar toda a parte da tortura e dos desaparecimentos inexplicados, inadmissíveis em qualquer tipo de governo.

Mas todo esse contexto histórico dos últimos parágrafos serviu para embasar uma percepção que me ocorreu nas pesquisas para esse texto: ainda há um traço, um sentimento, uma ideia (e até mesmo um saudosismo) em muita gente de que o golpe de 64, ou melhor, a Revolução de 64 não apenas foi benéfica, mas como infelizmente acabou. Veja:

“A data de 31 de março de 1964 é magna na história de nosso país, quando brasileiros patriotas tomaram armas contra os traidores da Pátria, que queriam fazer do Brasil uma grande Cuba tropical. Heróis, alguns ainda vivos. É preciso retirar da História as sua lições”.

Percebem a similaridade entre o texto acima, postado por um cidadão qualquer no Youtube e o editorial de O Globo, no início do texto? O traço se mantém. Assustador? Natural? Certo ou errado?

O xeque mate dado em 31 de março resultou, na manhã seguinte, no Primeiro de Abril mais longo – e sem graça – da história do Brasil. Tão longo que, pelo visto, ainda não acabou para muita gente.

Se eu fosse você reservaria 49 minutos do seu dia para assistir a entrevista do brilhante  Geneton Moraes Neto com o General Leônidas Pires Gonçalves. É interessante demais como um mesmo fato – por exemplo a morte de Herzog – pode ser vista de ângulos tão diferentes. Tão diferentes que nem parecem o mesmo fato.

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Tenho cada vez mais certeza que, mais do que um Golpe ou Revolução Militar, o que ocorreu no Brasil entre 1964 e 1985 foi uma verdadeira Guerra Civil Brasileira.

Varig, da excelência à falência: o que deu errado?

“Varig, Varig, Varig”. Um dos jingles mais conhecidos e tradicionais do país gravou em milhares de brasileiros o nome de uma companhia aérea que muito fez, mas que hoje não passa de uma massa falida e de uma excelente história para contar. Afinal, o que aconteceu com a Pioneira, do ápice ao fundo do poço?

A Varig, fundada no Rio Grande do Sul da década de 20 (sob o nome de Viação Aérea Rio Grandense), cresceu e se destacou como uma sólida empresa nas mãos de Rubem Berta (hoje no ramo de clínicas e avenidas). Os pilares desse crescimento foram o respeito (e a fartura) para com o cliente e, com os funcionários, o intenso treinamento técnico e humano, fornecendo todos os subsídios necessário para trabalhar. A estrutura era invejável, acolhendo todos.

A comissária de bordo Claudia Vasconcellos escreveu o livro “Estrela Brasileira“. Boa parte das informações aqui contidas de lá foram tiradas.

Primeiramente há que se falar do serviço de bordo estupendo. Algumas coisas que captei durante a leitura do livro fizeram meus olhos saltarem, a boca salivar e o estômago perguntar por que eu estava deitado e não viajando Varig. Veja só que loucura:

“Servíamos canapés frios — torradinhas cobertas com pasta de roquefort, ovas de salmão com maionese, foie gras e pequenas bolinhas de caviar com uma minifatia de limão — e quentes, palitos de churrasquinho e casquinhas de siri.

(…) Passávamos um carrinho de bebidas, com garrafas de Johnnie Walker — Black e Red Label —, Chivas, Ballantine’s, Jack Daniel’s, Crown Royal, Glenfiddich, Campari, gim Tanqueray, vodka Stolichnaya, Vermouth Seco, Vermouth Doce, Dubonnet, Carpano, Cachaça Nega Fulô, rum cubano e um balde de gelo com champanhe — o gargalo envolto em guardanapo de linho. (…) cervejas de várias nacionalidades, suco de tomate, Ginger Ale, Seven Up, club soda, água tônica, Coca-Cola, guaraná, água com gás e jarras de suco (…) angostura, orange bitter, vidrinhos com cereja em calda e azeitonas e um copo com espetinhos (…), um copo grande com agitadores, copos para short e long drinks e flutes. Na parte inferior, copos para água, vinho tinto e branco”.

E você pensa que é só? Ainda tinha o carro de caviar. “Trazia, na parte superior, uma lagosta com galantine, uma concha cheia de gelo moído encimado por uma lata grande de caviar Beluga Malossol e limões cortados ao seu redor, vodka Stolichnaya envolta em gelo enluvando a garrafa (…), tigelinhas com manteiga clarificada, sour cream, limões em fatias, cebola cortada em cubinhos reduzidos ao seu tamanho mínimo, gema e clara de ovo picadas, uma forma coberta por um guardanapo com blinis aquecidos e melba toasts (…) melões com presunto de Parma.

