Meu velho amigo sul coreano

O rapaz simpático da foto acima não é o Jackie Chan. O cabelo dele pode não ser a última moda de Paris e o sorriso não ser o mais elogiado por 9 entre 10 dentistas. Mas eu garanto que ele tem algo a nos ensinar.

Oh Dae Su é o personagem principal de OldBoy, filme de 2003. Provavelmente é a primeira vez que você ouve falar nessa pérola do cinema sul coreano. Sim… não faça essa cara de… Oh Dae Su.

Lição número 1: Você não precisa ver a bandeira de um país para determinar se um filme é bom.

É claro que a primeira reação é “cê tá maluco? Cumé que eu vou ver um filme da Coreia? Que bosque! Coisa mais tosca…“. É estranho, é diferente, mas esse pequeno detalhe só torna o filme mais curioso. É um elemento preparatório perfeito: causa baixa (ou nenhuma) expectativa. Potencializa a explosão cerebral no desfexo da história.

Como você lerá em inúmeras resenhas, o Oh Dae Su é capturado e fica QUINZE ANOS preso num quarto de hotel. Quer dizer… numa espelunca capenga (que é o responsável pela decoração? O Geraldo Magela?). Ele não sabe por que está lá, quem o colocou ali e, o pior… por que o libertaram após esse looooongo período sabático.

Lição 2: A vingança numa é plena, mata a alma e a envenena. Que o diga o polvo.

Bom… você fica 15 anos trancafiado comendo rolinhos primavera de gosto duvidoso. Quando sai, só pode querer uma coisa: vingança. Mas a princípio se contenta com um polvo vivo, mesmo. Bom, lá na Coreia deve ser bastante normal jantar coisas que se mexem dentro da sua boca.

Vingança. Essa palavrinha que lhe acompanha desde a mais tenra idade. Vingança. Quando seu amiguinho quebra um brinquedo seu e então você vai lá e quebra o dele também. Vingança. O prato que se come frio.

Vingança. Você nunca mais verá esse conceito do mesmo modo.

Lição 3: Gritar faz parte da experiência. Mas não é o medo que o faz gritar. A surpresa também causa essas reações.

Esse é o plot. Agora você já tem nas mãos os elementos essenciais para ir buscar esse filme (disponível na locadora do Paulo Coelho e nas Lojas Estadunidenses, por um módico valor).

Mas fique ciente que não é um filme fácil de digerir. Vai ter sangue e mutilação, coisas nada agradáveis de ver com a avó, por exemplo.

Para a experiência OldBoy ficar completa, recomendo fortemente ouvir o episódio 20 do Jurassicast (que, aliás, foi quem me apresentou essa fantástica obra prima). Cuidado, contem spolier da trama nos comentários E durante o programa.

Você nunca mais verá o cinema coreano com os mesmos olhos.

Se é que já viu com algum.

O filme do Liquidificador que fala. É isso mesmo!

Quando se fala em cinema nacional, é inevitável não lembrar de Tropa de Elite, Central do Brasil e Cidade dos Homens. São películas (linda expressão) com sucesso de público, crítica ou mesmo os dois. Fazem parte de uma fase relativamente recente, na qual os cineastas ganharam credibilidade – os filmes deixam de ser samba do crioulo doido, sem pé nem cabeça, para ter começo, meio fim… um roteiro confiável, resumindo.

Entretanto, ainda se pratica o cinema moleque, de ginga, com ziriguidum e sem compromisso. E é sobre isso que eu quero contar. Tal qual o Lobo Zagalo, fui surpreendido novamente.

Reflexões de um Liquidificador. Esse é o nome do longa metragem dirigido por André Klotzel. O título foi suficiente para me fazer parar de zapear e prestar atenção ao que estava sendo dito. Foi quando eu comecei a tuitar desesperadamente. A história me fisgou de uma tal forma que foi impossível parar.

Desista. Você só vai entender a imagem quando assistir o filme.

Começa que o Liquidificador pensa. Na voz de Selton Melo (quem mais poderia ser?), ele declara que nunca foi tão feliz quanto naqueles meses em que fazia vitaminas no bar da Dona Elvira (a excelente Ana Lucia Torres). Mas o bar fecha, sabe como são os empreendedores: as vezes não dá certo mesmo. O Liquidificador vai pra casa. Fica um tanto quanto temperamental e funciona quando quer. Lembre-se: estamos falando de um eletrodoméstico.

Nesse ponto eu já estava pirando. Mas ia piorar. Muito. Dona Elvira quebra a perna. Para se distrair, ela retoma uma antiga atividade, dos tempos de menina: taxidermia. Se você não ligou o nome a pessoa, ou melhor, ao animal, taxidermia é a arte (?) de empalhar cadáveres de seres vivos. Ou que eram vivos, né?

