Conhecendo o sogrão – 1a parte

O Gustavo revelou-se um excelente contador de causos. A história do parque aquático fez muito sucesso e os leitores pediram bis. Para a nossa sorte, o Gustavo aceitou contar mais uma história. A primeira parte você lê agora:

“Namorei por 5 meses, uma garota de outra cidade. Como ela fazia pré-vestibular junto comigo, nos víamos alguns dias da semana e durante o final de semana, ela ia para casa e eu ficava estudando… anatomia e outras línguas.

Eis que repentinamente, surgiu o tão famigerado convite: “Gustavo, este final de semana é meu aniversário, e vai ter uma churrascada lá em casa. Minha mãe e meu pai EXIGIRAM sua presença!
Dada a delicadeza de tal convite, fui incapaz de declinar. Chegou sexta-feira, e eu nunca vi uma aula de literatura passar tão depressa… quando percebi, já estávamos no ônibus. Pensei: “pelo menos rola um cobertorzinho e um sarrinho debaixo dele…
Ledo engano. Como ela estava com pressa de chegarmos, ansiosa pela apresentação do namorado à família, ao invés de esperar pelo ônibus executivo (leito), confortável, e sair às 19:00h para chegar às 21:00h, preferiu me fazer arrastar sua mala (trata-se de mala de mulher! É LÓGICO que tinha roupa para 3,5 anos), por 8 quarteirões, para que pegássemos a MARINETE. Marinete, para quem não se recorda, é aquele ônibus que saía de cidade natal da “Tiêta”, para ir a capital. Só para te dar uma noção, na época da novela, que já está muito velha, o ônibus já era velho.

Como raciocínio lógico JAMAIS prevalecerá à vontade de uma mulher, pegamos Marinete – que gentilmente batizei de cata-corno – para sairmos às 18:00h e chegarmos às 20:30

Achei muito legal, pois até então só havia visto aquilo em filmes: mulheres amamentando, gente carregando galinha, aquele aroma agradável das pessoas da roça… Eis que adentramos no ônibus, todos os 4.
Digo 4, porque a mala dela equivalia a duas pessoas. De cara, a felicidade: as pessoas sofriam de complexo de cinema – complexo de cinema determina o seguinte: procure sentar em qualquer lugar, fazendo com que SEMPRE, exista UM ÚNICO lugar a sua esquerda e outro a sua direita. Ou seja, em todo o ônibus, não havia a possibilidade de sentarmos juntos. De sarro a beijo, de beijo a nada, em apenas 8 quarteirões.

Ela acomodou-se ao lado de uma senhora tridimensional (pessoa que deitada, em pé, sentada, de lado… enfim, em qualquer posição, possui a mesma dimensão). Fui andando pelo ônibus, rindo, afinal, estava vingado! Eu viajaria sem sarro e ela viajaria sem conseguir respirar. Eis que vejo minha poltrona… não, não foi a que você pensou… mais para trás, um pouquinho mais. Aí!! Exatamente ao lado da porta do banheiro. E imagine a cena: uma matuto/capial/jeca, vestindo o que parecia ser um saco de batatas costurado, um chapéu de palha todo esfarrapado e uma calça que deve ter sido usada no batizado do avô do meu avô (hoje com 84 anos), com um cheiro de cigarro de palha + bosta de vaca + algum animal morto há 3 décadas.
Confesso que o diabinho no meu ombro desejou com todo o ardor que a estrada fosse sinuosa e que minha namorada chegasse na cidade, direto para a UTI.

A viagem começa. Cata-corno anda 5 minutos e pára. Sobe mais gente. Anda mais 10 minutos e pára. Sobe mais gente. Uma criança puxa o som  (já repararam que em um ambiente com várias crianças, se uma chora, todas acompanham? É quase igual a uma orquestra, só que todos são desafinados e não sabem porque estão chorando, nem mesmo a criança que iniciou o coral). Eis que após 40 minutos de viagem e 487,32 paradas, o ônibus era puro choro, catinga de gambá no cio e berros: “Ô Vanduscreide, joga o pão com mortaNdela aqui para trás, que a tubaína tá esquentando…
Confesso que em determinado momento, estava até mesmo me divertindo com o diálogo das duas cidadãs do banco da frente: “Licoane, o médico descobriu o que o vandenogel tem. Ele tá é com um tal de um pobrema de sistema nervoso” ” Ié mesmo Ronetna? Iagora?” “Sei lá. Estou tentando dar maracujá e carqueja para acalmar“. (atenção, os nomes foram trocados, para evitar futuras demandas judiciais). Dentre as pérolas, uma delas disse que as dores de cabeça dela, eram por causa de uma tal de encefaléia (“ai Jisuis, daí-mi passiênssa“).

Lá para 789ª parada, surge um “caboclinho”, com um isopor, vendendo o (bendito) pão com mortaNdela, refrigerante, sucos e (atenção, trilha sonora do filme… esqueci o filme original, mas ela se repetiu quando Marla entra no consultório do tio e ganha o NEMO) LARANJA!
Sim, eu disse, ou melhor, escrevi LARANJA! Kriptonita detona oSuperman, fogo o Ajáx, o Robin de cuecas verdes o Batman… mas, laranja é o meu fraco. Considero o seu cheiro, a PIOR COISA DO MUNDO. É um cheiro que gruda no seu nariz, no seu cérebro e só te abandona, quando você fica em imersão na água sanitária por 7 meses seguidos.
Lá estávamos nós, eu, o catinguento ao meu lado e as laranjas do outro. A cada passo do vendedor, eu sentia o terror. O suor já escorria. Eu olhava do vendedor para o catinguento sucessivamente. O vendedor chegou até o meu lugar, com aquelas laranjas quase esbarrando em mim, me vi no dilema: “esbarro no catinguento ou nas laranjas?” O desespero falou mais alto, e lá estava eu, quase deitado no colo do catinguento… Ao perceber que ninguém ali iria querer, o vendedor começou a se virar. “Ufa escapei...”
Moço!” (chamou o catinguento) “F I L H O D E U M A P U T A!!” (pensei eu).
Quanto custa a ...” (música novamente) “a ...” (vai, declare logo o sentença) “…a coxinha?” (confesso que por um momento, quase esqueci todos os meus nojos e considerei seriamente a possibilidade de abraçá-lo).
Coxinha comprada, eu refletindo: “nessas horas, quase chego a acreditar que Deus exist…

E agora? O que será que interrompeu o pensamento do Gustavo? Seria o catinguento que mudou de idéia e resolveu comer a laranja? Seria o saco de laranjas que estourou espalhou-se por todo o ônibus? Será que foi a namorada do Gustavo que descobriu que a senhora tridimensional era, na verdade, um homem tridimensional?

Você só vai descobrir se clicar aqui e ler a segunda parte.

PS: Que fim de ano, hein!

2 pensamentos sobre “Conhecendo o sogrão – 1a parte

  1. Ok, trocar um ônibus decente, de gente normal por um de pobre lascado é burrice, principalmente se a diferença da hora de chegada é de meia hora. Pelo amor de deus, nem eu que sou muito burra fartia isso!

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