Não, não acabou! Faltaram as sopas, as saladas, torradas e o churrasco. Churrasco? Acredite se quiser. Ah… Eu citei as nozes, os queijos, tortas, café, chás e licores digestivos? Que bom, porque faltou o café da manhã, com pães, bolos e ovos fritos na hora, pelo cozinheiro na galley.

Tantas outras coisas, gastronômicas e materiais, também eram servidas a bordo. Valeria um texto só para elas. A leitura do livro é imprescindivel. E eu, como Bacharelando em Administração, ficava me perguntando como manter essa estrutura em todos os vôos. A Varig rodava o Brasil e o mundo e tinha esse serviço de bordo impecável.

Por que faliu?

A falência, claro, tem várias explicações e uma delas é a mudança no paradigma dos serviços de bordo. Hoje nos surpreendemos com “amendoim e bolacha” a vontade. E só. O espaço entre as poltronas foi diminuído. O avião deixou de ser uma ocasião especial, um luxo, e passou a ser rotina para muita gente. Isso é ruim? De forma alguma. É apenas outro modelo de negócio, no qual tudo é mais pratico e rápido. Antes, o ápice era a viagem. Hoje, é partir e chegar. De preferência sem atrasos.

Outro motivo foi a perda de alguns privilégios nos vôos internacionais. O padrão da Varig era uma excelente propaganda para os militares (assim como a seleção de 70). Ainda: as lojas da Varig no exterior eram “embaixadas”, nas quais turistas e exilados liam jornais e revistas tupiniquins. No governo Collor isso foi por água abaixo. Concorrência faz o preço baixar e a demanda diluir. E por falar em governo, é bom lembrar a terrível década de 80, com trocentos planos econômicos e inflação a 60 mil pés. Quem se arriscaria a viajar assim?

As dividas e balanços negativos começaram a se acumular na década de 90 (muito em função, como dito, dos custos crescentes e do preço congelado de passagens) e, com isso, a decadência se tornou mais obvia: os atrasos de salário (ou pagamento em parcelas) minavam o maior patrimônio da Varig: os funcionários. Como se não bastasse, tinham que usar mais do que criatividade para suprir a carência de objetos a bordo. Até pó de café alguém traziam. Insustentável.

A Pioneira foi loteada, vendeu o que podia. Agonizou. Demitiu por telegrama. Morreu.

Hoje a Varig é uma (saudosa) lembrança na memória daqueles que acordaram pelas manhãs ouvindo o cantar dos pássaros, que aprenderam sobre a cultura do país para qual viajavam, que deram valor a sofisticação. Tudo isso nos vôos da Varig.

Varig, Varig, Varig!

Forward Obama, Forward

Eu vou, eu vou, pra casa (Branca) agora eu vou…

A caixinha de correio da Casa Branca vai continuar estampando o nome dos Obama pelos próximos 4 anos. O democrata foi reeleito com 303 delegados no colégio eleitoral, enquanto seu adversário, o republicano Mitt Romney, conquistou modestos 206.

A campanha foi bastante acirrada. A grave crise econômica e sua retomada foram argumentos tanto de um lado quanto de outro. As projeções durante os meses de debates e comícios não arriscavam um vencedor. A igualdade manteve-se nos três debates realizados. Terminaram com o placar de 1 x 1 x 1. Romney venceu esmagadoramente o primeiro. Obama retomou com classe e venceu o segundo. No terceiro, claro empate.

Romney foi um adversário competente, tanto por ele mesmo quanto pelas circunstâncias. Partiu para o ataque com sede ao pote. Cometeu algumas gafes, é verdade: apontou a Rússia (?) como grande adversária e não deu lá muita importância para fontes alternativas de energia, prometendo, inclusive, investir nos combustíveis fósseis, na contra-mão do resto do mundo. Entretanto, obteve um desempenho nas urnas melhor do que John McCain, em 2008.

Obama, por outro lado, continuou abusando da oratória mais do que conhecida e reverenciada, entretanto, contou com um aliado importantíssimo: Bill Clinton encantou as plateias com ataques ácidos às propostas e ao candidato republicano e, muitas vezes foi considerado a estrela da noite. O senso de humor do ex-presidente continua intacto.

Pesquisas realizadas ao redor do mundo eram claramente favoráveis a Barack Obama. Todo mundo gosta dele. Todavia, aonde mais interessa, ou seja, dentro dos EUA, a coisa foi é bem dividida. No voto popular, foi 50% x 48%, pouco menos de 3 milhões de votos de diferença. O novo-velho presidente vai ter que unir o país e continuar a retomada de sua economia, o estímulo a criação de postos de trabalho e olhar com mais carinho para saúde (lembre-se que lá não tem SUS. E sim, isso é um problema, por mais incrível que pareça).