Imagine que sua mãe tenha um gato de estimação. O gato sobe no telhado vem a óbito. O que você, como bem filho, faz? Compra outro? Adota? Nada disso. Empalha o bichano e dá de presente àquela que te pariu. Presentão, hein? Não? Pois o carteiro do filme fez.

Taxidermia em filme nacional. Brilhante! Mas continua… continua…

O Liquidificador começa a falar. E Dona Elvira começa a responder. Sim… há um diálogo coerente entre a dona de casa e o eletrodoméstico. Divaga-se sobre o beleléu e a caduquice. É muito talento!

O enredo direciona-se para uma história policial. E daquelas de deixar Edgar Allan Poe, Ellery Queen e até o Archie orgulhosos. Se bem que a Agatha Christie acharia normalzinho… Bom, não vou contar mais para não estragar a surpresa. O que posso dizer é que, quando os créditos finais subiram, eu levantei do sofá e aplaudi. Obra de arte!

Eu preciso ver mais filmes desse tipo, conceituais. É excelente para abrir a cabeça e arejar as idéias. Essa padronização coxinha de Hollywood vai acabar com a 7ª arte… Quem sabe eu não escrevo aqui sobre um filme coreano, hein?

No Adoro Cinema tem a ficha técnica mais detalhada e alguns comentários sobre o filme. Tem fotos também, se você quiser julgar o livro pela capa.

Veja o trailer:

Vamos alimentar os leões?

Assassinato: ao vivo! (ou Muder Live! no original em inglês) é um filme de 1997. Não ganhou Oscar, Globo de Ouro, Palma. Nem mesmo um Kikito ou uma mísera nota alta no IMDb. Mas ganhou meu coração. Grandes coisas.

A personagem Pia Postman (interpretada por Marg Helgenberger, que vem a ser a moça do CSI) tem um programa de televisão, ao vivo. A ideia desse programa é contar os problemas das pessoas, tendo a opinião do público, de um especialista e da própria apresentadora. O formato é bastante comum nos Estados Unidos e aqui no Brasil tem em Marcia Goldshimitd seu maior e melhor exemplo.

Vamos combinar que ter o programa da Márcia Goldshimitd como similar não é exatamente motivo de orgulho, né? Mas, enfim… segue o jogo!

Só que em determinado dia, algo dá errado. Frank (!) McGrath invade o estúdio de pistola em punho (epa!) e mantém todo mundo refém. Exige que a emissora continue ao vivo, para que todos vejam que a apresentadora é culpada pelo suicídio de sua filha. Promete executá-la ali, na frente das câmeras. Mencionei que ele tem em mãos um detonador, que vai explodir a emissora se alguém resolver tentar alguma gracinha? Pois é…

Pois bem. Essa é a parte que eu paro de contar a estória passo a datilografar (hahahaha) porque o filme é bom. Ah sim… recomendo que você veja o filme antes de ler minhas humildes palavras. Talvez eu estrague alguma coisa, mas nada que vá interferir no final da trama, uma vez que eu não vou contar que ele vira uma barata gigante e… e… bem, esquece.

Sensacionalismo na tevê. Por que as pessoas assistem?

É meio que senso comum que o ser humano gosta de se apoiar nas desgraças dos outros. Podemos estar na merda total, mas ainda sim paramos para ver alguém em situação pior. Ou você acha que o Datena dá audiência porque ele é um rostinho bonito?

Pia, a apresentadora, está fazendo o trabalho dela. Ela é paga para explorar as histórias. Frank acha que a condução do programa que sua filha participou foi a causa determinante que levou ao suicídio (e foi mesmo, diga-se de passagem). Só que, na verdade, a culpa não é só da apresentadora. A culpa também tem que ser dividida com a emissora, os patrocinadores, a platéia (o “por que você está aqui?” em determinado momento tem que ser repetido todas as vezes que estacionamos em um canal) e a própria vítima, afinal, ela aceitou participar e assumiu o risco.

O trabalho não pára

Interessante notar que mesmo com todo o forrobodó (forrobodó?) rolando no estúdio, a maquiadora não deixa de cumprir sua função. O diretor manda o câmera pegar o melhor ângulo. A platéia começa a opinar. Desse modo o show continua, o que faz com que o programa mantenha sua premissa original. É fantástico perceber a naturalidade com que isso acontece. A crise vira apenas mais um caso. A diferença é a arma carregada.

