Universitários Politizados Preguiçosos

Para entender o que acontece
Esse texto tem como base e inspiração a confusão que se estabeleceu na Faculdade São Francisco de Itatiba nessa semana. Antes do que eu quero dizer propriamente, cabe uma rápida explicação do que está acontecendo, para contextualizar. Dois professores foram demitidos, alegando a Direção “contenção de custos“. Isso seria normal e aceitável, se não ocorresse 15 minutos antes das aulas da sexta-feira (dia 27) e menos de 1 semana antes das provas bimestrais (que definem o semestre para a maioria dos alunos). Um dos demitidos, inclusive, era uma professora orientadora de TCC, que ainda nem foram apresentados.
A explicação da Reitoria não convenceu os alunos, que decidiram entrar em greve, exigindo a reintegração dos professores, além da abertura dos balanços da Faculdade, para que fique claro como e em que se investe o dinheiro das mensalidades.

Aluno protesta, e bem…
Fui à Assembléia dos Estudantes, que definiu boa parte do que vocês leram acima. Lá pude refletir um pouco sobre a posição e importância do estudante na sociedade. Ficou claro que nós –  e eu me incluo na categoria – sabemos protestar e exigir nossos direitos. Sabemos muito bem ouvir os dois lados, aplaudir, vaiar, virar as costas para Reitoria enquanto esta deixava o palco, usar nariz de palhaço, apitar, entoar cantos de ordem com rimas precisas. A pressão é incrível. Se há uma coisa que universitário sabe fazer, além de matar aula pra beber e jogar truco, é ser politico na hora de botar a boca no trombone.

Os alunos da Psicologia foram rápidos ao declarar greve. Fora duros mantendo-a dia seguinte e em assembléia. Exigiram explicações do Reitor. Fizeram o que tinha que ser feito.

… mas a preguiça bate na hora de dar uma passo a frente.
Durante a assembléia, foi dito que, se necessário, entrar-se-ia com processo no Ministério Público, acampar-se-ia na Reitoria e tudo o que fosse preciso. Nesse momento muita gente travou e murxou. Percebeu-se claramente que a maioria não estava disposta a isso. Nem a sacrificar parte das férias. Chegamos então a conclusão que quando depende da voz, os estudantes vão bem obrigado. Quando saímos desse patamar, já não há um interesse manifestado.

Seria mesmo preguiça?
Talvez preguiça não seja a palavra certa. O problema é mais embaixo. Ninguem quer sair da zona de conforto. Gritar, apitar é fácil. Passar a noite em claro é bem pior. Há de se considerar que a maioria trabalha, tem uma família. É plenamente compreensível. Ninguém nunca disse, no entanto, que seria fácil. Mudanças exigem sacrifícios e nem todos estão dispostos a fazê-lo. Estão certo? Talvez sim, talvez não. É uma questão pontual e factual.

O Cone representa muito bem o que é o estudante. Pode muito bem servir de mega-fone, protestando, falando ao mundo aquilo que deve ser dito, jogando toda a merda no ventilador. Entretando, pode ficar imóvel durante séculos, servindo de objeto meramente decorativo.

Antes não era assim!
Os caras pintadas ou mesmo aqueles que lutaram contra a ditadura, deram um passo a frente. Muitos morreram, ficaram feridos, mas no fim conseguiram o que queriam. Os tempos são outros. Hoje os trabalhos escolares não são manuscritos, as enciclopédias perderam espaço, o mundo está ao alcance de um toque no celular. Os estudantes também mudaram. Não são tão afoitos, pensam antes de agir. Aí está o X da questão. Quando pensam, organizam e são mais eficientes. Quando pensam, muitos acabam desistindo.

