Minha Orora, a Analfabeta

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Cascadura é um bairro extraordinário. Viajei para lá no Carnaval e fui muito bem recebido na pensão que fiquei. Meus amigos insistiam para não ir: “Jards, camarada… vá pra Bahia!“. Insisti e minha teimosia valeu a pena. Ou não.

Entre matinês, boates, arrastões e o tradicional baile de máscaras, conheci uma dona toda boa e cheia da nota. De fato era uma grande criatura. Tudo na medida: Rosto perfeito, corpo escultural, mãos divinas e pés de princesa. Aquela era a minha chance de subir na vida sem usar banquinho.

Tudo ia muito bem, até que eu descobri que ela não podia abrir abrir a boca. Não… ela não era banguela. Era analfabeta. Não sabia ler nem tão pouco escrever. Achei que ela estava de sacanagem quando meu contou, mas de fato pude confirmar: ela escreve “gato” com jota e “saudades” com cê. Pra você ver…

Pra ter uma ideia de como a situação era complexa, um dia ela me ligou, lá na pousada mesmo, dizendo estar doente. Perguntei o motivo e ela soltou o diagnóstico: “Estou sofrendo do estrombo“. Estava sentado na cama e levei um tombo. Caí durinho pra trás. Isso sim já é demais! É.. mas ia piorar.

Numa das vezes que estivemos juntos, ela me mostrou o bando de “aribús” no céu, bem perto dos “ariopranos“. Mas pelo menos ela gostou da minha “motocicreta“. No almoço pediu aquela feijoada esperta… “compreta“. Me sentia muito estranho com a situação. Ela era muito bonita, mas era errada demais.

Quando estava pra partir de volta pra minha terra, ela veio se despedir. Vi um “O” bordado na blusa dela, e percebi que não tinha perguntado nem o nome da moça. Olhei a letra e pensei “é agora”. Perguntei seu nome. Ela disse: “é Orora”. E completou: “E sou filha do Arineu”.

O azar, definitivamente, é todo meu.

A história original é essa
A foto veio do Astrid Cilla’s Flickr

3 pensamentos sobre “Minha Orora, a Analfabeta

  1. Subúrbio e cidade do interior (seja de onde for) é assim mesmo, são muitas pérolas para contabilizar…

    Outros exemplos:

    Vinheram; hozi; antonte; maoria; bicicreta, que é o clássico; eu teria trago (no lugar de trazido), e se você fala trazido ainda te olham de cara feia; estalação no lugar de instalação; e muitos outros que não lembro agora…

    PS: Ninguém viaja para Cascadura, a não ser que seja muito excêntrico, pra não dizer doido…
    Cascadura é um bairro do subúrbio carioca, só vai lá quem é de lá mesmo ou tem algum conhecido no bairro, a passeio nem pensar…hehehe

  2. Pingback: Eu não ligo para música « Ideia Fix

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