Em dado momento, Frank faz um discurso inflamado, esbraveja para todas as câmeras… Eis que a apresentadora faz uma observação, ao meu modo de ver, pertinente. Foi algo como “gostou dessa sensação de poder que a câmera passa? Pois é… você sabe que também foi contaminado, né? Esqueceu suas motivações. Faz uma hora que você não menciona o nome da sua filha“. Ouch!

Montagem: Nós também participamos.

O filme foi pensado e montado de modo que nós também viramos espectadores daquele programa de televisão. É quase um mockumentary ao vivo. Você facilmente esquece que está vendo um filme, porque há o movimento típico das câmeras, o corte de imagem para o âncora do plantão, comerciais, reportagem do lado de fora do estúdio, GCs. Tudo bem que os efeitos de estática são muito fajutos, mas isso a gente releva.

Agora… se nós estamos assistindo, por tabela TAMBÉM SOMOS culpados pelo suicídio da garota. Quer dizer, a garota é ficcional, mas milhões de constrangimentos que vemos por aí são reais. Muito reais. Um circo não existe sem platéia. Assim é a televisão.

Um filme para pensar e debater

Esse é o tipo de filme para você pensar. Nem de longe é complexo, mas levanta questões importantes, cada dia mais pertinentes. Apesar de não existir tantas redes sociais naquela época, tudo encaixa-se perfeitamente. Conceitos como privacidade, ética, trabalho em equipe, sensacionalismo, limites da televisão, corrupção entre outros, são muito bem discutidos.

Bem… acho que esse não é um filme só para ver em casa, num sabadão, comendo pipoca, como entretenimento. Cabe melhor em escolas, universidades e é altamente indicado para quem se interessa por comunicação.

Eu gostei. Nota 8.

A verdade sobre os piratas II

O último post desta destemida série terminou com uma dúvida: Se os piratas matavam, pilhavam e queimavam (as cidades… as cidades) por que eles colecionam fãs no mundo todo?

O Idéia Fix foi atrás das respostas. Entrevistei Larissa Facchinette Tognetti, uma autêntica fã de piratas.

Com base no que ela me disse, finalmente pude entender porque os piratas são admiradados, qual a influência da mídia nisso e um pouco mais sobre o cotidiano. O que eu descobri você lerá agora, na segunda parte da série sem previsão de acabar.

Inicialmente, os piratas trabalhavam para “companhias”. Eram, por assim dizer, “contratados” para agir em alto mar, durante as guerras. Porém, com o fim dessas guerras, o desemprego atingiu os piratas. O governo dos países que os contratavam simplesmente dispensaram a classe toda, pois não havia mais porque mantê-los.
Aí você me pergunta: Mas e o sindicato? Cadê o sindicato da categoria?
Eu respondo: como a vida em alto mar era o nicho dessas pessoas, eles decidiram continuar o que faziam, mas dessa vez na ilegalidade, longe da proteção do governo.

Graças a trilogia “Piratas do Caribe”, a vida dos piratas se popularizou. Segundo Larissa, a trilogia é muito bem feita, não só em relação à história, mas como as roupas, as músicas. Ela salientou que a série não é perfeita, afinal, não retrata fielmente como sofriam os piratas e as duras condições com que passam meses no mar. “Eram massacrados“, ela completa.

O que torna alguém fã de piratas é a admiração que se sente por esses indivíduos que, mal ou bem, foram heróis. É importante frisar que SIM, OS PIRATAS EXISTIRAM. Não são apenas lendas ou meras histórias, como muitos pensam. Os piratas tiveram seu lugar na História (com agá maiúsculo) assim como tantas outras pessoas, em diferentes épocas.

Outro aspecto que apaixona os fãs é lembrar dos códigos de ética piratas. Por mais vilões que alguns fossem, no navio eram respeitadas algumas leis. Muitas delas curiosas: Você sabia que o capitão era eleito pelos outros piratas? Pois é… de certo modo, até havia uma democracia…

Mas o que torna mesmo alguém fã de piratas é pesquisar e ler o quanto eles sofreram (e o quanto faziam sofrer também…), chagando a passar meses em alto mar e no fim das contas, ser feliz. A ética, a coragem, o espírito aventureiro desses homens do mar, leva multidões às salas de cinema.

O que torna a figura do pirata tão misteriosa é simplesmente a falta de conhecimento que sem tem sobre eles.
Larissa, ao final da entrevista, recomenda “O Corsário Negro” (para uma “leitura mais leve“) e para quem realmente quer sentir na pele o que era ser pirata, “Contos de Piratas”, de Sir Arthur Conan Doyle (é.. aquele mesmo do Sherlock Holmes)

Bom… e agora? o que nos reserva o próximo episódio de “A verdade sobre os Piratas”?

Você verá… aguarde!