Adentro no Mato Dentro

Meados de setembro. O colégio Divino Salvador, em Jundiaí-SP, sediava uma feira universitária, que reunia diversas faculdades da região. Era uma excelente oportunidade para ouvir palestras sobre profissões e ganhar um brindezinho aqui e outro acolá. Mas como ir de Itatiba para Jundiaí, sem depender dos pais? Busão, claro! Como meus amigos e eu temos apreço pelo nosso dinheiro, bolamos a logística que no daria menor prejuízo financeiro. O plano era pegar um ônibus circular urbano e ir até a divisa da cidade (no molambento restaurante Champirra). Depois, pegar-se-ia o urbano de Jundiaí que também passava lá. Acredite: pegar 2 ônibus saia mais barato do que pegar um diretão, graças a moleza do passe escolar itatibense gratuito.

A ida e a visita ocorreram sem maiores conturbações. A coisa toda aconteceu na volta, no mesmo esquema.

Primeiro deveríamos tomar um ônibus no terminal da Vila Árens. Esse circular já demorou um bocado, o que já nos deixou com a paciência na reserva. Descemos numa ponte na praça central e, sem precisar pegar outra passagem (ainda bem) subimos naquele que nos levaria para o Champirra, para assim podermos pegar o terceiro ônibus (todo esse trampo só para pegar menos… que lástima).

Nessa latura do campeonato, já estava noite. O ônibus ia rasgando a estrada Jundiaí-Itatiba e nós, dentro do latão, não exergávamos nada. O reflexo da luz no vidro nos fazia mirar nossos próprios reflexos, em vez da estrada. Quando estávamos a menos de 100 metros do nosso destino final, o ônibus foi para o acostamento e os poucos passageiros que ainda restavam desceram. Sobramos eu, meus amigos, e mais umas 2 pessoas, se não me falha a memória. Assim que a porta fechou, levantamos, já em posição para desembarcar. Qual não foi a nossa surpresa ao perceber que o motorista virou a direção além da conta, cruzando a rodovia e entrando numa estrada de terra no meie do mato.

Não é exageiro meus caros leitores. O motorista simplesmente achou uma brecha no meio das árvores e começou uma lenta subida, no meio do nada. No reflexo de alguns anos de prática, puxei com vigor a cordinha que acionava a campainha, sendo seguido pelos meus amigos. Alguem deles gritou “Ei motô! Onde é que você vai?”. Um dos passageiros explicou que o ônibus só iria dar a volta num bairro e logo estaria no Champirra.

Eu já morei afastado da cidade, em uma chácara. Estou acostumado com mato, terra batida e poeira. Meus amigos não. E era justamente aquele cenário que nossos olhos viam quando comprimíamos o rosto nas janelas. Era praticamente um Simba-Safari, com a difernça de que os animais estavam dormindo, escondidos. O ônibus subia, levantava poeira que invadia todo o compartimento de carga passageiros. Como meu pulmão já era de cerâmida devido a longa estrada de terra entre a cidade e o Jardim dos Lagos, não senti lá muita diferença do que enfrentava todos os dias. Já meus amigos tinham acessos muito engraçados de tosse.

Aquilo já estava ficando perigoso. Um lugar absolutamente deserto, escuro… Botei a cabeça para fora para tentar enxergar uma luz no fim da mata (sem sucesso, diga-se) e um dos passageiros que ainda restava falou: “Melhor fechar a janela e sentar. Pode voar uma flecha de índio a qualquer momento“. Obviamente ele estava brincando, mas o cenário acabava reforçando a sensação de que a qualquer momento aborígenes transloucados furariam os pneus e invadiriam o ônibus, sedentos por sangue, sexo e as tortinhas do McDonalds que trazíamos.

Pelo vidro embaçado, conseguimos enxergar civilização. Não era a que queríamos, mas já era um sopro de esperança. Algumas casas, um poste aqui, outro ali. E aí ficou medonho. Em frente a um templo da Igreja Universal (porra… até lá?) um protóptipo do que um dia foi um carro. A carcaça estava toda queimada. Aliás… mais de uma. “Pronto. Olha aí as vítimas dos aborígenes“. Sinto que aquele era um bom lugar para um cativeiro.

Um vento gelado invadia nossas narinas, só fazendo a situação piorar. Mas enfim chegamos no Champirra. O bairro que excursionamos chama Mato Dentro. Choramos de rir ao descobrir, já que nada mais adequado do que chmar aquele pedaço da Ilha de Lost de Mato Dentro.

Esse trecho faz parte da minha auto-biografia a conta gotas não autorizada. Todos os direitos reservados. São tímidos, coitados.

3 pensamentos sobre “Adentro no Mato Dentro

  1. É possível concluir que nesse caso o barato saiu caro? (claro, tem o fator aventura, etc) ehehehehehe

    A história me lembrou muito de um ônibus-jardineira que peguei pra ir de São João Del Rey a Tiradentes numa noite, pra ir fazer palestra prum pessoal duma faculdade. Poeirão, escurão, matão, buracões, curvonas. Nó, que medo.

  2. hehehe….. pior que foi muito engraçado mesmo…. juro…. nem lembrava dessa história….. muito bom ter recordado……. apesar das más lembranças……

    Beijoss…. Toogood….. até mais!!!!!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s