Onde está a alegria do futebol?

No domingo passado pudemos observar um lance que até hoje causa polêmica: o drible da foquinha, protagonizado por Kerlon. Mas por que raios isso causa tanta polêmica? Muitos dizem que Kerlon não devia ter feito o lance, pois isto humilha o adversário. Pera lá! Desde quando um drible humilha o adversário? Desde quando usar a habilidade e a técnica é motivo para entradas criminosas e desleais?

Não vou discorrer sobre o que fazia Garrincha, pois ele vivia num mundo à parte*. O que está em xeque é: Onde está a alegria do futebol?

Houve um tempo que o futebol era entretenimento. Não é mais. O futebol agora é negócio. E dos lucrativos. Quantos empresários literalmente montam em cima de jovens jogadores, que agora saem do país com 14, 15, 16 anos? Até pouco tempo atrás ninguém conhecia Afonso Alves, exatamente porque ele saiu muito jovem do país. E assim como ele, muitos “afonsos” são levados do país para jogar na Ucrânia, Arábia, Portugal, Bósnia, etc, etc, etc.

O futebol não é mais o mesmo. Jogos padronizados, jogadas robotizadas. Às vezes assisto um jogo e sei exatamente a jogada que será realizada. São poucos hoje que arriscam um toque a mais, um corte a mais. A forma física é prioridade nos treinamentos, quando também deveria ser prioridade a técnica.

Essa forma de pensar já vem da categoria de base. E a base não forma totalmente o jogador, pois os clubes necessitam dos jogadores jovens para cobrir verdadeiros rombos no elenco. Vide o caso Lulinha. Após perder Willian (que, diga-se de passagem, tem pouco mais de 20 anos), o Corinthians, em vez de contratar alguém ou ainda, já ter no elenco um substituto, sobe de categoria um garoto de 17 anos! 17 anos! Será que alguém que nem o Ensino Médio completou, tem personalidade e “cabeça” suficiente para agüentar a pressão de uma massa ensandecida que é a torcida corintiana? Eu acho que não.

Isso tudo faz com que muitos jogos literalmente me façam dormir.

Outro aspecto que fez o futebol mudar é a forma como ele é encarado psicologicamente. Caio, ex-jogador do Santos, em participação no programa Arena SporTv, exemplificou essa mudança de pensamento. Segundo ele, há 10, 15 anos atrás, quando um jovem subia da categoria de base, era uma honra vestir a chuteira de um Zico, de um Raí, para amaciá-la. Hoje, se alguém ousa pedir, é encarado como forma de depreciação, de humilhação. Até porque, muitos jogadores jovens têm este status de estrela e salvador do time, como descrito anteriormente. Jogadores como Alexandre Pato, Willian, Kerlon, já entram em campo com a responsabilidade de jogar tão bem quanto alguém mais experiente. Está errado. Está muito errado.

Iniciativas como a de Kerlon, Pato, Ronaldinho Gaúcho, Robinho, sem citar Vampeta e Souza, que encaram o futebol como deve ser encarado, ou seja, como entretenimento, às vezes são criticadas e abominadas. Isto é simplesmente inadmissível! Essas atitudes são justamente o sopro de vida e esperança que o futebol precisa.

Se tornar o futebol alegre for encarado como forma de desrespeito e os dribles punidos (como aliás já aconteceu), eu mudo de esporte. Aliás, mudo de planeta.

 Há muito mais a ser dito sobre o assunto, mas isso fica para especialistas. Eu sou apenas um torcedor. Um amante do futebol que sempre que o juiz aponta o centro de campo, encerrando uma partida, se pergunta:

 E a alegria do futebol? Onde está?

 *Recomendo a leitura do livro Estrela Solitária, que é a biografia de Garrincha. Para quem realmente gosta de futebol, é um livro indispensável.

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