Entrefix: Aurélio Araújo

Hoje o Idéia Fix inaugura mais uma série: As entrevistas, apelidadas aqui de Entrefix. Em Entrefix eu procurarei entrevistar pessoas não necessariamente famosas, mas que têm algo relevante para contar. Algo interessante para você leitor. (Está até em letra diferente!)

Comecemos, pois, por Aurélio de Paula Guedes Araújo. Ele é professor, pesquisador e consultor em História e Educação. Mas, mais do que isso, Aurélio Araújo é voluntário pelo Institute for International Cooperation and Development, tendo atuado na África Sub-saariana durante 6 meses. Nesta entrevista ele contará sobre esta fantástica experiência e assuntos relacionados.

IF: Em seu blog, Around de World, você descreve algumas de suas aventuras, por assim dizer, como voluntário do Institute for International Cooperation and Development. Qual o objetivo desse instituto e qual sua função nele?
AA: O Institute for International Cooperation and Development é uma organização não governamental norte-americana baseada em Williamstown, Massachusetts. A IICD teve seu início em 1987 e desde então treinou mais de 1.000 voluntários para atuarem no sul da África e América Latina. Eu ingressei na IICD em 2006 como voluntário internacional para participar do Development Instructor Program.

IF: Há quanto tempo você desenvolve esse trabalho voluntário? Como conheceu o instituto e tomou a decisão de temporariamente abandonar família e amigos?
AA: Sou voluntário desde os sete anos de idade, foi quando ingressei no Movimento Escoteiro, por meio do Grupo Escoteiro Caio Martins em Brasília. Dentro do movimento escotcinema-with-hope-kids-10.jpgeiro fui sempre estimulado a atuar como um agente de transformação social, doando um pouco do meu tempo para causas que a maioria das pessoas não se preocupam. Por volta dos meus 18 anos, junto com amigos, criamos um portal de solidariedade on-line chamado Boa Ação.com. O projeto durou 2 anos e tivemos bastante sucesso. Nessa mesma época, fui eleito coordenador nacional da Rede de Jovens Líderes da União dos Escoteiros do Brasil. Foi por meio dessa rede virtual voltada para o jovem, que recebi um e-mail sobre a IICD. Enviei minha papelada, ganhei a bolsa e decidi me mandar. A decisão não foi tão difícil, sempre tive um desejo de trabalhar na África no campo social e a minha família sempre me apoiou, o que facilitou muito as coisas.

IF: Uma pergunta simples e direta: Por que? Por que voluntariar na África e não no Brasil?
AA: Uma boa pergunta, volta e meia alguém me questiona o por que. Quando eu olho para alguém, eu não vejo um brasileiro, um americano, ou um canadense. Eu vejo um ser humano. Por isso me considero, acima de ser um cidadão brasileiro, um cidadão do mundo. E se eu lhe perguntar onde as pessoas hoje mais precisam de ajuda hoje, a resposta será: África! Então lá fui eu… O nosso planeta sofre por que a gente se divide, quando no fundo somos todos iguais. Eu ajudo quem precisa, onde se precisa, independente de credo, cor eu religião.

IF: Antes de embarcar para a África, você passou por treinamentos intensivos. Qual a importância desse treinamento, para os dias que viriam, na África?
AA: Sem dúvidas. Estudo e treinamento são necessários em uma missão como essa. Entender a cultura, a história, os hábitos é fundamental. Assim como saber se prevenir de doenças e certas situações que podem colocar a nossa vida em risco. Morar seis meses em um país desconhecido e que vive em extremas condições de pobreza demanda cuidados dobrados, por isso o treinamento é tão importante.

IF: Por quais países você passou nessa jornada? De qual país trará mais lembranças?
AA: Passei por Estados Unidos, Inglaterra, África do Sul, Moçambique e Swazilândia. Mas sem dúvidas foi em Moçambique que mais ficou meu coração.

IF: Algum causo engraçado ficou marcado na memória?
AA: Claro! Casos engraçados foram vários, mas um em especial foi quando fui viajar a primeira de vez de ônibus por Moçambique (lá chamado de Maxibomba) e tive que levar a minha mala no colo dividindo espaço com galinhas e cabras.

