Não tenha medo da rã

Estou com quase três anos de blog e até hoje não escrevi nenhuma resenha gastronômica. Shame on me. A ideia para inaugurar esse tipo de texto era resenhar sobre um churrasquinho – que (in)felizmente não é grego – que faz muito sucesso aqui perto de casa. O cidadão monta a churrasquiera na calçada e vende seus espetinhos – “filés minhaus” – faça chuva ou faça sol. Obviamente não queria me suicidar fazer isso sozinho, mas meus amigos não tiveram senso aventureiro necessário (ou um senso auto-defensivo apurado, como queriam) e não abraçaram a ideia.

Restou-me comer rã.

Quando se fala em comer rã, logo lhe vem a cabeça aqueles animaizinhos bonitinhos e gosmentos, que ficam pulando para cá e para lá na beira de lagoas. Seu coaxar – o som emitido por elas – muitas vezes impede que nossos pobres esqueletos descansem horizontamental durante uma noite enluarada. As meninas podem considerar extremamente nojento e os rapaz certamente farão alguma piadinha relacionada a comer perereca. Ok, eu confesso: eu também fiz essas piadinhas.

Entretando, resolvi encarar a perereca, digo, encarar o desafio. Para isso, foi até o Ponto do Peixe em Tuiuti/SP que, apesar do que o nome sugere, NÃO é gerenciado pelo Romário (aliás, esse restaurante merecia um post próprio, já que fica localizado no meio do nada, mas mesmo assim vive lotado. Marketing de Guerrilha elevado ao cubo).

A Ciência – com C maiúsculo – comprova que utilizamos mais de um sentido básico para comer. É um pouco mais complexo do que somente abrir a boca, colocar a comida dentro e mastigar. O aroma e o aspecto (tanto do prato quanto do ambiente) influem na  sensibilidade com que você recebe a iguaria. A primeira impressão que tive do prato quando a garçonete o trouxe à mesa é que eu tinha ligado para a Vivenda do Camarão e pedido por delivery um espetinho. A aparência era a de um espetinho, já que a fina crosta empanada impedia uma melhor visualização da carne. Não que isso fosse um problema, claro.

Chegada a hora da degustação final. Há sempre uma expectativa quando se vai comer algo novo. Não há parâmetros para fazer qualquer tipo de comparação e, portanto, não há uma sintonia entre sinapse e papilas gustativas. Dá até uma certa ansiedade…

Ao morder, percebi que a carne de rã é bastante macia e lembra, tanto em aspecto quanto em sabor, a carne do frango. Na verdade, a carne de rã é bem mais suave que a dos galináceos e também com muito menos gordura, fato que explica porque ela parece mais seca. Isso é um detalhe que não chega a atrapalhar, ou seja, você não precisa, necessariamente, beber alguma coisa par ajudar o chamado bolo alimentar descer goela abaixo.

(Abre parênteses) Pense comigo meu caro leitor. Se o segundo e o último pedaço, olhando da esquerda para a direita na foto, e só a pata do bicho, imagine o resto do corpo! Olha o tamanho do naco que retiraram do gigante batráquio! Eu imaginava que as patas de rã fosse BEM menores. Será que injetaram hormônio? (Fecha parênteses)

No lugar do osso está uma haste de cartilagem. Essa talvez seja a parte menos comum, pra dizer o minimo. Ok, para as mulheres, é sem dúvida a segunda parte mais nojenta (vocês já vão entender porque). Quando cutuca-se com o garfo, a sensação não é estar cutucando algo mole, nem tão pouco algo duro. É uma consistência intermediária, difícil de definir. É algo assim como uma… cartilagem.

O único ponto negativo desse prato são pequenos fiapos, se assim podemos chamar, com um aspecto pouco convidativo. Eles tem uma cor preta-esverdeada (lembra bastente a cor das algas), contudo, não são como fiapos de abacaxi que ficam presos no meio dos dentes, com os quais travamos uma intensa batalha, utilizando a língua. Manja, né?
Esses fiapos são um pouco grudentos, elásticos. Borrachento não seria a palavra adequada, apesar de esse ser o aspecto. Não consegui fotografar para mostrar. Eu, sinceramente, não senti gosto de nada, ou pelo menos nada que eu pudesse comparar. Na verdade, não faz menor diferença para o sabor, se você desconsiderar o aspecto, assim como eu fiz.

Em suma, carne de rã é absolutamente normal, não há o que temer. Se você tiver a oortunidade de comer, não se faça de rogado e frescurento (ou, mais especificamente, frescurentA). Não há nada de excepcional e você ainda poderá gabar-se com os amigos. Se você tem dó por serem pobres pererecas indefesas, lembre-se dos cachorros na Coréia.

Aliás, se eu tiver a portunidade, taí uma excelente resenha para fazer…

5 pensamentos sobre “Não tenha medo da rã

  1. tanto a carne de rã quanto a de coelho lembram frango, é verdade! faz décadas que não como rã, meu pai e os amigos saíam pra caçá-las à noite, e quando voltava eu acompanhava a limpeza, o preparo, etc….

    e tenho uma certa birra de gente que diz “ai, que nojo” pra comida. antipatia mesmo. 😆

  2. Comi muita rã quando era criança… Meu pai caçava quando estava de folga; eu gostava da hora da matança. Depois que ele matava e limpava, ele temperava com pimenta-do-reino e os músculos da rã ficavam tremulando (pequenos espasmos) e eu achava aquilo engraçado… A carne é uma delícia, super suave… Porém hoje eu não tenho mais coragem de comer, vai entender…

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