Esse último ponto, aliás, ficou bem claro durante a campanha. Enquanto Obama pregava a manutenção do Medicare (um plano de saúde para idosos, por assim dizer) e um Medicaid (o mesmo, mas para famílias de baixa renda), Romney apontava que o jocoso “ObamaCare” causaria um rombo financeiro, o que de fato tem preocupado especialistas financeiros. Do UOL: “Segundo Don Berwick, ex-administrador dos centros de serviços do programa, o desafio pela frente é muito mais complicado do que simplesmente mudar a estrutura de financiamento do Medicare. Segundo ele, o sistema de saúde inteiro precisa de mudanças”.

Para cumprir o que o próprio slogan da campanha reafirmava – Forward – o tio Barack vai ter que lidar com a maioria Republicana na Câmara dos Deputados contra uma maioria apertada de Democratas no Senado (fora os 30 governadores Republicanos x 17 Democratas).

A dobradinha Obama-Biden tem mais quatro anos. Com o mundo inteiro de olho e a vigilância em casa bastante pesada, não serão dias tranquilos. Principalmente porque agora não será possível gastar a carta na manga que foi a captura de Osama bin Laden. Vão ter que achar outro trunfo.

Não há nada melhor do que terminar com as palavras do próprio reeleito, em mensagem aos apoiadores antes do discurso em Chicago. Tradução minha, portanto, peço desculpas adiantadas:

“(…) Eu quero que vocês saibam que este não era o destino, e não foi um acidente. Vocês fizeram isso acontecer. (…) Hoje é a mais clara prova, que contra todas as probabilidades, os americanos comuns podem superar os interesses dos poderosos. Há muito mais trabalho a fazer, mas, por hora, obrigado”.

The American way of speech

Lá vem o Negão, cheio de paixão…

Quando a madrugada do dia 25 de janeiro dava seus primeiros passos aqui no Brasil, o Presidente dos Estados Unidos entrava no Congresso americano para fazer um tradicional discurso, chamado lá de State of Union.

Em resumo, é a oportunidade anual e obrigatória do Presidente prestar contas do mandato (aos congressistas e a população) e revelar as perspectivas a curto, médio e longo prazo. Mais do que isso, é motivador, nacionalista e crítico. Nada é improvisado. Cada vírgula é colocada e ensaiada, numa coreografia de precisão cirúrgica.

Amigos leitores, com o perdão da expressão, Obama pôs o pau na mesa. Foda ba garai. Leia o discurso completo, em inglês, no blog do Rodrigo Lopes, bom repórter da RBSObviamente, foi impossível não abrir comparações entre o modelo estadunidense de governar e o tupiniquim nosso de cada dia.

Começa pela obrigatoriedade. Tá na sagrada Constituição deles que o cidadão que estiver jogando X-Box no Salão Oval deve comparecer ao Capitolio para trocar umas ideias com os manos engravatados. Aqui no Brasil é raro ter uma coletiva de imprensa (raríssimo). Os pronunciamentos são curtos, engessados e… gravados. Ir ao Congresso? Só no Dia da Posse…

A obrigatoriedade força uma preparação. Ir até lá pra fazer algo meia boca não rola. Então, os assuntos são selecionados a dedo, com meses de antecedência. Planejamento!

Algo que me impressionou foi a capacidade de discurso de Barack Obama. Falou durante quase uma hora, sem necessitar voltar os olhos para o papel. De fato, se o Rodrigo Lopes não tivesse alertado, eu nunca teria percebido que usou-se o teleprompter (ainda tenho minhas duvidas…). FHC e Dilma não tem a oratória prejudicada… são articulados. Lula, então, nem se fala. Por que não usar? Precaução? Não precisar sair da zona de conforto dos discursos gravados? Não tem emoção! Não é um diálogo! Chega de interrogações e exclamações!!!!

Mais legal do que a capacidade oratória, é o tamanho do culhão (balls of steel) para dizer o que foi dito por Obama. Em itálico e negrito, minha tradução livre de trechos do discurso em inglês.

Está cada vez mais caro fazer negócios em países como a China [...] Crio hoje uma comissão para investigar práticas desleais de comercio em países como a China. Eu não imagino ninguém aqui espetando um país vizinho nesses termos. E espetando com toda a razão, diga-se de passagem. Com as fábricas se transferindo para lá, aumenta o poder de controle chinês. E poder demais na mão de um só país nunca é bom.

Outro tapa com luva de boxe foi em Wall Street. Algo como não voltarei aos dias em que Wall Street criava suas próprias regras [...] Portanto, se você é um grande banco ou instituição financeira, não está mais autorizado a fazer apostas arriscadas com o dinheiro dos seus clientes. Cabongada em quem tem dinheiro não é exatamente uma das especialidades da Situação. Aliás… muito pelo contrário.

