Por que cultura custa caro?

Eu gosto de ler. Ok… melhor reformular essa frase. Eu gosto MUITO de ler. Esse é um hábito que adquiri – assim como todos os hábitos mais profundos e irreversíveis são adquiridos – na infância. Comecei com um gibi. Passei para livrinhos com rimas (oh saudosa Vaca Rebeca que ganhou na loteca uma linda cueca), livrinhos maiores, maiores, cada vez maiores. Evoluíram para estórias com enredo, que foram ficando cada vez mais complexas. Romances Policias. Biografias. Ficção Científica. Catálogo de loja de materiais de construção. Lista telefônica patrocinada. Panfleto de supermercado.

Esse hábito foi alimentado pela Biblioteca (com bê maiúsculo, por se tratar praticamente de uma instituição). Tantos títulos disponíveis ali… de graça! Não são todos os títulos que eu gostaria de ler, mas são todos os que eu poderia ler. Isso porque há um abismo maior que o (rio) Amazonas entre as bibliotecas e as livrarias. O abismo de classe social.

Essa ladainha toda acima foi para dizer que as livrarias estão extorquindo quem quer cultura através da literatura. O PREÇO DOS LIVROS É UM ABSURDO.

As bibliotecas são ótima fonte de entretenimento. Um entretenimento introspectivo, solitário, silencioso. Indispensável. Mas as bibliotecas visam um público alvo muito claro: estudantes e quem não pode pagar pelos livros (no qual, diga-se de passagem, há uma convergência incrivelmente grande). Grande parte da população que quer ler não pode se dar ao luxo de gastar o suado dinheirinho com livros. Dá para imaginar um povo que não tem dinheiro para investir em si próprio? Pois é.. esse é o Brasil.

Essa falta de poder aquisitivo não está ligada propriamente aos salários pagos nesse país, mas sim ao exorbitante preço pedido pelas letrinhas impressas e encadernadas. Uma biografia do João Saldanha – saudoso técnico e comentarista esportivo – sai por volta de SETENTA reais. Quer mais um exemplo? Lembra daquele livro que eu ganhei num sorteio pela internet? Pesquisando o preço, levei um susto. Recebi pelo correio uma encomenda que valia R$ 65,00

Porque cultura custa tão caro? Não falo apenas dos livros, mas sim do teatro também. No caso desse último, para mim, parece compreensível que o ingresso seja alto, afinal, não só de atores se faz uma peça. O mesmo raciocínio não se aplica às editoras. Falamos de UM escritor e UMA empresa. Tenho certeza que o primeiro fatura muito menos que a segunda citada.

Baixar o preço dos livros é perfeitamente possível. Veja o caso (extremo, diga-se) de Jorge Kajuru. O jornalista gordo, feio, pobre, mas muito feliz escreveu o “Condenado a Falar“. O preço? R$ 1,00. Vou repetir. UM REAL. Espere… vou desenhar para ficar bem claro:

1real

Por que o Kajuru consegue vender suas palavras a 1 real enquanto muitas editoras e livrarias colocam o preço no pico do Everest? A resposta está num pensamento já exposto nesse texto. LITERATURA NÃO É EXCLUSIVIDADE DA ELITE, apesar das editoras/livrarias insistirem em direcionar seu público. Um alto executivo vai prestar atenção ao que o Kajuru fala ou vai dar mais importância ao que o Jô Soares escreve?

Que fique claro: Não estou clamando para que todos os livros estacionem no patamar do 1 real. Se eu posso comprar O Guia do Mochileiro das Galáxias por 15 reais, da onde raios saiu a brilhante idéia de vender a 80, 100 reais?

A pergunta é: Quando o governo vai dar incentivos para que se baixe o preço dos livros? A intenção agora não é estimular a economia? Com o incentivo aos motoboys, o governo matou 3 coelhos com uma só cajadada: movimentou a indústria de motocicletas (e acessórios) e ainda renovará a frota, tendo a possibilidade de diminuir o número de acidentes, além da agressão ao meio ambiente. Brilhante, não?

Com os livros, meus caros leitores, funcionaria do mesmo modo. Partiremos do pressuposto que não há livro ruim. De fato não há. Não importa se a história é sobre um vampiro que se apaixonou por uma mortal ou de um menino que não quer virar adulto. Com o incentivo à literatura, veríamos uma queda substancial no preço dos exemplares. As livrarias venderiam mais. As bibliotecas ficariam melhor equipadas. O povo poderia, enfim, ler mais. Guardar os exemplares para ler quando quiser, consultar, tirar referências. Incorporar ao cotidiano. As escolas poderiam comprar (ou ganhar) mais e melhores livros. Mais pessoas se sentiriam estimuladas a escrever. Teríamos mais opções, mais visões de mundo, mais histórias…

É claro que o acervo brasileiro não é pequeno. Vá a qualquer livraria Cultura, Saraiva, enfim… qualquer uma. São milhares (ou milhões) de títulos. A maioria mofando na prateleira. A economia mostra que baixar o preço provoca um automático aumento na demanda. A proporção com que isso acontece depende da elasticidade.

