Entrefix: Professor Renato Brolezzi

Hoje o blog abre espaço para o Professor Renato Brolezzi. Ele leciona História da Arte na Facamp (Faculdades de Campinas) e também é professor no MASP. É, aquele prédio engraçado que serve de cenário para a São Silvestre. Você não sabia que tem aula lá? Pois é… nem eu. Veja no site mais informações sobre o serviço educativo.

Nascido em Campinas, formou-se na UNICAMP em Antropologia Social e faz pós graduação em História da Arte. Assim, o Carlos Lemes Jr conversou com ele a respeito de… cultura! O nível cultural dos brasileiros é realmente baixo? Qual é a parcela de culpa do ensino público? Há políticas estruturadas para fomentar essa área?

É o que você vai ler… agora!

IF: Além da falta de boas escolas, por que o nível cultural dos brasileiros, no geral, é baixo?
RB: O conceito de cultura é bastante complexo, mas vamos nos deter apenas na chamada educação formal : devido a muitos fatores de ordem histórica, o cidadão brasileiro (especialmente aquele que pertence às classes sociais mais baixas) possui péssima formação. Acredito que podemos apontar três grandes causas para isso, de naturezas diversas:

1. O absoluto desmantelamento do sistema educacional brasileiro, que afeta não apenas as escolas públicas (reduzidas a medíocres burocracias sem qualquer qualidade) mas também se nota nas instituições privadas (nas quais, via de regra, a educação é considerada exclusivamente do ponto de vista utilitário, e não como promotora da emancipação do pensar);

2. A péssima distribuição de renda no Brasil, que tem melhorado nos últimos anos mas ainda se encontra tímida demais, mesmo para apontarmos tendências para o futuro. Os jovens de classes sociais baixas não têm tempo disponível para permanecerem estudando, e nem dinheiro suficiente para isso, e entram muito cedo no mercado de trabalho (despreparados e o que é pior, têm seu processo de formação reflexiva abruptamente interrompido, sem possibilidade de retorno);

3. Algo que sobrevive no Brasil, embora não seja sempre perceptível: a tradição colonial das hierarquias de poder, na qual saber é poder, ou melhor, conhecimento relaciona-se a status social, já que para estudar é necessário tempo livre, o que apenas as elites podiam ter, sendo desta maneira signo de distinção social. Trabalho, nessa tradição, sempre foi associado à pobreza, escravidão e modo de vida das classes subalternas, incompatíveis com as classes dirigentes. O Brasil ainda hoje é o “país dos doutores”, escondido nos discursos e nos hábitos politicamente corretos. Permitir que a educação de qualidade fosse universalizada romperia com antigos arquétipos da formação histórica brasileira, e promoveria de fato uma democracia possível, o que permanece intolerável.

IF: O quanto a chamada “indústria cultural” influencia as pessoas?
RB: Sem nos determos sobre o conceito de indústria cultural, que nos levaria longe demais, podemos dizer que a afirmação da sociedade de massas no século XX, ao lado da hegemonia do modo de produção capitalista, trouxe consigo conseqüências lógicas inevitáveis: há uma forte tendência a que toda produção material e toda produção simbólica dessas sociedades sejam concebidas como mercadorias, portanto submetidas a um único tratamento quantitativo, massificado, descartável (sem permanência, portanto sem reflexão) e homogêneo. A cultura metamorfoseando-se em entretenimento é um dos lemas dos principais pensadores da chamada “Escola de Frankfurt”. A força dessa lógica é muito forte, e hoje mais ainda. Sugiro um agradável ensaio sobre isso, escrito por Gilles Lipovetsky, “A Felicidade Paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo”.

IF: Uma matéria como história da arte poderia ser ensinada em escolas, principalmente, nas públicas?
RB: Uma das falhas do sistema educacional brasileiro é não ensinar história da arte nas escolas de formação básica. Ao mesmo tempo em que ensinaria aos jovens outras dimensões do pensar, desmistificaria a arte e a tiraria do pedestal de luxo fútil ao qual ela foi levada, na percepção comum. Seria também uma excelente ferramenta para que várias disciplinas pudessem convergir (como matemática, física, história, português, geografia), promovendo uma integração entre diversos saberes.