Como se não bastasse, ele sabe que produtores de leite são capazes de conter um vazamento do seu produto, sem a necessidade de agências federais fungando no cangote, mas quer ter certeza que as companhias extratoras de petróleo são capazes de evitar o que vimos no Golfo [do México] há dois anos. Seria fantástico alguém chutar a canela da Petrobrás quando esta faz alguma besteira, mas não. Ninguém tem coragem pra isso.

E, finalmente, algo que não vejo possível no Brasil mais por culpa das militâncias partidárias cheias de mimimi do que dos próprios políticos. Obama disse: Sou Democrata. Mas acredito no que o Republicano Abraham Lincoln acreditava: O Governo deve fazer aquilo que as pessoas não são capazes de fazer melhor sozinhas e nada mais do que isso.

Cada país deve ser autônomo na maneira de gerir sua política. Cada Estado tem sua cultura, seu jeito de governar, construído passo a passo, dia após dia. Entretanto, isso não nos impede de observar e aprender com práticas de nossos co-irmãos. O Discurso do Estado da União viria bem a calhar num Brasil carente de debates positivistas e construtivos.

2012 é ano eleitoral nos EUA. E esse foi o discurso que pode ter decidido a corrida à Casa Branca a favor de Barack Obama. Segundo a Globo News, esse discurso fez a popularidade do presidente Clinton, na oportunidade, subir VINTE PONTOS PERCENTUAIS.

E, sinceramente, o Negão foi bem pra caramba.

O Pateta é meu herói

A Disney, hoje, não é nem sombra do que foi há algumas décadas. É claro que a magia ainda permanece, principalmente falando de seus parques temáticos. Já as novas obras não são exatamente a última bolacha do pacote, tanto é que se aliaram (ou compraram, como queiram) a Pixar. Se olhar o canal Disney Channel e Disney Channel XD, então…  todas aquelas séries com atores mirins que viram estrelas mundiais e motivo de choro das adolescentes tem, para mim, um lugar reservado na lata do lixo. Pra quem já viu “Fantasia” e seu icônico Aprendiz de Feiticeiro, não dá pra ficar contente com o que transmitem agora. Pobres jovens.

Mas eu perdôo. Não guardo rancor. Desculpo todas as falhas que os novos tempos podem causar. Simplesmente porque temos o Pateta. O cachorro que é bípede e fala como humano – ou quase isso –  tem a MELHOR série de desenhos entre o trio de ouro (sim… é melhor que Donald e Mickey). Os manuais, tutoriais ou sei lá como chamam esse tipo de história na qual o narrador descreve as situações e nosso amado Goofy as coloca em prática, são fantásticos.

Os desenhos antigos, com qualidade no roteiro e piadas na sintonia do quanto mais simples, melhor, não vão morrer jamais. Quer dizer, ao menos enquanto existir o Youtube.

Abaixo relaciono alguns “episódios” inesquecíveis. De fato, o Pateta é meu herói.

(Esse ultimo não é da mesma série, mas eu tinha essa fita cassete quando era pequeno. Quase escorreu uma lágrima revendo as cenas que eu AINDA tinha na memória. Foi nesse que eu aprendi o grito do Pateta, como saber se uma corda está esticada e como deitar na rede com estilo

Impressionante como, mais de 16 anos depois, eu ainda sabia o que ia acontecer em cada tomada de cena. Emocionante.)


O curioso caso Geisy Arruda

A nobre leitora não precisa ficar intrigada. O atento leitor, por sua vez, não precisa coça os ralos cabelos que ainda restam na altura das têmporas. E, por mais que a maioria de votos diga que sim, ainda não estou completamente maluco.  Eu vou mesmo falar sobre Geisy Arruda nesse texto.

O caso Arruda (não confundir com o político do DF) é muito mais interessante do que parece. Acho que, mais do que uma análise, vale uma reflexão.

Começamos pelo começo.

Dia 22 de outubro de 2009. Manhã. Quem era Geisy Arruda? Até aquele momento, uma estudante como tantas outras. Fazia parte da minoria (ainda somos minoria? Odeio usar esses chavões sem ter certeza) que tem acesso ao Ensino Superior. Estudava turismo. Mais uma na multidão, sem destaque, brilho ou atenção.

Dia 22 de outubro de 2009, noite. Pequenas decisões alteram definitivamente nosso futuro. Quantas roupas existem em um guarda-roupa de mulher? Quantas opções de vestuário poderiam ser utilizadas naquela noite? Muitas, sem dúvida. Entretanto, o escolhido foi o vestido rosa, curto (?). O vestido dos ovos de ouro, sem duplo sentido.

Numa história até hoje mal explicada, alguns alunos (sempre são poucos que comprometem muitos) revoltaram-se com o tamanho diminuto do vestido e promoveram uma baderna generalizada. Alguns afirmam que foi Geisy quem provocou os baderneiros… hã… sensualizando um pouco demais.

