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Uh É Grace Kelly! Uh É Grace Kelly!

Em 1954, Alfredinho Braço de Pilão Alfred Hitchcock dirigiu um dos maiores injustiçados na história do Oscar: Janela Indiscreta não ganhou o prêmio dos “entendidos” da Academia mas merecia, bastante em função da simplicidade na construção do roteiro. Olha só que brilhante:

Nosso herói fotófrago quebrou a perna durante o serviço e como não havia nada melhor pra fazer em 1954 – nada melhor MESMO – passou os dias de molho observando a vizinhança, de uma posição privilegiada em seu apartamento. O calor de fazer o Capiroto implorar por ar condicionado facilitava o voyeurismo, já que as janelas, todas, viviam escancaradas. Não… ninguém se preocupava muito com ladrõezinhos pé de chinelo. Não vou contar mais para não estragar outras partes, até porque esse texto não é, necessariamente, uma resenha da película*.

Agora corta para 2011. Põe na tela, produção. Via de regra, vivemos fechados em nossos carros nem sempre blindados, em nossos apartamentos, casas, escritórios. Muros altos, cercas, persianas. Nosso mundinho particular, certo? Quase.

Ao mesmo tempo em que nos enclausuramos em lugares cada vez mais parecidos com o bunker do Paulo Coelho, arrombamos nossa intimidade nas redes sociais, (in)conscientemente. Essas são as janelas indiscretas do século XXI. Inclusive, o cidadão que não tem nada melhor pra fazer e fica vigiando o próximo (ainda que a perna esteja saudável) tem até nome: stalker.

É engraçado como, mesmo sem ver as brigas do casal, percebemos nitidamente que um relacionamento foi pro limbo. As fotos românticas desaparecem, as trocas de mensagem, quando muito, são… violentas e, principalmente, o status “relacionamento sério” muda para “livre, leve e a perigo na balada”.

Nada não. Eu só queria colocar a Grace Kelly novamente no texto

Sabemos como foi a viagem de férias, como estão as notas na escola, se o colega de trabalho tem bafo (informação relevantíssima, por sinal). Passamos a cuidar da vida do outro, num troca-troca quase promíscuo de informações. Nossos vizinhos já não olham exatamente para a nossa casa (ou o que daria para ver através de uma janela), mas para nossa vida. Não é demais?

Depois não adianta reclamar que programas como Big Brother Brasil são uma porcaria, perda de tempo, preguiça mental e outros argumentos utilizados até num poema (?). Todo mundo olha a grama do vizinho, a roupa do vizinho, a gordura da barriga do vizinho, se ele tem o carro do ano, se chega tarde em casa… Tudo isso é humano, irreversivelmente humano.

“Mas, tio Frank, se você está falando que é ruim e errado ficar se expondo assim nas redes sociais, porque tem blog, Twitter, Facebook, Skype..?” 

Não é bem isso. Não é errado e nem ruim. A minha opinião, que não vale nem uma cueca furada, é que as pessoas devem ter certeza do que estão expondo, para que nenhuma informação divulgada seja usada CONTRA elas – assim como no filme, diga-se de passagem.

De resto, meu querido leitor, minha nobre e especialmente cheirosa leitora… Tá tudo liberado! Inclusive me seguir no Twitter.

*Não adianta fazer resenha para Janela Indiscreta porque é um daqueles filmes que, se você ainda não assistiu, saiba que sua vida está bem menos completa. Falta um pedaço moral na sua existência de meia pataca.