IF: A política cultural brasileira é boa?
Simplesmente não vejo qualquer política cultural para o Brasil. Do mesmo modo, não há planejamento efetivo em qualquer área que nos aventuremos a pensar (indústria, saúde, projetos a longo prazo). Existem iniciativas pontuais, mas que se esgotam em si ou sequer são viabilizadas, devido à falta de recursos financeiros. Nossas elites partidárias não encaram a questão como prioridade nacional (independentemente da filiação ideológica).

IF: O consumismo desenfreado de hoje em dia, torna as pessoas menos reflexivas em relação aos problemas do dia a dia?
RB: Certamente, já que existe uma forte tendência a achar que o pensamento é desnecessário. A ideologia da busca da felicidade pessoal a qualquer preço pode nos levar ao desprezo pela esfera pública, o que já se nota diante da decadência da política. Um dos graves problemas que enfrentaremos neste começo de século novo será a sedução da alienação (entendida em seu sentido mais genuíno, esquecimento de quem somos).


Hiroshima, Arigatô, Nagasaki…. Sayonara

Meu primeiro contato com a cultura japonesa foi através das artes marciais. Quem vê a cara e o tipo físico desse blogueiro não imagina que fui queijo faixa azul em judô e estava apto a receber a amarela. É sério, pare de rir… Ainda tenho meu kimono!

Pois bem. No judô, aprendi que o “inventor”, Sansei Jigoro Kano (já mandei parar de rir) derrubava os adversários, mas colocava a mão na nuca do sujeito, para evitar o choque da cabeça contra o tatami. Ao menos era o que o mestre lá contava. Começo o texto desse modo para demonstrar o que eu acredito que bem define o modo de vida dos japoneses: respeito.

Você percebe esse respeito nas mais simples atitudes, como tirar o sapato ao chegar em casa. Em teoria, o calçado é a parte do vestuário que mais contém as impurezas das ruas (justamente por estar em contato direto com o solo) e, ao tirá-lo, você mantém sua casa mais asseada. Respeito ao lar doce lar. Ou vai dizer que você nunca chegou com aquela goma de mascar ou mesmo aquele “totozinho” preso nas ranhuras do seu pisante?

(Sugira uma imagem para inserir nesse espaço)

Há também inúmeros exemplos de respeito ao ser humano: enquanto no Rio de Janeiro (ou Brasília, São Paulo, BH…) após uma tragédia natural, a água era vendida pelo triplo do preço normal – nada diferente do que se espera de um capitalismo selvagem – no Japão, após uma tragédia natural, os comerciantes DOAVAM a água do próprio estoque para aqueles que precisavam. Isso sem contar os mais velhos abrindo passagem para os mais novos se evadirem de eventuais tsunamis. Será que houve um pensamento coletivo do tipo: “já sou idoso, assim, darei preferência a quem tem mais chances de viver por mais tempo“?

A disciplina oriental é admirável. Não é por mero acaso que há a célebre piada da preocupação no vestibular, não pelo número de alunos por vaga, mas sim pelo número de japoneses por vaga. No estudo fica mais evidente, o que não significa que não se estenda às outras áreas.

Para nós, ocidentais, é difícil entender porque o suicídio é uma opção seriamente cogitada para aqueles que fracassam e não passam no vestibular. Oras… é só fazer um ano de cursinho e tentar novamente, pensa um ou outro. Acredito que vá mais além do que ter ou não ter a vaga na faculdade. Pega fundo na questão da honra, da competência, da dedicação. É inadmissível fracassar.

Por falar em ocidentais, já parou pra pensar o quanto sabemos da cultura japonesa? Malemal brincamos com palavras do título desse post e repetimos inúmeras vezes aquela saudação de curvar o tronco, com as palmas das mãos encostadas uma na outra. Ah sim… tem também a aversão,  (ou nojinho, como queira) a peixe cru e arroz quase sem tempero. E só.

Cadê a globalização nessas horas? Não serve só para descobrir as taras bizarras por tentáculos, colegiais e desenhos (não necessariamente nessa ordem e, principalmente, separados), ou aquele museu dedicado ao pênis. É… isso existe.

Felizes seremos no dia em que incorporarmos o que a cultura japonesa tem de melhor. Enquanto isso não acontece, a gente samba.

O Saci merece atenção!

O Saci é o personagem mais emblemático do folclore brasileiro. São raras as pessoas que não conhecem o perneta que fuma cachimbo da paz, usa gorro vermelho e comete estripulias por onde passa.
Um símbolo assim parecia esquecido nos livros paradidáticos, contudo, desde 2003, a iniciativa de um grupo vem fazendo o Saci ressurgir para o cenário nacional e, se tudo der certo, internacional.

