O presídio das estrelas

A Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, localizada na cidade de Tremembé -São Paulo, também pode ser chamada de presídio das estrelas. É quase unânime que os bandidos com alguma (e em muitos casos muita) repercussão na mídia sejam mandados para lá, seja para esperarem julgamento ou cumprirem sua dívida com a sociedade. Como bons curiosos, vamos fazer um tour pelas celas e conhecer esse verdadeira via láctea do crime.

O primeiro preso que vamos visitar é Matheus da Costa Meira. Foi ele que em 3 de novembro de 1999 entrou numa sala de cinema, no Shopping Morumbi, e disparou contra a platéia que assistia, concentrada, o clássico Clube da Luta.
Segundo a polícia, Matheus levantou de seu lugar na sala de projeção e foi até o banheiro. Testou a submetralhadora Cobray M-11 no espelho e repetiu uma cena do antológico jogo Duke Nukem 3D – que, por sinal, eu adorava. Os advogados espertalhões tentaram livrar a face de Matheus alegando insanidade e influência direta do jogo. Curioso é que eu joguei DK3D e NUNCA saí por aí atirando nos outros. E olha que eu ainda jogava Doom…

Depois de conhecer o maníaco do shopping, nossa próxima parada é a cela internacional. Nela está preso Law King Chong. Ele é conhecido por ser um dos maiores empresários e investidores da 25 de março, o responsável por fazer a alegria de muitas crianças (e adultos) que nunca tiveram dinheiro suficiente para comprar tênis, bonés e eletrônicos originais. Ele era, definitivamente, o Samurai do Alternativo, o Sansei do Genérico. Mesmo preso, suspeita-se que Law King (que em inglês é uma irônica tradução para Rei da lei) ainda dê linha na pipa, ou seja, comande os negócios nas Galerias Pajés do centro.

Ao lado dele estão os irmãos Christin e Daniel Cravinhos, do caso Richthofen. Eles são cunhado e namorado, respectivamente, de Suzane von Richthofen, acusada de mandar matar os pais. A história do crime é enredo de Agatha Christie: a mocinha rica namora e o pais não aceitam. Ela manda matar, vai pro Motel e no dia seguinte chora copiosamente no velório e enterro.
Mesmo fazendo o serviço sujo, os Cravinhos continuam menos famosos, menos ricos e com menor probabilidade de ver o Planeta Terra de fora da cadeia. Não tenho ideia do que pode acontecer quando receberam uma revista com a seguinte manchete: “Suzane matando a pau na Playboy. Imperdível”.
Pelo menos eles tem patrocínio garantido com a Minancora.

Caminhemos para outra ala. Já é possível avistar Alexandre Nardoni. O futuro garoto propaganda da Red Bull está sentado, escrevendo uma carta, possivelmente para Ana Carolina Jatobá, a (ex) esposa. O casal é acusado de jogar pela janela sua filha (a filha deles) Isabella. Alexandre nega e insiste na tese de que uma terceira pessoa fez o serviço. Há muitas contradições no caso e a situação dele parece sem saída.
Eu não sei vocês, mas eu gostaria de ver o que aconteceria de colocassem o Alexandre e o Percival de Souza numa sala. Sozinhos. Creio eu que só um sairia caminhando…

Na cela em frente está Lindemberg Alves, o rapaz que fez duas adolescentes reféns durante quase uma semana. Com mais de 100 horas de duração, é o caso de cárcere privado mais longo registrado pela Polícia de São Paulo, uma verdadeira maratona do crime. Nesse mês de outubro, ganhou bexigas e língua de sogra, já que faz 1 ano que está preso.

Até hoje não se sabe se os policiais invadiram porque Lindemberg atirou ou se atirou porque a polícia invadiu. O tradicional caso Tostines (Tostines vendia mais por que era fresquinho, ou era fresquinho por que vendia mais?). O circo imprenso-popular, digo, o juri popular está marcado para janeiro de 2010.

Nosso giro pela cadeia termina num médico. O nome dele é Roger Abdelmassih, considerado especialista em reprodução humana. E não, não é ator pornô.
Segundo a História, ele foi um dos primeiros e pioneiros da fertilização in vitro. Fama, fortuna e F***. Parece que ele não aguentou ver suas pacientes deitadas em sua maca, querendo ser fertilizadas e resolveu partir para o método tradicional. Infelizmente, para ele, as pacientes realmente queriam o método “pai desconhecido” e acabaram denunciando o médico tarado.
O número de denúncias passa de 60, vindas de três estados diferentes. Um verdadeiro nômade de povoamento.

Não vamos nos aprofundar na próxima ala, mas a saber: Nesta penitenciária de Tremembé ainda estão presos:

  • Joabe Severino da Silva e Luis Fernando Pereira – Do caso “latrocínio de Bragança Paulista”;
  • Marcos Valério Fernandes de Souza – Empresário que ficou internacionalmente conhecido no escândalo do “Mensalão”; (a confirmar)
  • Edemar Cid Moreira Ferreira – Ex-Banqueiro do escândalo “Banco Santos”;
  • Vicente Benedicto Viscome – Ex-Vereador de São Paulo do caso “Máfia dos Fiscais da Prefeitura de São Paulo“; (Lembra dele?)
  • João Carlos da Rocha Mattos – Ex-Juiz Federal do caso “Operação Anaconda”;
  • Igor Ferreira – Ex-Promotor, acusado de matar a esposa grávida, há 8 anos. Esse é o mais novo hóspede.