Resumindo a ladainha, a polícia foi chamada e a imprensa também. Geisy deu entrevistas, foi a programas matinais, abandonou a Universidade. Processou. Normalmente o caso acabaria aí, com os 15 minutos de fama. Contudo, algo diferente aconteceu. Dessa vez a pequena janela da oportunidade foi agarrada com força, escancarada. Geisy mergulhou no rabo do foguete. Novamente sem duplo sentido.

O parágrafo de um texto do R7 é emblemátivo: “Um ano depois, Geisy se tornou uma celebridade – estudou teatro, abriu uma grife de vestidos, escolheu um namorado no programa de Rodrigo Faro, foi convidada para estrelar videoclipes, posou nua para uma revista masculina e participou do reality show A Fazenda (Record), do qual foi a segunda eliminada“.

Atualmente Geisy Arruda tem um papel cômico (pelo menos a intenção é essa) na Escolinha do Gugu. Ganha seus cachês/salários e vai construindo sua carreira, seu patrimônio. Até fã clube tem.

Por mais estranho que possa parecer, Geisy é um exemplo para mim e para você. Podemos questionar seu talento, as reais intenções do tal do vestido, se a qualidade dos projetos dois quais ela participa é boa ou ruim. Você pode questionar se teria coragem, senso do ridículo, enfim…  vontade de encarar a mesma coisa. Justo. Justo como o vestido.

Entretanto, não dá para ignorar o que ela conseguiu. Está estabelecida numa grande rede de televisão. Tem um networking respeitável. Fez sua conta bancária crescer. Viveu em 2 anos o que muitos não conseguem em 30. Se o momento é de exaltar os empreendedores, aqueles que transformam o nada em alguma coisa, há de se entender o caso Geisy como uma história de sucesso. De alguém que tinha um problema nas mãos, mas viu uma oportunidade.

E tudo por causa de um vestido.

Um vestido.

Passaram a perna no Rei Roberto

Hoje é o aniversário político da cidade onde moro. Isso significa que há 154 anos Itatiba tornou-se independente politicamente, tendo sua própria Câmara de Vereadores e, consequentemente, suas próprias Leis. Também conhecido como emancipação política. Para comemorar a data, o Programa Voz e Vez (é, aquilo que eu chamo de programa de rádio) entrevistou o historiador e Secretário de Cultura, Esportes e Turismo da cidade, Luis Soares de Camargo.

A entrevista teve 40 minutos de material bruto e muita coisa interessante deixou de ir pro ar por falta de tempo. Mas eu sei que, pra vocês, não interessa muito saber como Itatiba foi fundada, nem a participação dos imigrantes no processo de desenvolvimento da terrinha. Por isso, aqui, vou transcrever as palavras do entrevistado sobre as duas visitas do Rei Roberto Carlos em Itatiba. Sim! O Rei esteve aqui e vocês não vão acreditar no que fizemos com ele.

Diz o Secretário:

“Na verdade, o Roberto Carlos quando veio nos anos 60 pela primeira vez em Itatiba, 67, mais ou menos aí, por esse período, ele se apresentou no Cinema (Cine Marajoara), que hoje é as Casas Bahia, ali na Praça da Bandeira. Ele ficou hospedado num hotel onde hoje é o Palecete [Damásio]

O Palacete que era Hotel

Mas é claro que as meninas sempre gritavam o nome de Roberto Carlos e queriam pegar no Roberto Carlos e tirar um pedaço da roupa dele… estava no auge do sucesso. E os rapazes de Itatiba se sentiram enciumados com isso. E o que houve foi que na escadaria do Palacete, existe até hoje, ele LEVOU UMA RASTEIRA e quase caiu. Na verdade foi isso que aconteceu. Daí que ele ficou muito bravo, dizem que ele fez uma música… uma música “Querem acabar comigo”, essa coisa toda e saiu muito chateado de Itatiba.

Alguns dizem que o caso foi até mais sério e que pessoas se engalfinharam com os guarda-costas do Roberto Carlos. Isso realmente aconteceu, que eu saiba, na escadaria do Palacete: um rapaz de Itatiba, família muito conhecida,  e que passou uma rasteira nele, e houve um início de briga e por isso ele ficou muito chateado. Mas foi por conta disso, ciúmes, porque as moças queriam se aproximar do Roberto e eles então – os rapazes de Itatiba – ficaram enciumados.

Escadaria do Palacete. Será que foi aqui?

Uma segunda vez o Roberto veio a Itatiba, mas aí ele já não estava no auge da sua carreira. E se apresentando aqui no Ginásio Municipal de Esportes [José Boava]. Porque é difícil lotar o Ginásio de Esportes… não é fácil não. Então não é que ele foi mal recebido depois, não, ao contrário. Ele não estava com sucesso suficiente para lotar o Ginásio, então as pessoas NÃO se interessaram em ir assistir o Roberto Carlos.

