Reflexão

Caros, hoje deixo aqui uma reflexão do Jairo Marques da Costa* Até o mês que vem!

 

E levamos outra surra…

 

A peia que um advogado cadeirante tomou de um delegado ao tentar defender o uso legal de uma vaga reservada para deficientes em São José dos Campos, aqui pertinho de São Paulo, está doendo em milhões de ‘malacabados’*2 ao redor do Brasil todo, até agora.

 Juntem-se a eles seus familiares, amigos e demais pessoas que são convictas de que a diversidade de oportunidades é legítima, é humana, é digna. Então, devemos ser o suficiente pra lotar algumas daquelas caminhonetes rurais velhas…

Cada vez que uma barbárie dessas acontece, sinto no estômago uma pontada que não para nunca mais. Uma vontade de sumir desse mundo que me espanca pelo fato de eu ter a “pachorra” da necessidade de um espaço, um espacinho, considerado privilégio.

E qual seria a razão de tanta dor, tanto gosto amargo na boca, tanta sensação de guela trancada. A resposta é perturbadora: ter uma desvantagem física não é suficientemente humilhante, na visão de alguns, para que consigam entender os meus direitos.

Tenho notado que à medida que vamos avançando no caminho de algum sentido equânime na convivência social _seja com mais trabalho, seja por mais acesso, seja por compreensão das nossas diferenças_ também avançam um certo ódio, uma certa repulsa, uma incompreensão por tantas “regalias” voltada a um grupo social.

Sabe, meu povo, toda vez que entro com minha Kombi num lugar e me direciono pelo caminho das tais vagas “especiais” para pessoas com deficiência, imagino no prazer que seria poder estacionar beeeeem longe da entrada de onde vou.

Penso fortemente no meu caráter e dá um arrepio ruim imaginar apenas na possibilidade de eu ter um ataque de ‘filhadaputice’ (que me perdoem os adolescentes e pudicos que leem esse diário) de usurpar do direito de um idoso, de um deficiente.

A coronhada daquele delegado escroque, covarde, arrogante, criminoso abriu na cabeça das pessoas que foram enfiadas nesse mundo paralelo uma fenda que não fecha na nossa integridade, na nossa teimosia de querer ser igual, na nossa audácia de encarar a vida.

Particularmente, dedico essa surra que levamos às autoridades que se lixam para, de uma vez por todas, fazer valer a lei e punir quem infringe a regra do uso do espaço dedicado_ com lógica, com razão, com motivo, com comprovação_ àqueles que possuem limitados e que interagem com cadeiras de rodas, muletas, andadores, bengalas.

Ao agressor eu  não desejo nada. Gente que atua dessa forma com o próximo, sendo ele guardião da lei, certamente que dorme com os piores pensamentos, que confabula com alguém com os traços demoníacos, que almeja objetivos que gente do bem quer distância. Então, por si só, uma hora ele se afunda na merda.

Não cabe mais neste blog eu ficar revirando argumentos da ilegítima ação do delegado diante do cadeirante (e, por favor, me poupem dessa imbecilidade non sense de defender que uma mulher, não condutora, grávida de quatro meses, necessitava da vaga). Quem visita sempre por aqui, tem as razões do “privilégio” na ponta da língua.

Peço com firmeza a meus queridos e incansáveis leitores que não enfrentem os insanos no menor sinal de incompreensão à lógica do erro de burlarem os nossos direitos. É incrivelmente revoltante, depreciativo e aviltante passarem a mão nas nossas bundas, mas essa guerra tem se tornado perigosa e somos mais fortes juntos, ilesos.

*Jairo Marques da Costa, é jornalista da Folha de S.Paulo e cadeirante. Na versão online do jornal possui o blog Assim como você (http://assimcomovoce.folha.blog.uol.com.br/)

*2 ‘malacabados’ na linguagem do autor é uma brincadeira com cadeirantes.. hehe

   

Vendendo o peixe

PREZADOS SENHORES:

Uns amigos me falaram que os senhores estão para destruir 45 mil pares de tênis falsificados com a marca Nike e que, para esse fim, uma máquina especial já teria até sido adquirida. A razão desta cartinha é um pedido. Um pedido muito urgente.

Antes de mais nada, devo dizer aos senhores que nada tenho contra a destruição de tênis, ou de bonecas Barbie, ou de qualquer coisa que tenha sido pirateada. Afinal, a marca é dos senhores, e quem usa essa marca indevidamente sabe que está correndo um risco. Destruam, portanto. Com a máquina, sem a máquina, destruam. Destruir é um direito dos senhores.

Mas, por favor, reservem um par, um único par desses tênis que serão destruídos para este que vos escreve. Este pedido é motivado por duas razões: em primeiro lugar, sou um grande admirador da marca Nike, mesmo falsificada. Aliás, estive olhando os tênis pirateados e devo confessar que não vi grande diferença deles para os verdadeiros.

Em segundo lugar, e isto é o mais importante, sou pobre, pobre e ignorante. Quem está escrevendo esta carta para mim é um vizinho, homem bondoso. Ele vai inclusive colocá-la no correio, porque eu não tenho dinheiro para o selo. Nem dinheiro para selo, nem para qualquer outra coisa: sou pobre como um rato. Mas a pobreza não impede de sonhar, e eu sempre sonhei com um tênis Nike. Os senhores não têm idéia de como isso será importante para mim. Meus amigos, por exemplo, vão me olhar de outra maneira se eu aparecer de Nike. Eu direi, naturalmente, que foi presente (não quero que pensem que andei roubando), mas sei que a admiração deles não diminuirá: afinal, quem pode receber um Nike de presente pode receber muitas outras coisas. Verão que não sou o coitado que pareço.

Uma última ponderação: a mim não importa que o tênis seja falsificado, que ele leve a marca Nike sem ser Nike. Porque, vejam, tudo em minha vida é assim. Moro num barraco que não pode ser chamado de casa, mas, para todos os efeitos, chamo-o de casa.

Uso a camiseta de uma universidade americana, com dizeres em inglês, que não entendo, mas nunca estive nem sequer perto da universidade – é uma camiseta que encontrei no lixo. E assim por diante.

Mandem-me, por favor, um tênis. Pode ser tamanho grande, embora eu tenha pé pequeno. Não me desagradaria nada fingir que tenho pé grande. Dá à pessoa uma certa importância. E depois, quanto maior o tênis, mais visível ele é. E, como diz o meu vizinho aqui, visibilidade é tudo na vida.

(Moacyr Scliar, cronista da  Folha de S. Paulo, 14/8/20000)