IF: “Pela vontade de me inserir em novas culturas, conhecer novos lugares, novas línguas, ajudar pessoas…”. Frase retirada de uma postagem em Outubro de 2006, no início da jornada. Realizou tudo isso?
AA: Realizei, na verdade, realizei mais que isso! As experiências por que passei me remodelaram por dentro, me deram grandes amigos e mais do que me inserir em novas culturas, eu me senti parte delas, tamanha foi minha empatia com tudo aquilo que tive contato.

IF: Você morou numa comunidade moçambicana de 300 habitantes na fronteira do país com a Swazilândia. Como você mesmo descreve: “O ser humano mais próximo fora do projeto está a quase 7km de distância”. Por que tão longe?
AA: A One Worluniver.jpgd University é uma universidade especial que prepara professores para além de lecionarem,se tornarem agentes de transformação social. Eles aprendem construir casas e escolas, prevenir malária, HIV, iniciar projetos agrícolas, entre outros. A universidade fica isolada no campo, por que a maioria das comunidades moçambicanas é isolada. 80% da população do país ainda é agrícola. É dessa maneira que os professores são treinados em um ambiente parecido com que eles irão encarar ao final do curso.

IF: Nos posts mais recentes, você descreve sua estada na África sub-saariana, região notoriamente conhecida pelos altos índices de violência e soro-positivos. Como é a experiência de conviver com a fome, a pobreza e, principalmente, com a história e a vida dos moradores? Como problema da AIDS é tratado lá?
AA: Viver rodiado por tanta pobreza nos faz ver o mundo por outro ângulo. Um ângulo em que você dá mais valor a sua comida, à sua saúde, à sua casa. Ao mesmo tempo, fiquei absolutamente encantado em como aquele povo encara todos os seus problemas com cantoria e sorriso no rosto. A alegria e a vontade que eles tem de viver é o que nos fornece força para trabalhar em meio a tanta miséria.

O HIV não é apenas um problema, ele é “O” problema. 18% da população é soro-positiva, em algumas áreas específicas esse percentual pode chegar a 30%. O governo e as organizações internacionais tem investido bastante na prevenção e tratamento, mas a desinformação e preconceito ainda são o grande problema.

IF: “Ao mesmo tempo, fiquei absolutamente encantado em como aquele povo encara todos os seus problemas com cantoria e sorriso no rosto.” Você se referiu aos moçambicanos, mas essa definição caberia muito bem aos brasileiros mais pobres, que não são poucos. Moçambicanos e brasileiros têm muito em comum?
Sem dúvida. Os moçambicanos tem uma alegria e uma energia tão intensa quanto a do brasileiro. Foi com eles que descobri que o tal do “jeitinho” não é exclusividade dos brasileiros. Os moçambicanos para sobreviverem também vivem dando “jeitinho” em quase tudo. Os laços coloniais com Portugal nos aproximam e nos tornam irmãos.

IF: “Pesquisa diz que 30% dos sul africanos acreditam que a AIDS não existe.” Mesmo no século 21, nos deparamos com notícias como essa. Você pôde testemunhar algum fato que confirme essa afirmação? Como você avalia as políticas de combate à AIDS nos países que passou?
AA: Os preconceitos e mal-entendidos sobre o HIV na África são enormes. Eu mesmo trabalhei no projeto Hope com uma criança soro-positiva que não recebia tratamento por que a avó acreditava que seu mal era espiritual, ou casos em que homens diziam acreditar que sexo com virgens era img_5184.jpguma maneira de se curar do vírus. Vi e presenciei muitos casos como esse.

Em grandes cidades, como Maputo, existem diversos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) além de hospitais habilitados em fornecer o tratamento, mas a desinformação ainda é o maior problema. Existem campanhas sistemáticas na TV, mas uma minoria da população possui o aparelho. Além do que, na zonas rurais, a testagem e o tratamento é praticamente inexistente. Não fosse por projetos de organizações não governamentais nessas áreas, aquela população dificilmente receberia alguma atenção mais especial com relação a doença.