Vôlei no Ginásio. Bons tempos de Olimpíada Estudantil

E houve até uma questão engraçada que as pessoas responsáveis pelo show passaram de carro na Praça da Bandeira lotando peruas Kombi e tal, DE GRAÇA, para não passaram vergonha, porque não tinha quase ninguém para assistir o Roberto Carlos no Ginásio Municipal de Esportes. Foi isso que aconteceu”.

Quem diria hein? Que baita sacanagem fizemos com o Rei. Além de passar a rasteira no coitado, ainda avacalhamos com o show, entrando todo mundo de graça…

Parabéns Itatiba! #ItatibaDay! Que orgulho da minha terra!

O charmoso Grito do Ipiranga

Naquele longínquo ano de 1822, era D. Pedro o responsável por cuidar da quitanda chamada Brasil. Seu pai, o gorducho D. João, tinha raspado os cofres da Corte e voltado de mala e cuia para Portugal, após um período de paz e tranqüilidade nos trópicos. Ah, as férias!

Certo dia, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça – o melhor amigo que um homem poderia ter, afinal, não é todo mundo que pode contar com alguém especializado em marcar festas e, principalmente, arrumar mulheres dispostas a… divertir o patrão – disse a Perdão:

Pô Pedrão… lá em Santos tem um menino da base surgindo. O moleque é bom de bola e tem grande potencial midiático. Bora lá? Você aproveita e inspeciona as nossas defesas marítimas, assim ninguém enche o saco“.

Excelente ideia, Chalaça. Arrume a tropa. Tô precisando de uma praia diferente, mesmo“.

E partiram no lombo da mula para Santos, em direção a Vila Belmiro. Bem… o jogo não foi lá aquelas coisas (dizem as fontes históricas que o menino caia demais) e as fortificações não estavam lá aquelas coisas, mas passaram na revista.

No dia anterior a volta, uma belo almoço foi organizado em honra de D. Pedro. A ideia, claro, foi do Chalaça. E dá-lhe feijoada, cerveja, torresminho frito, vinagrete, farofa. Foi um almoço digno de chamar um guindaste para mover os participantes.

Na manhã do dia 7 de setembro, bem cedo, a viagem de volta começou. A subida, que já era lenta devido a íngrime subida, ficou ainda mais comprometida com a digestão do dia anterior. Pedrão suava, sentia a barriga borbulhar. Nem chazinho de folha de goiabeira resolvia o problema. Não foram poucas as vezes que o matagal foi mais amigo que o próprio Chalaça. Folia no matagal.

A subida da serra tinha sido cansativa, mas nada se comparava às 8 horas de caminhada pelo planalto. E como desgraça pouca não vem sozinha, ao final da caminhada ela veio a galope. A trupe vinda do Rio de Janeiro, que fazia as vezes de carteiro (que estavam, pra variar, em greve), trouxe 3 cartas. D. Pedro leu, mas estava morrendo de vontade de usar como substituto das folhas que até então era sua salvação.

A primeira, do Zé Bonifácio, dizia: “Ó Pedrão, se liga na parada. Vi no Twitter do Capitão um check in no Foursquare lá no porto de Lisboa com outros 7.100. Parece que os homi tão vindo pra cá. Na boa… ou você declara “saporra”  - com todo o respeito, majestade – independente ou vai virar rapariga dançarina do vira nas cadeias de Portugal”. Pedrão terminou a leitura e deu um sorriso de canto de boca.

A segunda, de D. Leopoldina, terminava com: “Deixa de ser bunda mole e faça o que tem que fazer“. D. Pedro ergueu levemente a sobrancelha esquerda.

A terceira era da chefe das cozinheiras do palácio imperial. Dizia: “Tudo o que você puder carregar de farinha, café, ovos e frutas. Traz da banca do seu Joaquim, é a melhor que tem no Mercadão“. Pedrão pensou no sanduíche de mortadela, mas sua barriga rugiu, demonstrando o mais profundo desespero.

Pedrão respirou fundo. Olhou para lado e viu um soldado de sua guarda de honra limpado o salão com o dedo indicador. Olhou para outro e viu parte de sua tropa chutando pedrinhas no chão. Olhou para o padre Belchior e perguntou o que deveria fazer. O padre Belchior respondeu: “Você é um rapaz latino americano, com parentes importantes. Faça a sua história“.

Pedrão então bateu o martelo: “Seguinte pessoal. A coisa tá feia e o bicho tá pegando. Todo mundo acha que eu sou um moleque, ninguém me respeita. Então tá na hora daquele povo de Portugal ver quanto vale esse moleque. Aqui… pode espalhar pra todo mundo que somos livres. Essa porra é nossa e ninguém vai botar banca nas minhas quebradas. Papai e todos os outros lá em Portugal vão ter que me engolir!”.

