Não cante para seu filho. É perigoso!

Numa época em que o “politicamente correto” é (erroneamente) tomado como lema de vida, fico pensando nas cantigas infantis. Sim, não é um assunto novo, outras pessoas já exploraram esse tema e, provavelmente, repetirei raciocínios já antes analisados. Mesmo assim faço questão de colocar minhas poderações, afinal, o futuro do Brasil é moldado desse jeito.

Comecemos pela mais tradicional. Tão tradicional que até Rafael Bastos já usou como tema para seu espetáculo de Standup. “Nana nenêm/ que a Cuca vem pegar“. Será mesmo que os pais são tão irresponsáveis a ponto de SABER que a Cuca vem e largar a criança, pobre e indefesa, cercada pelas grades do berço, à mercê de um jacaré faminto e terrivelmente feio?
O mesmo se aplica ao “boi da cara preta”. Nesse caso é até pior, pois os pais são sádicos ao ponto de incitar o boi a atacar a criança. Só não sei se o boi é mais ou menos feio que a Cuca. Talvez ele seja algum rival descohecido do Caprichoso e do Garantido, mas isso ainda necessita melhores averiguações.

Depois temos “O Cravo e a Rosa”. Logo de cara o cravo pode ser enquadrado pela Lei Maria da Penha, já que deixou a Rosa despedaçada após uma briga. Mesmo assim a Rosa age como “mulher de malandro”, pois quando seu parceiro violento desmaia, ela põe-se a chorar. Cadê as autoridades da Flora que não fazem nada para impedir essa violência gratuita contra uma pobre e indefesa flor? Isso é uma vergonha…

A barbárie não acontece só com humanos. Já analisaram a letra de “Atirei o pau no gato”? O que o gato fez, afinal, para merecer uma paulada? Sinto um toque de frustação na frase “mas o gato não morreu-reu-reu“. Já a tal da Dona Chica, proprietária do felino, ao invés de correr atrás dos pestes que atazanaram seu animal de estimação, limita-se a ficar admirada, como se o gato fosse mudo e a paulada tivesse consertado as cordas vocais. Pobre Tom…

ciranda

“Ciranda Cirandinha” é um drama. Pior que novela mexicana. Todo o amor dito na letra, pelo jeito, era puramente material. Tudo bem, o anel não deveria ser barato (em tempos de crise então nem se fala), mas acabar um relacionamento, mesmo que já abalado, por causa da quebra da peça é demais.
“Nesta rua”, outro drama,  tem um sério problema de cleptomania. Veja o trecho em destaque:

Se eu roubei, se eu roubei seu coração

É porque tu roubastes o meu também

Se eu roubei, se eu roubei teu coração

É porque eu te quero tanto bem

Sim… foi com a melhor das intenções, mas mesmo assim a velha máxima do “ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão” impera aqui. Além é claro, de citar a incomopetência das autoridades públicas que não propiciam asfalto para as estradas. O ator deixa claro seu gosto extravagante – é um exagero ladrilhar a rua com pedras de brilhante. Nem a Vera Loyola seria tão perua – mas bem que a Prefeitura podia ceder alguns paralelepípedos, não é?

Terezinha de Jesus é outro clássico… Ou a tal da Terezinha é muito carente ou é safada mesmo. Ao cair, foi ajudada por três cavalheiros, sendo dois da família. O detalhe do chapéu na mão é puramente dispensável, mas dá um toque anos 20 para a música.
O terceiro cavalheiro, responsável por erguer a moça do chão, já era noivo, mas pelo jeito o casamento era arranjado (bem anos 20, hein). Depois desse gesto de autruísmo, ela finalmente cede e dá o coração… por causa de uma mãozinha após um estabaco?

Há uma letra que não faz O MENOR SENTIDO. A impressão que dá é que o autor começou a escrever uma coisa, desistiu, não apagou, começou outro texto e juntou tudo numa mesma canção.

Borboletinha
Tá na cozinha
Fazendo chocolate
Para a vizinha
Poti, poti
Perna de pau
Olho de vidro
Nariz de pica pau

Por fim, o pobre sapo. Ele mora na lagoa. Ele não lava o pé. Ele tem chulé. O dia que explicarem pro sapo que ele tem que lavar o pé e o sapo entender que tem que lavar o pé, seremos mais felizes. Aprendam: o sapo não é autodidata.

As cantigas infantis merecem uma repaginação. Qualquer dia eu invento outras versões, mais atuais. E juro… não serei exatamente politicamente correto.

10 pensamentos sobre “Não cante para seu filho. É perigoso!

  1. Frank, temos que fazer algumas considerações…
    Com relação às cantigas de ninar, normalmente, quando a mãe a canta para o neném, ela já está cansada, exausta do dia inteiro cuidando dele e trabalhando e cuidando da casa, que está no limite: ou você dorme ou o boi… a cuca…. vem te pegar!!!! É um ultimato!

    O cravo e a rosa faz muito sentido… cada vez que brigamos com alguém, saímos feridos ou despedaçados. E, não há outra reação, senão chorar . É bom que as crianças aprendam isso desde cedo e utilizem a conversa para resolver as diferenças.

    No gato da Dna Chica, a pergunta é: quem atirou o pau no gato??? Ela estava só assistindo. E pode ter-se admirado pelo berro, mas também por ver quem era este malvado… (caso para Sherlok e meu caro Watson)

    Em Ciranda… cirandinha, a moça foi enganada duas vezes: ganhou um anel falso e levou um fora. Só resta mesmo dar a meia volta e … bola prá frente! Boa lição!

    Nesta rua mora um anjo que roubou o coração… Anjo não é assexuado? Será o Michael Jackson?

    E a Terezinha renegou a família (pai e irmão) para confiar num cara que ela nem conhecia… tempos modernos… Que pena! Os três não poderiam ter se juntado para levantá-la?

    Enfim, fique tranquilo. Não haverá traumas para esta criança, que esculta estas canções. Tão pequena, ela ainda não sabe o que é um boi… uma cara preta… um pau no gato…. uma cuca… Ela dorme com o som, com o carinho dos pais e ri muito com o grito do gato: MIAU!!!!

  2. Excelente post! Não sei se devo encará-lo apenas como uma peça humorística (a tag dele é humor!!!!) ou se é um texto da mais pura filosofia contemporânea?
    Parabéns pelo post, novamente.

    Acabou de ganhar mais um assinate para o blog 🙂

    • Na verdade Everton, esse post está classificado como Humor por pura comodidade. Eu queria classifica-lo como “verdades inconvenientes que ninguem gosta de falar porque ninguem tem saco de escutar”.

      Mas humor também serve….

      Abraços e volte sempre!

  3. Só pra constar, já tem versão “politicamente correta” do atirei o pau no gato :
    ====================
    Não atire o pau no gato (to-to)
    Porque isso (sso-sso)
    Não se faz (faz-faz)
    Ô gatinho (nho-nho)
    É nosso amigo (go)
    Não devemos maltratar
    Os Animais
    Miau!!!
    ====================
    Só descobri pq. tenho criança e penso como vc.

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