Neo-Pinocchio

Era uma vez um senhor chamado Geppeto. Com seus 72 anos, era famoso por aparecer nas campanhas de vacinação contra a gripe e por ter sido flagrado pela revista Bengalas e Dentaduras com a dona Euvira (aquela mesma do comercial).
Cansado da solidão, resolveu criar um boneco – ao estilo Maria Eugênia – e, para isso, resolveu usar garrafas pet. Com sorte, apareceria em uma das matérias padrão do Jornal Hoje.

Trabalhou durante dias e finalmente viu pronta sua criação. Resolveu dar o originalíssimo nome de Pinócchio. O nariz era feito de rolo de papel higiênico (obviamente, sem papel) e os olhos de tampinha de garrafa.
O sucesso com a criançada foi instantâneo. Geppeto fazia apresentações públicas, brincando de ventríloquo. Ele criou um sistema para fazer uma parte do Pinócchio crescer cada vez que o boneco contasse uma  piada. Os bacuris adoraram ver o nariz crescer.
O sucesso na vizinhança chamou a atenção de um produtor do Gugu que o levou para uma apresentação no palco do SBT. Agora o Brasil conhecia Geppeto e seu boneco.

Pinócchio ganhou comunidades e perfis no Orkut e, com o sucesso, vieram os aproveitadores: ladrões de banco criaram o vírus Pinocchio que nada mais era que um cavalo de tróia que fazia o saldo da conta diminuir cada vez que o usuário acessava o banco online.
Geppeto percebeu que sua criação perdeu o sentido original. Nas ruas não era visto com bons olhos. Na padaria, sempre levava menos do que pedia e, geralmente, pagava mais do que deveria. Na fila do INSS passava horas sem ser atendido – não… ISSO não era culpa do Pinócchio.

A situação piorou de vez quando Pinócchio achou que era gente. A fada madrinha foi a Estrela, que fabricou um boneco falante, andante, e que fazia cocô de verdade! As crianças adoraram. Os pais e as diaristas nem tanto. As casas ficaram empestiadas de toroços fictícios, feitos de barro. Alguns eram tão realistas que vinham com um grão de milho. Havia a opção diarréia, mas ironicamente, ficou presa nas prateleiras.
Os mais puritanos não aceitavam a criação, achando que, no mínimo, o boneco deveria vir com uma fralda. Os mais pevertidos pediram uma boneca que pudesse ter os airbags calibrados. Novamente os puritanos entraram em ação, conseguindo um fecheas corpus contra o brinquedo. Dessa vez o juiz do STF aceitou a decisão do promotor designado para o caso Sacaeagarra.

Nem o jogo “Pinócchio Adventures” conseguiu disfarçar o ódio da população que, instigado por pautas dos programas de Sônia Abrão e Luciana Gimenez (respectivamente: “Pinocchio: O boneco que virou game e surpreendeu o Brasil!” e “O Diário Secreto de Pinócchio!“), começou a agredir verbalmente o pobre Geppeto, que não podia mais sair na rua.
Num ato de retratação, o SuperPop fez um desfile de lingeries entitulado “Faça o Pinócchio do seu marido crescer com essas lingeries!“, mas nem assim Geppeto sentia-se feliz. Percebeu que o trabalho que teve foi em vão. Viu sua criação ser deturpada pela mídia e muita gente ganhar dinheiro com isso. Menos ele.

Num ato de desespero, deletou seu perfil no Orkut e isolou-se numa casa de repouso. Percebeu que Pinócchio não passava de um boneco e, ao contrário de Maria Eugênia, não lhe daria 500 mil reais.

Hoje Geppeto vive na Bahia (o estado disfarçado de gravadora). Adotou o rastafari, o berimbau e a água de coco. De vez em quando vai batucar com o Olodum, cantando a plenos pulmões: “Olodum, Olodum tá assado… ele nem consegue ficar sentado…
Já Pinócchio vive em um armário, cercado de ácaros, mofo e velharia (não, a Vera Loyola não está lá no meio). Para ele, a fama e o sucesso não valeram de nada. O nariz ainda cresce, mas sabe como é: Geppeto já não tem aquele vigor da época de Dona Euvira.

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