Fez-se um silêncio sepulcral.

Porra… ninguém vai me apoiar? Tá todo mundo se cagando de medo? E eu achando que o cagão da expedição aqui era eu!

É que… majestade… você está esquecendo de alguma coisa. Falta aquela frase lá“.

Frase? Que frase? Pera aí, deixa eu consultar o roteiro. Bla-bla fica com vontade de evacuar… humm… recebe a carta… tá…humm.. er.. ah, aqui! Gri-ta in-de-pen-dên-cia ou mor-te”.  Era isso? Só isso? Então tá…

As mãos dos soldados lentamente se dirigiram as bainhas

Declaro o Brasil livre de Portugal. INDEPENDÊNCIA OU MORTE!

Documentário gravado ao vivo

INDEPENDÊNCIA OU MORTE!” gritaram todos, brandindo suas espadas no ar. Nesse instante o Pedro Américo tira uma foto.

Pedrão, ainda um pouco inseguro, cochichou ao pé do ouvido do Chalaça: “Tá, beleza, o que faremos agora?

Eis que o Chalaça responde, encerrando esse capítulo: “Isso, Majestade, é outra história“.

Fonte: Os dados verdadeiros foram retirados do livro “1822″, de Laurentino Gomes.

Rock in Rio de sofá

O Rock in Rio tem uma premissa das mais bacanudas: reunir 100 mil pessoas (ou mais) para prestigiar as melhores bandas do mundo, em grandes shows. Você pode ter a oportunidade de assistir seus artistas favoritos, um atrás do outro (com ou sem sacanagem, sei lá), pagando apenas 1 real ingresso.

Já eu tenho o privilégio de acompanhar tudo isso do conforto do meu sofá velho, jogando amendoim pra cima e tentando acertar goela abaixo. E, como você bem sabe, não sou lá grande admirador de música. Deste modo, imagino que vejo o Rock in Rio da mesma forma que uma pessoa que não gosta de futebol assiste a Copa do Mundo: no caso do ludopédio, perguntam quem é aquele senhor com o uniforme diferente dos outros e com um apito na boca. Seria o mestre de bateria? Não… é simplesmente o Pierluigi Collina.

No caso do Rock in Rio, eu não sei a importância do Metallica para a história da música, não sei dizer se o Guns N’ Roses atual é melhor ou pior do que o de anos passados e, principalmente, não sei dizer o que a Claudia Leite fazia lá. Se alguém souber, me avisa.

Entretanto, gostaria de comentar algumas impressões que tive durante esse primeiro final de semana. Depois vocês vão me dizer se estou errado, muito errado ou se eu devo ir lá no cantinho me afogar no próprio vômito.

Não pude passar o final de semana todo acompanhando as apresentações, por isso, vou falar de apenas 4, as quais pude prestar mais atenção e formular algumas breves linhas.

Katy Perry: A moça é, obviamente, muito simpática e bonita – principalmente se você considerar o olhar. Acontece que fiz um esforço e consegui me concentrar (também) em outros aspectos. Algo que me impressionou foi perceber que ela compõe as músicas que canta. Acho muito positivo o artista participar também da criação e não apenas da execução. Nada contra os intérpretes (ou crooners), mas acho muito mais legal botar a mão na massa do que somente vender o pão.

Outra coisa que chamou minha atenção foi a leve sacaneada nos argentinos em determinado momento. Das duas, uma: ou ela estudou direitinho público que teria ou tem uma produção competente. Ponto para ela.

Rihanna: Não gostei e explico: começou o show com um enorme atraso. Se não havia nenhum problema técnico aparente, é, no mínimo, falta de responsabilidade. 100 mil pessoas em pé, outras milhões pela televisão, transmissão ao vivo, patrocinadores… Assim fica difícil. Outra coisa que me incomodou foram os insistentes movimentos com a mão na.. no.. bem… na pelve. Não julguei sensual (que deveria ser a intenção). Estava mais para partes íntimas mal lavadas e coçando. Blegh.

Motorhead: Não entendi nada. O vocalista parecia uma mistura dos caras do American Chopper com cantores de country music americana. Se eles entrassem cantando “I Walk the Line” do Johnny Cash eu não estranharia. Outra coisa a ser comentada: não senti lá muita diferença entre uma musica e outra. Parecia que estavam cantando sempre a mesma coisa. Destaque para a entrevista pós-show. Alguém perguntou qual a inspiração para a música “Going to Brazil”. O cidadão não teve dúvidas e mandou na lata: “Going to Brasil”. Xeque-mate.

