0300 ajude aí

A não ser que você não seja um feliz proprietário de uma linha telefônica, dificilmente deixou de receber uma ligação de uma simpática moça, com uma história comovente (a-hã) fazendo qualquer pedido dramático, geralmente para angariar dinheiro para alguma instituição de caridade ou pessoa necessitada. Vou contar como foi a última ligação que recebi:

A ligação
No meio da tarde toca o telefone. Uma alegre moça começa seu discurso dizendo que uma mulher – cujo nome eu não lembro – tinha parido um gracioso rebento – cujo nome eu também não lembro. Mas, coitada, ela tinha a Síndrome da Imonodeficiência Adquirida, também conhecida como AIDS. Isso implica em mais um recém nascido também com AIDS. Pelo menos a moça me garantiu que aquele não era o problema. Além de AIDS, o bebê tinha intolerância à lactose. Mas esse também NÃO era o problema. Eles tinham conseguido com a Prefeitura de Jundiaí um convênio para garantir o leite especial.

O X da questão
O pulo do gato estava na útima parte do discurso. O convênio infelizmente só valeria a partir de março, ou seja, fevereiro estava a perigo. Só um mutirão de doações poderia dar o leite especial (que, se não me falha a mamemória, custava 60 reais o Litro) para aquele bebezinho lindo. A moça ainda me afirmou que eu estava com sorte, já que eles tinham conseguido um bom número de doações e só faltava TRINTA reais para completar a vaquinha. Respondi dizendo que não estava trabalhando – o que é verdade – e infelizmente não poderia ajudar. A reação da mulher foi curiosa: “Não, não meu bem…. você não está entendendo. Não é pra dar 30 reais. Você pode ajudar com qualquer quantia! Inclusive, se você quiser, um voluntário vai até sua casa receber a contribuição ou você vem até nossa sede (em Jundiaí)”.

Veja bem… só a gasolina a gastar nesse traslado já inviabilizaria a doação. Inclua nessa conta as ligações interurbanas para conseguir esses 30 reais. Posso estar comentendo alguma injustiça, mas se fosse sério, será que não conseguiriam essa (pouca) grana por lá mesmo?

O lado sério
Isso me faz pensar nas instituições sérias, que realmente precisam de ajuda. O poder público, por mais competente e perfeito que seja, não teria condições de arcar com todas as despesas de todos os que precisam de um tratamento especial, para ser bem generelista. O trabalho das ONGs se faz cada dia mais necessário e fundamental para bairros, regiões, cidades. Se a União faz o açúcar, esse açúcar polvilha a vida e faz o sorriso abrir em jovens e idosos.

Inviabilizando a amostragem
Depois dessa visão romântica, vou voltar meu arsenal para os pulhas e bandidos que se aproveitam da boa vontade e solidariedade do povo. Acho muito triste que todo o joio – e provavelmente esse é o caso do mentor por tras da pessoa que me ligou – tenha consciência do ato que está praticando. Além de desviar dinheiro que teoricamente poderia ser usado para ajudar quem realmente precisa, ainda contribui para desacreditar as instituições sérias que recorrem ao telemarketing. Talvez a moça ao telefone nem saiba para onde vai o dinheiro. Ela faz aquilo que os chefes mandam. Na pior das hipóteses, foi ela quem arquitetou aquilo tudo.

Essas gangues também agem via e-mail. “Se fosse sua filha você também repassaria”. O modus operandi é semelhante. Uma história triste, carregada de desgraças, fotos chocantes de necroses corporais e uma conta bancária. Será mesmo que é verdade? O benefício da dúvida dessa vez joga contra. São tantos spams no mesmo modelo, que acabamos lembrando do Pedro e o Lobo.

Veja quem doa
Cristiane Martins, do Rato de Biblioteca, é uma das cidadãs que recebem essas ligações, geralmente de creches e pacientes com câncer. Mas garante (minha nossa, que expressão mais “jornal de interior”!) que são sérias, e explica porque: “recibos com endereço, telefone, CNPJ; e a impressão que fica ao falar sempre com as mesmas pessoas (educadas) ao telefone” afirma a blogueira (esse “afirma”…. ô clichezinho de redação mais furreca…). Mas conclui (blegh… conclui): “Espero não ser ingênua demais, mas confio neles

O que dá para concluir de tudo isso é que quando o pedido é feito em nome de instituições, o índice de confiança sobe bastante, pelo simples (e até óbvio) fato de que você vê para onde vai sua doação. Credibilidade. AACD, Graac, Centro Boldrini e tantas outras – se bobear perto do seu luxuoso e confortável bagalô – trabalham duro para ajudar aqueles que não tem condições financeiras para bancar o tratamento.

Quanto àqueles que recorrem aos pedidos para pessoas físicas, meus pêsames. Sua intenção pode ser a mais correta possível, mas infelizmente não será levado em conta como deveria.

Gostaria de saber é como é que se pune aqueles que desviam, não só o dinheiro alheio, mas também o caráter. O que, cá entre nós, é muito pior.

3 pensamentos sobre “0300 ajude aí

  1. Olá Frank,

    A Graaac é uma dessas instituições que mencionei; para falar a verdade, só não doo para a LBV, dessa eu passo longe…

    Ah, e a pessoa que vem retirar a doação é mesmo voluntária, donde se conclui que cada um ajuda como pode.

    Também não gosto desses spams por e-mail, ligações pedindo ajuda p/pessoa física e aqueles que batem à porta pedindo dinheiro para “enterrar um parente”. Uma vez nos oferecemos para pagar o funeral, mas queríamos ver o corpo. Você voltou? Nem ele…

    Grande abraço!

    Cristine Martin

  2. Concordo contigo.

    Primeiro que o telemarketing já é algo feito pra tirar a gente do sério.

    Pra piorar, agora vem os golpes por telefone, que estão a cada dia se reciclando né…

    Primeiro era a clonagem, depois veio o lance do falso seqüestro relâmpago, seguido pela história do ‘Você foi premiado…Mas pra isso precisa comprar cartões e passar pra gente'( já fizeram essa comigo, ainda bem que eu não sou trouxa)… e agora chegamos ao apelo pra caridade…
    Puta sacanagem com as instituições sérias mesmo. Acho que a boa é quem quer doar, pedir os dados completos e conferir a veracidade antes de qualquer movimento em falso…

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