Bumbódromo: Um Coliseu na Amazônia

Guardem em seus corações essa frase: A Amazônia é do Brasil.

Três dias de folclore vivo no meio da floresta. Caprichoso e Garantido se degladiam em busca da simpatia dos jurados, que escolherão o melhor boi. Não está entendo nada? Calma… eu me referia ao Festival de Parintins…

O Boi Caprichoso (vencedor do certame do ano passado) e o Boi Garantido são agremiações – tal qual escolas de samba – que se apresentam no último final de semana do mês de Junho, num lugar apelidado de Bumbódromo.
A rivalidade entre os bois vermelho e azul muito se assemelha à dos times de futebol. Sinta o clima na página oficial do Festival:

“O GARANTIDO VIRÁ COM UM ESPETÁCULO GRANDIOSO QUE VAI CONTAGIAR A TODOS. TENDO EM VISTA QUE O CONTRÁRIO VEM COPIANDO MUITO A GENTE, A ORDEM DESTA NOITE SERÁ A SEGUINTE: PRIMEIRO O BOI ORIGINAL E DEPOIS O PIRATA… KKKKKKKKKKKKKKKKKKK…”

A cizãnia entre eles é tão grande que “um torcedor jamais fala o nome do outro Boi, e usa apenas a palavra “contrário” quando quer se referir ao opositor. São proibidas vaias, palmas, gritos ou qualquer outra demonstração de expressão quando o “contrário” se apresenta.

O Bumbódromo é uma arena, projetada em formato de cabeça de boi (brilhante, hein…) para abrigar 35 mil pessoas. Logicamente, os 35 mil lugares são lotados num piscar de olhos. Segundo a Patrícia Maldonado (apresentadora da Band) muitas pessoas entraram na arena as 14 horas de hoje, depois de madrugar na fila. Tudo pela paixão ao Boi.

As toadas – que são as letras das canções – podem falar de tudo. Os temas mais comuns são o rico folclore da região, os rituais indígenas e os costumes dos ribeirinhos. Muitas delas tornam-se hits internacionais. Duvida? Eu aposto que você já ouviu pelo menos um desses trechos: “A cor do meu batuque/ Tem o toque,/ Tem o som da minha voz/ Vermelho, vermelhaço, vermelhusco/ Vermelhante, vermelhão […] Vermelhou, no curral/ A ideologia do Folclore vermelhou/ Vermelhou, a paixão/ O fogo de artifício da vitória avermelhou”

Mas, o melhor da festa – para os torcedores das agremiações – são as “toadas de desafio”. Essas letras são especialmente criadas para provocar o boi contrário, que, muitas vezes, não tem tempo de responder á altura.

Há uma enorme diferença entre o Carnaval Carioca/Paulista e o Bumba-meu-Boi. Enquanto na Sapucaí/Sambódramo as alegorias transitam numa avenida, em Parintins as alegorias são montadas no centro da Arena, assim como um quebra cabeça. As peças vão entrando e se encaixando, até formar por completo o que elas realmente significam.
Mesmo assim, são verdadeiros carros alegóricos, com movimentos, luzes, efeitos especiais….
Esse ano, o Garantido trouxe à arena um helicóptero de aeromodelismo coberto com plumagens, representando uma arara.. vermelha, claro.
Já o Pajé também veio voando. Usou aqueles mochilas propulsoras controláveis. A verdadeira figura do (humpf) índio moderno.

O Festival desse ano tem uma mensagem muito clara: “Essa festa é do povo brasileiro, para o povo brasileiro”. Depois das polêmicas internacionais sobre a posse da Amazônia, a festa desse ano quer mostrar para o mundo que a Amazônia fala Português… e do Brasil.

Quero deixar bem claro que os Bois não tem nada a ver com isso. Eles se dedicaram boa parte do ano para realizar um espetáculo de singular beleza e de uma importância cultural incomparável. A mensagem tem um significado puramente político.

