Alvarenga e Ranchinho: a simplicidade da crítica

Nada de Milionário e Zé Rico, Almir Sater ou ainda o napa avantajada do Sérgio Reis. Minha dupla caipira favorita atende – ou melhor, atendia – pelo nome de Alvarenga e Ranchinho. Provavelmente a inteligente leitora nunca ouviu falar nesses dois famosos anônimos. Não a culpo, no entanto. Essa dupla não tem o devido reconhecimento ou divulgação por alguns motivos (entre eles o fato de estarem mortos e terem feito sucesso algumas décadas atrás).

Nem eu sei bem como fui descobrir a inteligência e sagacidade desses dois. Acredito que tenha sido no programa do Rolando Boldrin na TV Cultura, mas não tenho lá muita certeza. O que importa, entretanto, é prestar uma homenagem a esses dois, que a seu modo construíram uma história de humor e crítica muito em falta nas músicas de hoje.

As críticas são em torno de acontecimentos incorretos do cotidiano, com pesado tom político. Talvez o maior exemplo seja a canção “Tá tudo subindo:”

Sobe arroz, sobe o feijão,
A batata e o macarrão
Dum jeito que não se atura
Tudo sobe inté a taxa
No entanto só o que baixa
Defunto na sepultura
(…)
Se recorre à greve, então
Veja a compensação
Baixa logo o cassetete
Sobe o preço da bagagem
Também sobe as passage
O pobre que aguente a cruz
(…)
Farta chuva no nordeste
Farta tudo que é uma peste
Deixando a coisa crítica
Engraçado no Brasil
Fartando tudo aos mil
O que não farta é política

Eu ainda cortei alguns trechos, para não ficar mais extenso do que já ficou :P. Como vocês puderam ver, eles não usavam nenhum recurso irônico ou mesmo metáfora para esconder/disfarçar aquilo que realmente queriam dizer. Com Alvarenga e Ranchinho era na lata. Outro exemplo é História de um Soldado (ou Palhaço, em algumas versões), numa clara alusão à burocracia e ao jogo de empurra que as autoridades adoram fazer, para, no fim, não fazer nada. Em relação a essa música, há uma curiosidade histórica: “[Com a] letra da autoria de Alvarenga, foram detidos pela polícia e levados por Alzira Vargas, filha de Getulio, à presença do presidente para que apresentassem a paródia. Embaraçados, cantaram a música até o fim (…) Getulio sorriu, afirmou não ver ofensa nos versos e liberou a dupla“. (Fonte)

Além de críticos, eles são tragicômicos. Entendendo por tragicômico aquilo que pode ser trágico e cômico (duh) ao mesmo tempo, temos os versos de Drama de Angélica. A história é triste (fala da morte de uma mulher em função do erro do estúpido farmacêutico), mas a inserção de detalhes descritivos que não tem nada a ver com a história principal acaba tornando a música leve e divertida. Eles não chegam a fazer troça da desgraça, mas a deixam num ponto que é possível dar risada. Leia a letra você mesmo no site de letras do Terra.

O pai de Angélica chefe do tráfego
Homem carnívoro ficou perplexo…
Por ser estrábico usava óculos:
Um vidro côncavo o outro convexo…

Qual a importância de saber que o óculos do cidadão tem um vidro côncavo e outro convexo? Há vários trechos com esse tipo de sacada durante a letra. Fora que eles inserem/infiltram palavras que você não está acostumado a ouvir ou mesmo ler por aí. Lúgubre, tísico e zéfiro, só pra citar algumas. Além do mais, não é todo mundo que tem peito de colocar “esôfago” numa música.

Mas não só de críticas e tragicomicidade vive a dupla.  Paradoxalmente, Alvarenga e Ranchinho demonstram uma simplicidade sem limites no teor de muitas músicas. Esse é um dos fatores que mais me encanta nos dois*. Podemos dizer que há um conjunto de crônicas sociais entre o repertório da dupla. Os assuntos mais atuais – na época – eram colocados em pauta nos repentes e modas de viola. Só para se ter uma ideia da gama variada de assuntos abordados, estão a aprovação do divórcio, a famosa relação com a sogra, o chamado do Exército para a 2ª guerra mundial, o namoro quase (veja bem… eu disse “quase“) puritano… a que eu mais gosto fala sobre a mudança da moeda e a consequente chegada do Cruzeiro. Entre outras passagens primorosas, a que eu considero o ápice da genialidade (ok, hipérbole detectada) é a seguinte:

Lá nos Estados Unidos a coisa é bem deferente
Dinheiro graúdo é dolar. Dinheiro miúdo é cent.
E quem não tem cent sente, que é triste viver sem nada
Mas quando a gente tem cent, já tem a vida assentada

Encerrando texto, deixo um vídeo de um dos poucos registros visuais da dupla. Quer dizer… poucos que foram postados no Youtube. Eu posso ficar horas discursando sobre o estilo, coragem e bom humor da dupla que não vou convencer vocês. Melhor deixar que eles mesmos o façam:

* Na verdade, o correto é falar UM Alvarenga e TRÊS Ranchinhos. Para efeito prático, resumi todo mundo numa só dupla e ignorei a ordem cronológica dos acontecimentos. Detalhes no excelente texto do Luciano Queiróz.