A SOSACISociedade dos Observadores de Saci – mantém um site muito bacana sobre o peralta que já foi, inclusive, protagonista de um dos livros de Monteiro Lobato.
O site contém histórias de aparições (tanto “reais” como na mídia), produtos com a marca Saci e outras curiosidades. Veja um trecho:

“Em sua luta contra a invasão de uma indústria cultural predatória e mercantil, a SOSACI decidiu promover o “Raloim Caipira“: os restaurantes da cidade de São Luiz promoveram, no dia 31 de outubro, um jantar de abóbora com carne seca. Além de se tratar de um prato típico da culinária brasileira, salienta-se o fato de que a abóbora (ou bobra, ou jerimum) não deve ter fins comerciais pouco confessáveis, mas gastronômicos.”

Essa iniciativa é mais que uma brincadeira. O projeto deu tão certo que as cidades de Vitória, Uberaba e São Luiz do Paraitinga, mais o estado de São Paulo, assinaram uma lei instituindo o dia 31 de outubro como o Dia do Saci. O grupo já enviou um pedido para o Ministério da Cultura, requisitando que essa data seja também o Dia Nacional do Saci.
O dia propositalmente coincide com o Halloween. Sinceramente, prefiro comemorar o dia do perneta do que sair por aí vestido de monstro.

A mais nova iniciativa da SOSACI, no entanto, é tornar o personagem mascote da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Veja a explicação deles:

Primeiro, não seria preciso pagar direitos autorais a ninguém. No máximo, o que poderia ser feito é um concurso para cartunistas etc, para escolher o melhor desenho.
E por que o Saci?
Ele é a síntese da formação do povo brasileiro:
É o mito brasileiro mais popular, o único conhecido no Brasil inteiro (Boitatá, Curupira e mesmo a Iara requerem explicações quando a gente fala deles, em alguns lugares. O Saci não).
É o típico brasileiro: mesmo pelado e deficiente físico, é brincalhão e gozador.

Imagine a quantidade de gringos que não iriam comprar uma camiseta, uma miniatura, gorros, cachimbos, chaveiros, etc. Um mar de possibilidades para o comércio e, principalmente, para se difundir a verdadeira cultura nacional.

A SOSACI está de parabéns e conta com o apoio do Idéia Fix para divulgar a causa nobre que representa o Saci.

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Agora a pergunta que não quer calar: Segundo o CENSACI’s (Censo Nacional dos Sacis), existe mais Sacis só com a perna esquerda ou com a perna direita?

Domínio Público: baixando cultura de graça

O Brasil não está perdido. Apesar de todas as minhas críticas e certos governantes gastarem dinheiro para colocar Wi-Fi na praia, enquanto os hospitais estocam lixo hospitalar no corredor,  o Brasil tem futuro, se iniciativas como a que eu vou mostrar abaixo forem continuadas e ampliadas.

Continuando a busca por produtos a custo zero descobri que o Governo Federal mantém um  site chamado Domínio Público. O nome é auto explicativo. Todas as obras,  ou pelo menos a maioria delas, disponíveis em domínio público, você pode baixar nesse site. Lá, você encontra desde obras de Machado de Assis à pinturas de Leonardo da Vinci. Tudo, obviamente de graça.

Mas, pelo que eu andei lendo, o site está em vias de ser excluído, já que não tem um número de acessos suficientes para se justificar a sua permanência. Tá certo que o número já foi bem menor (60.000) visitas e hoje chega a 300.000. Mas mesmo assim é pouco.

É inacreditável e inaceitável ( e mais muitas outras coisas que terminam com “ável”)  que um site com esse tipo de material simplesmente se perca no espaço cibernético. Ora… é só acessar o Domínio Público e procurar a obra desejada. De lá eu já baixei vários hinos (fase patriótica em 7 de setembro). Agora estou baixando a “Divína Comédia”,  em português.

O acervo é riquíssimo. Há E-books em várias línguas sobre diversos assuntos. De Direito à Engenharia Aeroespacial. De Farmácia à Teses e Dissertações.  Isso só na área de livros. Posso citar os áudios (música erudita, Jazz, militar, natalina, Blues) e as imagens (mapas, pinturas, fotos de satélite). Até área de vídeos tem!

Bom. A dica está dada e o site no favoritos. Conte aí nos comentários o que você baixou do site do governo. E você que achava que de lá só se baixava o programa do Imposto de Renda!