O Legado do Barão de Itararé

Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá“- Compreendo: Você pode não ter entendido absolutamente nada da frase destacada acima. É porque ela tem,  na verdade, todo um contexto político, mais precisamente da década de 30. O governo ge-gê era o de Getúlio Vargas. O gá-gá de Eurico Gaspar Dutra.

O autor da sátira política acima é Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (amém), popularmente conhecido como o Barão de Itararé. Mas afinal de contas: Quem é esse tal de Barão de Itararé que resolveu provocar o Marechal/General? Deixamos que o próprio Barão se autodefina:

“Campeão olímpico da paz”, “marechal-almirante e brigadeiro do ar condicionado”, “cantor lírico”, “andarilho da liberdade”, “cientista emérito”, “político inquieto”, “artista matemático, diplomata, poeta, pintor, romancista e bookmaker”.

Jornalista – não necessariamente diplomado – escrevia para os jornais O Globo (do Robertão) e A Manhã (do pai do Nélson Rodrigues). Fundou seu próprio jornal, entitulado “A Manha” – afinal, “quem não chora não mama“. A  omitida do “til” fazia toda a diferença e mostrava a sutileza e destresa com que o Barão tratava as questões. Sutileza que o transformou em Barão. Não… Apparício não ganhou o título por serviços prestados ao país e muito menos comprou por algumas dezenas de milhares de niques. Muito mais fácil e sensato se autodeclarar Barão. Segundo a Wikipédia, o próprio viria a explicar o fato tempos depois:

“[Getúlio  e Washington Luiz] Fizeram acordos . O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve.”

Assim como Barão, mais pessoas aderiram à crítica com o toque ácido. O Pasquim – que tinha um equipe das mais invejáveis, com nomes como Paulo Francis, Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil, Ivan Lessa, Ferreira Gullar, Sergio Cabral, Flávio Rangel, além dos correspondentes internacionais. Todos exilados, claro. – foi um marco no chamado jornalismo-moleque.

O Pasquim incomodou verdadeiramente os militares. Incomodou tanto, mas tanto, mas tanto, que boa parte da equipe criadora foi presa. Presa por falar a verdade? Presa por ridicularizar a classe que se acha dominante? Presa por contar nas entrelinhas (e muoitas vezes detro delas) como de fato era o Regime Militar?

A sátira política sobreviveu com Ernesto Varela. O repórter que não era repórter, mas fazia perguntas que todo repóter deveria fazer, surgiu bem underground no corpo de Marcelo Tas. A câmera ficava na mão de Fernando Mirelles. Segundo o próprio Tas: “O Varella nasceu na época em que os repórteres eram muito certinhos, quando a censura era pesada e eles tinham pouca liberdade para fazer perguntas.” Quase apanhou de Nabi Abi Chedid na famosa pergunta ‘Qual sua próxima jogada“.

Nos atuais tempos, CQC e Pânico na TV! se encarregam das sátiras. O segundo ainda engatinha quando o quesito é pergunta ardida para os políticos, mas mostra sinais de que sabe fazer, se realmente quiser.
O CQC nasceu para isso. Sob o comando de Marcelo Tas, o programa aborda a política semanalmente e mostra que os Deputados e Senadores não estão realmente preparados para tomar decisões pelo povo. Quando muito são educados.

Que fique claro que esse texto não visa fazer propaganda dos programas citados e muito menos rasgar seda. Falta ao povo brasileiro consciência de que há formas para mudar a política no Brasil. A primeira delas é questionar. A Segunda e se autoquestionar. O humor é a vaselina verdade.

Esse é o lagado do Barão de Itararé: acidez nas perguntas e um despreendimento do “sério” que só fazem bem a quem asiste, lê, critica.

PS: Com a benção do Barão, está iniciado o mês de aniversário do Ideia Fix. Preparamos textos especiais durante esse mês, além da retrospectiva em página especial, o resultado das promessas que fiz no primeiro aniversário e outros cositas más… não perca.

Paulo Francis, Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil, Ivan Lessa, Ferreira Gullar, Sergio Cabral, Flávio Rangel e muitos outros

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