Head and Tail

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Eu gosto de observar. Posso não enxergar coisas muito óbvias, como o pote de geléia na geladeira, mas determinadas observações sobre o comportamento humano são deliciosas de se fazer. Pude viver uma dessas experiências que escola ou faculdade alguma é capaz de ensinar e, na verdade, nunca serão.

Fui até a Santa Casa de Itatiba buscar o resultado de alguns exames. Logo na chegada, enquanto o carro era estacionado, um veículo do Resgate do Corpo de Bombeiros (conhecido como SAMU em algumas localidades) chegava na parte da Emergência. Pela pressa que os paramédicos tiraram a maca e a empurraram hospital adentro, o paciente não deveria continuar paciente muito tempo. Acabava de ver uma vida escorrendo pelo ralo. Alguém que viveu, conviveu, falou, aprendeu, poderia, dentro de alguns instantes, nunca mais voltar a ter qualquer ação. Qualquer reação.

Caminhando alguns passos rumo à recepção, passei pelo Pronto Atendimento que contava com umas… sei lá, 30 pessoas. Nenês, crianças, moços, homens, mulheres, senhoras, senhores. Muitos com faces preocupadas. Outros com expressões que não revelavam nenhum sentimento. Apenas estavam ali. Por fim, temos aqueles que faziam cara de gemido. Estavam mal. Muito mal. Todos esses personagens misturados, naquela saleta desconfortável da triagem. Será esse o estágio imediatamente anterior ao visto na ambulância?

Continuei minha caminhada até a porta principal. De lá saia uma mulher, um rapaz, uma moça, uma flor e um bebê. Recém nascido. Aquela cena do brotinho de gente embrulhado em panos macios e o sorriso dos pais e da avó não negavam que a alta havia sido dada havia poucos minutos. Mais um entre 6 bilhões de habitantes terrestres começava sua longa, ou quem sabe breve, jornada.

Num espaço de 500 metros pude observar as fases do estágio humano, na ordem reversa. Alguém no fim da vida, outros passando por ela e alguém pecurrucho ainda no início. Onde estará você, na tênue, frágil e imprevisível linha da vida? Onde estarei eu nessa monta-russa de pulsões?

Sim, eu sei. Post extremamente maçante. Peço perdão. Mas nem tudo é piada nesse circo chamado Terra. Lembre-se: Cogito, ergo sun.

PS: Já que o assunto aconteceu na Santa Casa de Itatiba, vale a pena o registro. A reforma do saguão principal ficou muito bonita. Sei lá quanto custou (e principalmente, qual a diferença entre o orçamento inicial e o final). Deram um nome ao saguão: Eng° José Roberto Fumach. Coincidentemente, a reforma foi realizada na gestão do… Eng° José Roberto Fumach! E para ser neutro, o atual prefeito, Sr. João Fattori, teve contas recusadas pelo TCU quando foi Presidente da Câmara. Eu amo Itatiba…

Ainda vale aquela lei que proíbe a nomeação de locais públicos com nomes de pessoas vivas?

Foto: Kahn Flickr

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