Para onde vai a classe estudantil? Pro limbo ou pro Oscar?
O que eu vi me deixou orgulhoso, mesmo com os abandonos durante as manifestações. A reunião pós reunião foi enfática nesse ponto. A minoria – sempre ela!  – ainda leva a maioria nas costas, mas sabe fazer isso com garbo e elegância. Com um grupo menor de pessoas foi possível colocar as idéias no papel e discutir em alto nível. Quando quer, universitário (e não só eles) faz a diferença. Se o mundo for comandado por essa gente que briga, que discute mas que principalmente PENSA no que está fazendo, quais serão as consequências e os próximos passos a seguir, seremos um país de primeiro mundo.

O problema é que o mundo está carente de gente que PENSE E MANDE. Ao contrário, está lotado de gente que PENSA QUE MANDA.

Pense bem.

9 pensamentos sobre “Universitários Politizados Preguiçosos

  1. Pra mostrar que estudante quando quer SABE fazer a diferença.

    Aqui no campus da USP de Ribeirão Preto existia uma normativa que PROIBIA QUALQUER TIPO DE CONFRATERNIZAÇÃO entre os alunos, e que transformava os centros acadêmicos ‘vigias’ dos alunos, no lugar de representá-los.
    Pois bem, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP) no dia 02/09/2009 fez uma ‘festa’, um bar (nome dado as festas que destinam dinheiro as atléticas) DENTRO DO CAMPUS. Durante a festa foi passado um abaixo-assinado para os participantes do evento.
    Pois bem, a guarda universitária chegou na festa e pegou os papeia para levar ao prefeito.
    Uma semana depois, os alunos que se encontravam no evento receberam uma Notificação de suas respectivas faculdades (no meu caso da FMRP – Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) por INDISCIPLINA. Os alunos teriam 15 dias para apresentar a sua defesa para a diretoria.
    Foi o suficiente para os alunos se manifestarem! A manifestação começou com a invasão da casa 36 (o campus possui diversas casas, pois antes de se tornar Universidade o local era uma fazenda) pelos alunos da FFCLRP, pedindo a queda da Normativa. Onde já se viu um campus universitário não poder ter eventos socias?! Cabe ressaltar que nos campus da USP de São Carlos e Pirassununga, os centros acadêmicos possuem salões DENTRO DO CAMPUS PARA A REALIZAÇÃO DE EVENTOS, o que inclui festas de repercussão regional.
    A invasão da casa 36 passou a contar com o apoio das outras faculdades (FMRP, FORP, FCFRP,etc), e agora os estudantes queriam uma reunião com o Prefeito para expor seu ponto de vista.
    De nada adiantou.
    Os estudantes então foram mais radicais: invadiram a Prefeitura do campus. A essa altura todas as faculdades do campus haviam aderido ao movimento. A casa 36 foi invadida logo após o recebiemnto das notificações, e a prefeitura no dia 07/10/2009 (como foi divulgado pela imprensa, mas na verdade acho que a invasão da prefeitura foi alguns dias antes da data divulgada). A prefeitura ficou invadida até o dia 14/10. Os estudantes que se mobilizaram, passaram o feriado do dia 12/10 dormindo no chão.
    O caso virou notícia de televisão, transmitido pela EPTV, afiliada da Rede Globo na região – tentei achar o video da notícia, mas não encontrei, a unica noticia que eu achei foi publicada pelo estadão.com (http://bit.ly/Q4rh2).
    Por fim a normativa caiu no dia 14/10/2009, e mais uma vez os estudantes fizeram-se ouvir e valer a sua voz.

    • Maravilha…. As partes que eu mais gostei foram: “Os estudantes então foram mais radicais: invadiram a Prefeitura do campus.” e “Os estudantes que se mobilizaram, passaram o feriado do dia 12/10 dormindo no chão.”

      É isso que falta pra muitas faculdades. A USF, por ser particular, tem um perfil diferente de aluno. Aqui, a maioria trabalha para pagar um período menor de aulas. Na USP, que é pública, acredito que a maioria fiquei em período integral estudando. Isso dá margem para protestos mais contundentes, mas não é desculpa. Not at all. Trabalhando ou não, pagando ou não, as ações tem que sair do verbo falar, reclamar e pressionar para os de agir.

      A USP provou que funciona.

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