As histórias de seu Ivalte

Ruas lotadas de gente apressada. Rostos suados, tensos, preocupados. Rostos que não denunciam nomes, personalidades ou marca de absorvente preferido. Rostos que escondem uma história. Como seria desenterrar o passado de um anônimo que caminha calmamente por uma praça cheia de pombos e fontes de água de qualidade bastante duvidosa? Foi exatamente essa experiência que eu vivi.

Seu Ivalte já não tem tantos cabelos na cabeça quanto possuía algumas décadas atrás. Mas as ideias parecem estar no lugar. Quer dizer… pelo menos a memória ele conserva orgulhoso, triunfante. Só precisava de um ouvido amigo. Foi então que eu apareci.

Ele me disse que foi um estudante bastante agitado. O trabalho em tirar notas aceitáveis era só um detalhe naqueles tempos efervescentes (?) de ditadura. O importante mesmo era expor as idéias, por mais perigoso que fosse.

Tanto é que um dia seu Ivalte falava à seus colegas de classe e foi delicadamente cutucado na costela. Quer dizer… não foi exatamente delicado, mas o suficiente para fazê-lo parar e procurar seu agressor. Era um simpático policial cujo superior não estava botando fé no discurso de seu Ivalte. Graças às suas doces palavras foi levado á delegacia, onde recebeu carinho, afagos e uns hematomas de brinde. Depois disso foi jogado numa ilha, a fim de passar um tempo isolado da sociedade, pensando na vida. Pessoal gente fina, não é mesmo?

Mas seu Ivalte não desistiu. Conseguiu escapar. Nadou bastante, chegou em terra firme e queixou-se a outro supervisor. Por sorte esse supervisor ficou compadecido com a situação. De fato, não era justo dar uns petelecos em alguém só porque esse alguém resolveu falar algumas verdades sobre o governo. O policial, que chamaremos de Justino – nome meramente fictício, mas que define bem o cidadão – pediu sinceras desculpas e ainda o convidou para um jantar familiar, no qual estariam presentes esposa e filho. Das duas umas: ou seu Ivalte era realmente fodão ou seu Justino estava precisando de amigos.

Policial Justino contou que antes de iniciar a carreira militar fora jogador de futebol. Mas os tempos eram outros e a profissão de boleiro era vista com desprezo pela sociedade em geral, assim como a de pro-blogger hoje em dia. Diz-se por aí que uma Miss Brasil foi proibida pela família de dar uns malhos (rá) num profissional da bola só porque ele era um… profissional da bola. Contou também tinha um filho em fase universitária. Entendia perfeitamente os hormônios à flor da pele sendo extravasados na política. Compartilhava com as ideias, contudo, estava preso à sua posição. Nada podia fazer. Ou melhor… podia convidar seu Ivalte pra jantar.

Seu Ivalte, com um circo de pulgas atrás da orelha, compareceu ao endereço fornecido no dia e na hora marcados. E realmente a mesa estava posta, a esposa do Justino arrumada. Era um jantar de verdade. Inacreditável.

Comeu bem, bebeu bem, conversaram sobre política, deram risada. Já era, por assim dizer, “da casa”. Quando o filho do Justino chegou,  não perdeu tempo e já o bombardeou perguntando sobre a faculdade. As respostas combinavam com o que Justino tinha dito. Era mesmo um policial honesto.

Seu Ivalte me contou tudo isso numa tarde primavera na Praça da Bandeira. É claro que eu documentei, tudo isso, num arquivo de áudio. É claro, também, que em vez de clicar no botão “salvar” cliquei no botão “apagar”. E é claro também que esse blogueiro jumento já se puniu o suficiente por ter perdido os detalhes dessa história bastante exótica.

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