Arrudeira

Num condomínio de classe média alta, os moradores viviam bem. Era um condomínio planejado, com piscina, árvores… nem o nome de carro velho atrapalhava a harmonia. Os condôminos se regozijavam de serem considerados o centro do bairro. Todo mundo ficava de olho no que acotecia naquele lugar.

Um belo dia, os moradores decidiram colocar um vaso de arruda no saguão de entrada, para representar o local. Todos os prédios dos arredores tinham alguma coisa simbolizando. Por exemplo: um vizinho mais o sul (que tem um interior considerado muito moderno) ostentava um pote de Requeijão. Outro, bem na divisa com outro bairro, tinha uma Cruz. Para terminar os exemplos, o prédio mais rico da região tinha na fachada uma Serra.
Pois bem, na reunião, mais de 50% votaram pelo sim. Nem foi preciso um segundo turno. Era um vaso muito bonito, realmente, apesar da fama. Vocês sabem… arruda tem uma fama…

Ceraca de 2 anos depois, notava-se que a arrudeira permaneceria ali até secar. Não foi bem assim. O zelador percebeu, através de uma câmera de segurança, que a planta estava sujando o chão. E não pravava por aí. Outros vasos que até então ninguém lembrava que ali estavam, começaram a fazer imundices. O saguão estava ficando bastante feio de se ver.

Alguns moradores começaram a protestar, pedindo que o zelador as retirasse dalí, principalmente porque os vizinhos religiosos já tinham precebido e estavam comentando. As folhas jogadas no chão davam uma péssima impressão, como se o edifício fosse sempre assim, mal cuidado.
Entretanto, uma parcela dos condôminos pedia a permanência da planta. Para eles, não havia necessidade de uma postura tão radical. Pra resolver o quiproquó, bastava limpar em volta dos vasos. Até varrer pra baixo do tapete valia.

Só se ouvia, nos corredores, elevadores e andares, discussões, bate-bocas e, se não fosse o pobre porteiro, muitos já teriam chegado as vias de fato. O caos havia se instalado naquela outrora pacata morada. Alguma coisa necessariamete seria feita. E assim foi.

O zelador colocou o vaso de arruda na casa de máquinas. Argumentou que as imagens eram suficientes para que ele tomasse tal atitude. O grupo dos moradores que pedia a aniquilação da planta comemorou distribuindo panetones. O grupo dos que apoiavam a permanência da planta recorreu ao síndico. O administrador, por sua vez, confirmou a decisão do zelador, alegando que se as crianças não podem correr no hall e os adultos não podem fazer bacanal na garagem, a planta também não poderia sujar o chão.

Todavia, a arruda – como dito anteriormente – foi colocada na casa de máquinas. Ora… lá é ventilado, iluminado e, portanto, a planta poderia continuar na sua eterna missão de realizar fotossíntese. Isso desagradou a oposição. Eles queriam não só o afastamento, mas também que ela fosse tancafiada no almoxarifado escuro e tenebroso. Esse pedido não atendido. A planta havia custado caro, afinal de contas.

A planta permanecerá lá até que seja esquecida. Alguem, fatalmente, vai retirá-la de lá assim que a poeira baixar. A vida vai seguir nesse condomínio. Quem sabe, daqui a alguns anos, não resolvem colocar uma planta melhor no lugar? Mas quem vai garantir que essa planta é realmente melhor?

5 pensamentos sobre “Arrudeira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s