Cadê o Passe Livre?

Quando estava na saudosa ETEC Rosa Perrone, fui escalado para fazer a cobertura política, pelo Jornal Reação, da votação de um projeto de lei que autorizava o Executivo a custear a passagem de ônibus para os estudantes que morassem a mais de 5 km da escola. Para isso, teríamos que ir até a Câmara Municipal de Itatiba e anotar tudo o fosse possível.

Minha primeira vez na casa do povo foi inesquecível e já era hora de registrá-la aqui. Tudo aconteceu numa quarta-feira e logo na nossa chegada (estavávamos em 3) percebemos que teríamos mais trabalho do que o plenejado. Os apitos e narizes de palhaço que estavam sendo distribuídos entre o grupo consideravelmente grande de estudantes reunidos na porta, denunciavam que a intenção não era só ficar assistindo e torcendo pelo SIM. A ordem era fazer a maior pressão possível.

Nos instalamos mais ou menos no meio do plenário, lugar excelente para observar tanto os nobres vereadores, à frente, quanto os estudantes, ao lado esquerdo. Era o local mais seguro que poderíamos achar já que, 15 minutos depois, a polícia apareceu e postou-se ao lado dos estudantes. Se um tumulto generalizado ousasse se generalizar para o nosso lado, teríamos tempo de correr, não sei exatamente para onde, já que só havia uma saída e, diga-se de passagem, bem distante de nós. Sabe como são estudantes: Sempre amigos da polícia, desde a década de 60.

Quando chegou a vez do tão esperado projeto de Lei, um frisson, ou melhor, o mais autêntico dos faniquitos tomou conta daquele plenário. Era possível ouvir a respiração enquanto o primeiro secretário lia todos os pareceres. Mas ao terminar, o plenário veio abaixo:

“Ô Ronaldão! Libera o busão!” – Os gritos eram dirigidos ao vereaor Ronaldo Herculano que, durante a semana, se manisfestou contrário ao projeto. O gritos eram ensurdecedores. Mas ainda não estavam em sua potência máxima, por mais que eu achasse que seria impossível piorar.

A alegação dos vereadores era a de que o projeto era inconstitucional, pois é vetado ao cargo de vereador criar projetos que façam o prefeito gastar dinheiro. Só o próprio pode criar projetos de tal natureza. Nesse ponto eles estão certo. O projeto não poderia passar.

O autor da proposta, vereador Edvaldo Húngaro, tentou retirar o projeto da pauta, para, segundo ele “fazer os ajustes necessários”. Em vão. Ele foi votado e rejeitado. Nesse ponto, considero que houve um partidarismo exagerado, considerando queo vereador Edvaldo era da oposição e a maioria, situação (inclusive, a esposa e o irmão do agora ex-prefeitos eram (e são) vereadores).

Quando os estudantes perceberam que a chance de ganhar a passagem estava literalmente espacando pelo ladrão, encheram os pulmões de ar e com toda a revolta estudantil bradaram: “Cadê? Cadê o Passe Livre?”. Foram, ao menos, 15 minutos de gritaria ininterrupta. Algo que eu nunca tinha presenciado. Os decibéis alcançados pelos estudantes deixavam qualquer britadeira parecendo o Dunga (o anão). O plenário tremia.

Os vereadores, como cabe a um bom político, ficaram imóveis, mudos – até porque não seriam ouvidos, caso quisessem se pronunciar – e os policiais se movimentaram para fazer a proteção dos eleitos. Sim.. eles temiam que os vereadores tomassem uma surra dos quase 150 participantes da gritaria. E eu não duvido nada que eles fossem capazes de tal ato. Os apitos, claro, não foram esquecidos e quando a garganta começou a falhar, o silvo foi a melhor solução. Melhor solução em termos, já que meu cérebro perguntou seriamente o que eu estava fazendo ali no meio.

Eu estava zonzo, mas nem por isso deixei o local. Anotava tudo o que eu conseguia e mais alguns detalhes na memória, como a cara de deboche do presidente da câmara. Resultado? O óbvio. A sessão foi adiada e o resultado mantido, por mais putos que os estudantes lá presentes ficassem. A pressão não funcionou.

Ao sair do plenário, fui obrigado a sentar na praça e absorver um pouco de silêncio, que, naquela altura do campeonato, se fazia presente mesmo com um ônibus passando ao meu lado. Qualquer barulho era melhor do que o protesto dos estudantes. Meu labirinto estava protestando veementemente contra a pressão que ele tinha cabado de suportar e o melhor modo de fazer isso era não me deixando levantar daquele banco.

Até hoje, ao lembrar desse episódio, eu me pergunto: Cadê? Cadê o Passe Livre?

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