IF: Pelos relatos no blog, você viveu sem regalias, utilizando o transporte público, quase sendo assaltado, fazendo longas viagens. Acredita que assim você pôde viver integralmente a experiência?
AA: Eu fui picado pelo bicho da mochila muito cedo. Sempre viajei bastante, mas quando se é mochileiro normalmente a gente foge de regalia. Pacote turístico para mim não serve. Se você quer conhecer um país, uma cidade, uma região, você precisa ir aonde vão os locais e ir como eles vão. Isso nos ajuda a ajudá-los, porque podemos entendê-los melhor, muito melhor.

IF: “Eu estive lá! Dancei ao som dos tambores e celebrei com a cantoria festiva!”. Quais tipos de cerimônias tradicionais você participou? Quais foram seus contatos mais diretos com a cultura africana? O que disse o feiticeiro que leu seu futuro na Swazilândia?swa.jpg
AA: Participei de uma dança real na Swazilândia, casamento em Moçambique, festejos… Todos eles com vários ritmos como passada, cu duro (é esse mesmo o nome), marabenta, etc. Mas além da música, veio a comida, as crenças, as histórias e o próprio dia-a-dia.

O feiticeiro falou que eu estava apaixonado e minha trilha apresentava um futuro próspero. Ele acertou a primeira, tomara que tenha acertado na segunda também.

IF: Foram 6 meses inesquecíveis. Você pretende (ou pode) voltar a ser voluntário, pelo próprio IICD?
AA: Ser voluntário para mim não se trata de um momento, faz parte do meu cotidiano. Eu não estou voluntário, eu sou voluntário. Essa é minha forma de manter a esperança de que esse mundo pode ser um pouquinho melhor. As portas da IICD estão sempre abertas, mas agora irei buscar novos caminhos.

IF: O que Moçambique gravou em você?
AA: Moçambique… saudades. Moçambique virou minha casa, mais rápido do que eu poderia imaginar. E tenho um sentimento de “pertencimento” que é até difícil explicar. Mas aquela terra de boa gente foi o início de momento muito especial de minha vida, foi onde vivi e conheci África e hoje o continente negro faz parte da minha história pessoal graças a Moçambique.

IF: Aos interessados em voluntariar na África, qual o caminho que você recomenda seguir?
AA: Busque organizações sérias e programas que direcionam com segurança, mas acima de tudo, não tenha medo de tentar! É uma experiência única para você e para eles. Quando eles têm contanto com pessoas de outros países é interessante ver como eles começam a realizar que o mundo é maior que a vila e que existem infinitas oportunidades lá fora. Estude, se informe e se prepare da melhor maneira possível. A África precisa de toda a ajuda possível e a sua ajuda também é bem-vinda!

Esta foi a entrevista com Aurélio Araújo… Não deixe de visitar o blog dele, que afinal de contas foi através dele que pude conhecer o Aurélio. Entre agora no Around the World.! Se preferir, visite o álbum de fotos do blog. Tem cada uma sensacional lá…

O que você achou da entrevista? Tem sugestões para próximas? Não deixe de comentar aí abaixo… seu feedback é muito importante para mim. E se preparem.. vem muito mais por aí.. aguardem!

14 pensamentos sobre “Entrefix: Aurélio Araújo

  1. Muito boa essa entrevista, Frank! É incrível ver como existem pessoas grandiozas como o Aurélio, que colocam a suas vidas à disposição dos que mais precisam, que usam sua energia e conhecimento para melhorar, nem que seja um pouco sequer, a vida desses seres humanos tão marcados pela pobreza, fome, doença e tantos outros males, e que assim nos ensinam a valorizar mais as nossas.

    Parabéns ao Aurélio, que sua vida seja próspera, como previu o feiticeiro da Swazilândia! E parabéns também ao Frank pela entrevista! Abraço

  2. Muito bom encontrar pessoas disponíveis e interessadas em contribuir com a solidariedade entre os homens. Isto chama-se FRATERNIDADE. Orgulha-me ver brasileiros assim. Este gesto é uma ponta de esperança, tão necessária para a humanidade. Parabens.