O site da Band fez uma matéria muito bacana sobre o presídio. A foto que ilustra a matéria mostra como o local é bonito. Destaque para a frase de Daniel Grandolfo, agente penitenciário: “Esse tipo de preso não pode ser misturado com presos comuns. Eles poderiam ser linchados e até mortos”. Coitados…

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UPDATE: O Carlão me avisou que saiu uma matéria da Revista Veja, ha pouco tempo, com a mesma temática. Ainda estou procurando o texto para linká-lo aqui O texto você ler clicando aqui, até como forma referência. Plágio, além de sacanagem, é crime. Garanto que não foi o caso, já que a matéria da Veja fala mais sobre o presídio em si do que dos presos, mas é justo e honesto avisar os leitores.

Foi a mídia!

Não é de hoje que a mídia exerce gigantesca influência em nosso modo de pensar, agir e porque não, ser. Exemplos são quase infinitos: podemos partir do clássico “deu no Fantástico que….” até chegarmos na completa mudança de visual para poder ficar parecida com a “mocinha da novela das 8″.
Nessa intrépida missão de informar, divertir e vender, os veículos de informação acabam cometendo equívocos, muitas vezes cruéis e irreparáveis.

Para vocês terem uma idéia, em 1996, Faustão apelou e exibiu a apresentação de Rafael Pereira dos Santos, conhecido com Latininho. Seria mais um domingo comum, se o “cover” não sofresse de síndrome de Seckeel, uma doença rara pior que o nanismo. Na época, o garoto tinha 15 anos, 86 centímetros e 08 quilos (!!).
Se já não bastasse a situação constrangedora por si só, Faustão ainda incitava, proferindo as famosas frases nonsense. Reparem no nível: “menor Latino do mundo; “Se você quer fazer um show em quitinete, pode contratar o fera aqui“;  “Menos que você só o salário mínimo“. Tudo pelo “entretenimento”, claro….
A apresentação, que proporcionou momentos vergonhosos para a família brasileira, resultou em uma indenização de 1 milhão de reais (que o garoto falecido em 2006 nem chegou a receber) e um memorando de advertência de Boni Pai para a direção do Domingão.
Leia matéria da Veja aqui, do Observatório da Impresa aqui, e uma foto do Latininho aqui.

Surpreso? Calma que tem mais…

Quem não se lembra dos tamagotchis? Não é exatamente um exemplo cruel, irreparável, mas é de assustar.
Segundo as reportagens da época, os bichinhos virtuais “viraram febre entre a criançada”. Lembro que as escolas chegaram ao cúmulo de contratar babás de tamagotchi para impedir que os pequenos petizes desviassem a atenção do “interessantíssimo” teorema de Thales para a alimentação ou diversão daquela bolinha que sorri e faz cocô.
Veja trechos da matéria do UOL, na época: Existe um cemitério na Web, para que os donos de Tamagotchis mortos possam prestar homenagens a eles (nota: bem ambígua essa frase, hein…). Normalmente os bichinhos, se bem cuidados, duram de uma semana a 10 dias. Mais absurdo ainda é o berçário de Tamagotchis, para os donos que não têm tempo de vigiar os brinquedos durante o dia.

Estima-se que mais de 40 milhões de unidades foram vendidas no mundo. Coincidência não foi. A intensa apelação da mídia ascendeu os bichinhos virtuais a um patamar que poucos brinquedos alcançaram. A queda ocorreu na mesma intensidade. E para quê? Eis a pergunta.

Na missão de informar a mídia também falhou. Feio. O caso da Escola Base é só uma das peças desse quebra cabeça macabro.
Agora, no recente caso Lindemberg/Eloá, a imprensa teve a brilhante idéia de entrevistar seqüestrador e seqüestrada… durante o seqüestro! Atropelaram o trabalho da polícia para ouvir o que o transtornado – que acabou matando a ex-namorada – tinha para dizer.
Parabéns para a Globo, Record e RedeTV! Vocês conseguiram ultrapassar a fronteira do inesperado, do bom senso e da busca por audiência sedenta por sensacionalismo.

Agora a morbidez chegou à patamaes que eu não imaginava que pudesse chegar. Mais de 30 mil pessoas, vou repetir, trinta mil pessoas, passaram pelo velório e nada menos que 10 mil acompanharam o enterro da adolescente. Parentes? Amigos? Que nada! Grande parcela dos que por lá passaram eram total e completos desconhecidos, gente do povo que se comoveu com o apelo nababesco que a mídia promoveu em busca de míseros pontos num IBOPE em decadência.

Quem dera se a qualidade na televisão não se espelhasse em Latininhos, escolas-base, sensacionalismos baratos…