Slipknot: Entendi menos ainda. Além de repetir o artifício de cantar sempre a mesma música, mas colocar nomes diferentes em cada trecho, os caras usavam máscaras nada… convidativas. Como é tradição, incitaram o público a uma “violência organizada e respeitosa”, se é que isso existe. Ao menos acredito que tenham se divertido, já que até o famoso mosh fizeram algumas vezes (literalmente, nos braços do povo). Se o meu inglês ainda presta para alguma coisa, deu para sacar que eles tentavam mostrar ao público que todos ali fariam parte de algo inesquecível, que entraria para a história da música. Entãtá. Ah sim… impressão minha ou eles se emocionaram no final? Metaleiro tem coração?

Semana que vem tem mais. Não dá para imaginar quais as surpresas que estão reservadas para o palco Sunset e para palco Mundo, mas de uma coisa eu sei: estarei com meu pijama surrado, brindando à saúde dos corajosos que estarão espremidos no meio do povo, pelo simples prazer de ver miniaturas de cantores desfilando seu talento.

Reerguendo São Luiz do Paraitinga

Começo de 2010. O peru ainda não havia sido totalmente digerido, a farofa ainda estava na geladeira e a ressaca do reveillon ainda não tinha passado totalmente quando começou a chover. E a chuva foi forte. MUITO FORTE. O rio transbordou, mas não como das outras vezes. São Luiz do Paraitinga, cidade histórica, de Oswaldo Cruz e Elpídio dos Santos, estava submersa. E, infelizmente, não é força de expressão.

Quase uma centena de casarões tombados foram completamente subjugados pela força das águas. A Igreja Matriz, o símbolo maior da cidade, estava completamente no chão.

Em amarelo você vê o que é a Praça Oswaldo Cruz. Mais acima, em vermelho, a Igreja Matriz. Do outro, em verde, o Mercado Municipal.

Mas o tempo passa. Para mim, para você e para São Luiz do Paraitinga. Tive a oportunidade de visitar o local nessa semana, e vou contar o que vi 1 ano e 9 meses após a tragédia. Impressões gerais de quem sentiu o clima e viu de perto as consequências da força da enchente.

Três estágios: danificado, restaurado e em reforma

Primeira constatação importante ao chegar no centro de tudo: não há mais escombros pelas ruas. Um detalhe bobo, mas que significa o começo da reconstrução. Ao andar pelas ruas da cidade fica visível que a maioria das casas recebeu telhas novas e, principalmente, pintura. A cidade é colorida! O comércio é o principal beneficiado pelas mãos de tinta, mas as casas não ficam fora.

Isso não significa, no entanto, que os traços da enchente tenham desaparecido. Muito pelo contrário. Andar pela área central é ser lembrado constantemente que muita coisa foi destruída. A marca d’água em várias casas ainda é bastante forte, sem contar as fachadas com muita lama, provavelmente de gente que abandonou o local. A mesma rua intercala o restaurado com o danificado. Abaixo algumas imagens dessas duas pontas.

O ponto mais emocionante é, sem dúvida, a Matriz. Ela é apenas um esqueleto do que outrora foi. É assustador ver o tamanho daquela igreja e imaginar que aquilo desabou pela força da água. Nas laterais, os tijolos antigos, encontrados nas escavações e na limpeza (que eu acho que ainda não terminou) são separados e empilhados, esperando para serem usados na reconstrução. Talvez sejam também restaurados, uma vez que podem não estar 100% confiáveis.

No local da porta da igreja, o sino. Dei sorte de presenciar um momento simbólico. Um rapaz fez o sino badalar manualmente. Vi aquele sino grande, pesado, sendo acionado pelas mãos do homem. Pode ter sido apenas impressão, mas senti o silêncio na praça toda. Os carros parecem ter desligado os motores, as conversas esmoreceram, as pessoas pararam de respirar. O sino repicava solene. PAM… PAM… PAM… Quase em câmera lenta.

O sino pára de retumbar e a vida volta ao normal. O comércio vende seus artesanatos, os bares suas bebidas, as pessoas conversam nas praças. É domingo… é isso que se faz em cidades do interior.

Saí de lá com a impressão de que é inevitável olhar para o céu nublado de São Luiz do Paraitinga e não lembrar daquele começo de 2010. A chuva caiu, a Igreja ruiu. Mas nem tudo foi pelo ralo. Muito trabalho há de ser feito. E o será.

Quem reconstrói tudo aquilo que eu vi, certamente será capaz de terminar. E a inauguração da nova Matriz será o desfecho desse pesadelo. Espero ansioso, pois São Luiz do Paraitinga não pode parar. É história demais para ser lavada de uma hora para outra.

Não deixe de ler a magnífica história da Capsula do Tempo, enterrada por Romildo Guimarães em 1927. Absolutamente sensacional…