  3. Entrevista espetacular, assim como o entrevistado…. conhecemos o Aurélio aqui na IICD Massachussets, somos voluntária também e ouvir seus feedbacks e histórias sobre África nos deram a certeza de estarmos no caminho certo !!!!
    Esperamos poder ajudar tanto quanto você…
    PARABÉNS por tudo…
    e beijos com saudades !

  4. Conheci Aurelio dias antes dele embarcar para Mocambique. Nesse momento eu tambem estou nesse pais e passei pelo mesmo Instituto que ele, antes de vir, nos Estados Unidos. O fantastico mundo do trabalho social, do compartilhamento das experiencias, da ajuda aos menos privilegiados e realmente fascinante. Mas como todos os mundos tem dias em que o sol parece nao brilhar tanto. Mas sao esses relatos que tambem nos dao forcas para seguir com os nossos sonhos. Agradeco ao Frank e envio um grande abraco, cheio de boa sorte, ao Aurelio.

  5. Pessoa especial e de grande experiëncia de vida. O Escotismo que nos uniu é o mesmo que incentivou o Aurélio em seu voluntariado na África. Espero que possa nos transmitir tantos conhecimentos quanto os que adquiriu e viveu. Abraços.

  6. Muito boa entrevista. É contagiante ver que a semente que o movimento escoteiro plantou em nossos corações, ainda quando crianças, cresceu e e se tornou essa grande árvore. Me orgulho muito de desfrutar dos frutos desse movimento de jovens atualmente em minha vida pessoal e profissional e ver que acontece o mesmo com vários amigos. Aurélio, boa sorte nessa nova etapa, amei a lembrança do Boa Ação.com e com certeza essa experiência que vc teve será inesquecível!

  7. Parabéns AURÉLIO,fiquei surpreso e muito contente por esta sua dedicação aos necessitados e doentes e tenha certesa que voce é umiluminado do SENHOR paracumprir esta missão. Que voce continue neste caminho de espinhos que com seu toque se transforma em flores e traz a PAZ do dever cumprido. Parabéns. Humberto

  8. Conheci o Aurélio ainda em Bsb e tive a oportunidade de ser sua aluna,sempre soube q o caminho dele seria esse,sua história e sua forma de pensar sempre foi e será um exemplo para todos nós q em algum momento tivemos o previlégio de conhece-lo.
    Q esse exemplo de voluntariado sirva de “Empurrão”para todos nós brasileiros ou não…
    Parabéns Aurélio!

  9. Aurélio, me emocionou seu relato. Tenho viajado pelo mundo aprendendo/ ensinando/ compartilhando experiências com pessoas do mundo. Na verdade cada pessoa é um mundo e não é necessário viajar pelo mundo para conhece-los/ ter contato com eles, este diversos mundos estão em cada pessoa a seu lado, basta dar atenção e criar a oportunidade para que cada um mostre o que tem/ sente dentro de si. Para isto, mostre-se também. Todos crescemos trocando conhecimentos, vivências, carinho, solidariedade.
    Tudo na vida é efêmero, só experiências e conhecimento ficam. Parabéns Aurélio, que a profecia de amor e futuro próspero se realize! Frank, continue trazendo pessoas interessantes para nós, leitores. A Web está carente de essência.

  10. E quero torcer para que ele continue voluntario de coisas boas que tragam para nós cidadania e que aumentem em nós os bons costumes, a solidariedade, a força moral e acima de tudo a população brasileira, com saúde e educação, com uma família bem formada, sobre o tripé perfeito, pai, mae e filhos – tomara que como ele surjam muitos para ajudar nossa população a nascer, crescer e ser exemplo de país pujante e próspero – o povo é sempre a maior riqueza de um país – pais que cresce em renda, cresce em população, cresce em amizade e em solidariedade! Que ele mesmo um dia tenha muitos filhos para melhorar o mundo!

  11. Pingback: Entrefix: Orlando Duarte « Ideia Fix

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