Um conto chato

O estagiário Luizinho tinha acabado de voltar do seu café da manhã no bar do Portuga. O sexagenário lusitano já tinha sua padaria há pelo menos uma década e nesse meio tempo vários clientes fiéis sempre tomavam o lanche matinal lá. Mas o foco dessa história é o estagiário, que relaxava sentado em sua nova cadeira estofada, um braço por detrás da cabeça e o outro a cutucar o dente molar, procurando limpar pedaços do pão na chapa que o pingado não conseguiu desgrudar.

O sol batia em cheio na mesa de trabalho do estagiário. Uma pilha de papéis aqui, outros ali, um porta retrato com a imagem de sua mãe e irmãos aos pés do Cristo Redentor. Luizinho fez um giro de 45º (ou teria sido 65º? Nunca saberemos)  e  foi ao banheiro. A sala permaneceu no mais absoluto silêncio. Nem a porcaria do telefone que costuma tocar a cada 30 segundos deu sinal de vida. Tudo estava anormalmente calmo.

Após um relaxante uso do toalete, o estagiário partiu para o ataque, isto é, para o ataque á pilha de papéis já mencionada. Ele tinha a esperança, ainda que vaga, de que aqueles papéis magicamente criassem pernas e fossem sozinhos até o arquivo. Mas como isso ainda é ficção, teria que cuidar ele mesmo daquele punhado de celulose em forma de folha. Sentou-se e começou a digitar.

1 hora depois todas aquelas informações que não faziam o menor sentido – nem se colocadas de ponta cabeça – foram devidamente registradas no computador. Pegou a pilha de papéis e colocou dentro do armário, numa pastinha intitulada “Baixas”. Agora a missão era telefonar para alguns clientes do escritório, que, digamos, não estavam em dia com as prestações do carnê do Baú. Era a parte mais divertida, já que Luizinho sempre levava com bom humor ter que cobrar os caloteiros que insistiam em dizer que “o patrão não está“. Ficou pensando em quantas empregadas domésticas apareciam no instante em que ligava e que desapareciam assim que o clássico tu-tu-tu-tu soava dos dois lados. Era uma conta bem grande.

O primeiro telefonema ia para Ariel. Ficou olhando para aquele nome sem saber se Ariel era homem ou mulher. Lembrou, claro, da Pequena Seria, mas mesmo assim ficou com a impressão que Ariel era homem. Resolveu tentar ser o mais cuidadoso possível para definir um gênero,até que o interlocutor desse alguma pista…

E assim passou a manhã. Deu-se conta que as 12 badaladas do relógio já deveriam ter soado quando sua barriga deu sinal de vida e de estresse. Aí lembrou-se que o relógio da sua sala não dava nem meia badalada, quanto mais 12. Refletiu um minuto sobre essas afirmações e decidiu que já era hora de comer.

Os dias de Luizinho eram todos assim… TODOS.

5 pensamentos sobre “Um conto chato

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