Só é preciso avisar que a demanda já é alta, mas está amarrada com as cordas da ganância.

7 pensamentos sobre “Por que cultura custa caro?

  1. Assim como vc, EU tambem tenho uma paixão incrível por livros.. um dos maiores prazeres da minha infância era chegar na casa da minha vó e sentar em frente a sua pequena biblioteca só pra ver todos aqueles livros. Vale dizer que a coleção da minha avó estava recheada de nomes como Dostoievsky, Monteiro Lobato, José de Alencar, Victor Hugo.. e outros grandes nomes da literatura mundial. Minha maior vontade?! ler TODOS aqueles livros!! Mas é claro que eu não consegui.
    Hoje eu leio um livro de 300 paginas em uma tarde. Um de 500 em dois dias. Quando termino um livro minha vontade é de imediatamente começar outro… mas é claro que não tenho os livro assim fácil na minha mão… já a minha avó morava no Rio de Janeiro e eu em Itatiba, interior de SP. Se conseguisse ler todos os livros que tenho vontade, seriam 183 livros em 1 ano !!!
    Enquanto as bibliotecas não “melhoram” seus acervos, eu me dou ao previlégio de 1 vez por mês investir – porque pra mim livros são um investimento – o meu dinheiro em um livro.. já que não posso ler os meu almejados 180 livros no ano leio pelo menos 12.. que é MUITO mais do que a maioria lê..

  2. Não se pode só esperar a ação do governo pra se difundir a cultura… Vou matar vcs de inveja, mas aqui em Brasilia, em algumas paradas de onibus, existem estantes repletas de livros. Você pegao o livro….lê e devolve depois…sem carteirinha, ficha controle nenhum… Com certeza não é uma iniciativa do governo… E o mais incrivel, é que ja tem um tempão que existe isso, e é super respeitado… Ninguem destroi, anarquiza, nada… Nessa area existem diversos pontos de prostituição, e não é raro passar por la e ver as prostitutas la sentadinhas lendo enquanto aguardam.

    • Realmente, essas iniciativas são mais do que válidas. Deveríamos expandir para o Metro (como já é feito em pequena escala). Acho que só não daria certo em aeroportos…. rsrs

      Agora… até as primas tem mais cultura – acessível – do que muita gente mais letrada.

  3. Simples, infelizmente nós vivemos em um país que historicamente sempre considerou a cultura como um patrimônio privado e não particular. Sem falar que somos uma economia capitalista burra, pois o que é mais inteligente, vender uns poucos exemplares por 60, 80 ou 100 reais, ou publicar edições de bolso, como aquelas da pengüin, e vender alguns milhares por 10 ou até 20 reais?

    O mesmo acontece com o teatro e o cinema, os produtores sempre aparecem com aquela lenga lenga de que os preços são caros por causa das carteirinhas de estudante, mas eles se esquecem que em contrapartida o converno sempre libera verbas para produções culturais e o que os sacanas fazem depois colocam os preços lá nas alturas. Moro o Rio e aqui você pode perceber bem essa “discriminação enrustida” se perguntando, porque a maioria dos teatros estão localizados nas zonas Sul, Oeste (Barra) e Centro? Cinemas existem em todas as regiões, mas aí eu novamente me pergunto, porque será que filmes premiados e mais “cabeças” só são exibidos nessas áreas, será que os suburbanos não apreciam tais filmes?

  4. Pingback: Nicko (comming soon) » Blog Archive » A nova cara da coroa…

  5. Também sou apaixonada por livros e aprendi a ler com os livros que ganhava de meu avô (um dos primeiros sucateiros de Itatiba). Hoje sou professora de Literatura e pesquisadora na área de língua espanhola. O preço dos livros é um absurdo; as bibliotecas escolares se tornaram depósitos de livros devido a uma série de fatores, sobretudo a falta de funcionários. Tenho observado a experiência dos argentinos, o hábito de leitura é diferente e são inúmeras as livrarias que oferecem três obras de qualidade por 20 ou 30 pesos. Já comprei obras de García Lorca e demais escritores por esse valor. Vale a pena estudar essas questões e começar a investir em ideias que deram certo em outros estados do Brasil ou nos países que também enfrentam crise econômica.

    Obs.: cometi alguns erros na digitação do comentário anterior e tratei de corrigi-los.

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