Tudo bem que, segundo o MST, “dos 30,6 milhões de hectares devastados entre os anos de 1990 e 2006, 25 milhões foram transformados em pasto” […] “o que corresponde à soma das áreas dos estados de São Paulo, Rio e Espírito Santo“. Isso é um mero detalhe.

Também não deve ser levado em consideração que “a Amazônia é uma das regiões mais biodiversas do planeta, com uma quantidade impressionante de espécies animais e vegetais, e sua devastação traz conseqüências graves para todo o mundo.” Ninguém se importa com isso. O progresso do país é mais importante.

Afinal de contas, “A Amazônia é do Brasil”…

Quer saber mais sobre o Festival de Parintins?

Página Oficial do Festival
Site Oficial do Boi Caprichoso
Canal do Boi Garantido
Artigo na Wikipédia (a mãe dos burros digitalmente incluídos)

Fotos do Festival (será que dá certo essa tal de galeria?)

7 pensamentos sobre “Bumbódromo: Um Coliseu na Amazônia

  1. E ai tudo blz?
    Precisa agradecer n kra! Tava atras de pesquisa daquele bixo feio mesmo… tenho fotos de muitos outros bixos exoticos como aquele.
    Bom, sua pesquisa foi definitiva para fechar o post…

    Bom! flw ae
    Sucesso kra!

  2. Bah, isso é cultura.
    Aqui no Sul – principalmente na fronteira oeste – é muito cultivado o tradicionalismo regional.

    Dá orgulho de ser brasileiro quando nos deparamos com estes eventos tão únicos e nossos.
    “E a Amazônia é o jardim do quintal” já diria Raul Seixas.
    Afinal, nós não vamos pagar nada.

  3. Há doze anos que não vou a Parintins,porém tenho acompanhado a evolução pelo qual o Festival passou. Estou residindo em Manaus e espero esse ano ter a oportunidade de levar as minhas duas filhas a minha cidade natal e mostrá-las tão grande feito pelos artistas de nossa terra. Riqueza artística maior não há.

  4. Me desculpe, Sr. Toogood mas achei seus comentários sobre minha terra e o Festival muito preconceituosos. Só por eles já dá pra perceber o quanto você é sem cultura. O festival é muito mais do que “política”, e não traz um pingo de incentivo à devastação, à criação de pastos, afinal de contas é uma brincadeira, um folclore, impregnado na cultura amazonense. Talvez a sua pseudo-superioridade de achar tudo isso ridículo vem de querer sempre encontrar manipulação política em tudo.
    Minha opinião? Pare de falar o que você não sabe e não conhece, consultar a Wikipédia e a Desciclopédia não quer dizer que você vai realmente entender ou saber falar de um assunto.

    • Eu creio que houve um erro de interpretação de sua parte, Larissa. Sério…

      Eu não disse que o Festival de Parintins era político. Eu disse que a mensagem de que ” a Amazônia é do Brasil” era política. E é.

      Deixei em negrito o seguinte: “Quero deixar bem claro que os Bois não tem nada a ver com isso. Eles se dedicaram boa parte do ano para realizar um espetáculo de singular beleza e de uma importância cultural incomparável.”. Veja.. é um elogio claro, explícito e muito sincero. Se eu tiver dinheiro pra pagar um ingresso pra ir pro Carnalval do Rio/SP/Bahia, eu prefiro guardar e usar pra ver Parintins. E nem penso duas vezes!

      O que eu quis dizer é que aqueles que se esforçam pra provar que a Amazônia é do Brasil parecem se importar mais em defender a imagem e não o ser em si. A Amazônia é do Brasil? Ótimo! Vamos cuidar dela, seja fazendo festivais, multando quem vende madeira ilegal, acabando com a grilagem…

      Mandei um e-mail para você porque não quero que você saia dessa página imaginando algo totalmente contrário ao mue objetivo.

      Espero ter esclarecido a questão…

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