Como descobri que o telespectador é incoerente

A faculdade nos proporciona algumas oportunidades interessantes, veja só, também na área acadêmica. Você pode não acreditar, mas as vezes o curso superior é muito mais do que bares, mulheres/homens, festas e diversão. Quer dizer… não MUITO MAIS. Só um pouco.

Uma dessas raras oportunidades acadêmicas foi aplicar uma pesquisa de opinião sobre a qualidade da programação da televisão brasileira. O quê? Não achou interessante? Então não me venha todo contente dizer que a moça do caixa fez a conta errada e você saiu com a porção de fritas grátis porque eu também não acho legal. Mas voltemos ao texto.

Apliquei a pesquisa com 63 alunos, sendo um pouco mais da metade mulheres. É claro que eu não vou lotar esse texto com gráficos e tabelas porque eu seria considerado – com razão –  o maior chato do Brasil, mas vamos com as conclusões, que é o que interessa.

O primeiro dado interessante é que, ao que parece, a classificação indicativa por idade/horário é bem aceita. Mais do que isso, as pessoas querem que essa classificação seja mais rígida. Ainda que outros setores da sociedade – o artístico, creio eu –  considerem a medida como censura.

Outro dado curioso é o que mostra o desejo das pessoas por mais programas educativos. Até aí morreu Neves, coitado. A questão é que programas educativos não estão entre os mais assistidos, entre os preferidos – dado apurado na mesma pesquisa.

(Aliás, nessa pergunta sobre tipos de programa favoritos, ganhou Filmes, seguido de Noticiários, que não tem segmentação por gênero. Depois disso vem Esportes e, após, Novelas, MESMO o público feminino representado mais de 60% dos questionados).

Ou seja, querem mais educativos, mas não assistem os que já existem. Aí eu pergunto: cumé que vão fazer mais, nessas condições? E aí eu pergunto novamente: estamos diante de um Dilema Tostines: Não fazem mais programas educativos de qualidade porque ninguém assiste ou ninguém assiste porque não fazem mais programas educativos de qualidade?

Por fim, uma resposta a uma pergunta aberta me deixou intrigado. Eu sabia que tinha um raciocínio atrás daquela meia dúzia de palavras, mas meus olhos cegos não conseguiam compreender. Até que eu vi a luz e me tornei uma pessoa mais feliz.

A pergunta era simples e direta: e aí? Como melhorar a qualidade da programação? A resposta foi: “Não ter mais canais pagos“.

A princípio não faz o menor sentido. Quanto mais canais, mais opções. Sua audiência fica diluída e você tem que melhorar seu produto para vender mais ou tanto quanto. Mas veja só o truque:

Normalmente, quem tem GatoNet TV por assinatura tem  maior poder aquisitivo. Convenhamos que não é exatamente barato. Para ter mais poder aquisitivo, você deve estudar mais. Estudando mais, seu critério fica mais rigoroso e você tende a não aceitar com facilidade qualquer porcaria que tentam te impor goela abaixo.

Dessa forma, não ter canais pagos significa migrar toda essa parcela “””pensante”””” para os canais abertos. E aí essa parcela pensante vai reclamar demais para ter qualidade, afinal, eles também vão comprar dos anunciantes… e aí você já percebeu o tamanho da merlin.

Isso tudo na teoria, claro. Nunca é friamente igual.

Será que a pesquisa que fizemos em sala de aula reflete a realidade? Eu acho que acertamos na mosca.

Na mosca da incoerência.

Foto: Coesão e Coerência Textual