Excêntrico visionário. Eis Flávio de Carvalho

Algumas pessoas reclamam achando que nasceram na época errada. Consideram-se avançadas para seu tempo. Se parassem para refletir melhor veriam que essa condição é, na verdade, um dom. Flávio Resende de Carvalho –  arquiteto, engenheiro, cenógrafo, teatrólogo, pintor, desenhista, escritor, filósofo, performer, flashmobist, músico e outros rótulos, como se fosse necessário – soube como poucos aproveitar suas idéias modernas em benefício próprio. Nesse texto não veremos o lado artístico ou plástico, mas sim seu espírito empreendedor, aventureiro. De fato, vamos conhecer o espírito de porco de Flávio de Carvalho. Graças a Deus ele tinha um parafuso a menos.

Tudo começa no escritório da firma de construção civil de Ramos de Azevedo, no qual trabalhava. Como devia fazer um calor do Cão (aquele Cão), nosso herói, se assim podemos chamar, trabalhava apenas de shorts. Sua quantidade mínima de roupas feria o moralismo e puritanismo da década de 30 (oh, wait!). Era pra deixar todo mundo com siricutico mesmo.
O protesto veio e com ele a resposta fulminante: “Não vou sair daqui de jeito nenhum. Vocês só me tiram daqui a bala… mas vai ser difícil, porque vou instalar uma metralhadora em meu ateliê…”. E eu acho que ele não estava brincando. Dia seguinte o jornal Diário Popular trazia em seus Classificados: “Compra-se uma metralhadora. Tratar com Flávio de Carvalho no Instituto de Engenharia”

Apesar de não ser punk, Flávio era adepto da filosofia Do ir yourself (ou em bom português, faça você mesmo). Se ele tinha uma teoria, tratava de testá-la para poder comprovar. E sujava as próprias mãos com isso. Ficou conhecido por criar teorias sociais baseadas nas idéias de Freud, Nietzsche e Darwin, testando-as de formas pouco seguras. Eu disse que ele tinha um parafuso a menos, não disse?

A Primeira Experiência não conta com registros históricos. Supõe-se, no entanto, que foi baseada numa outra experiência realizada em 1618, na França. Consistiu em ignorar a convenção de se retirar o chapéu (sinal de deferência) durante a passagem de uma procissão católica. Flávio de Carvalho nunca confirmou que realizou tal experiência, mas também nunca negou. Muito conveniente.

Já a Segunda Experiência tem até data e horário: 7 de junho de 1931, as 15 horas. O local era um procissão de Corpus Christi e a idéia era basicamente a mesma da Primeira Experiência, mas com riscos muito mais altos. Segundo o próprio Flávio de Carvalho, foi assim que aconteceu:

Contemplei por algum tempo este movimento estranho de fé colorida, quando me ocorreu a idéia de fazer uma experiência, desvendar a alma dos crentes (…) provocar a revolta para ver alguma coisa inconsciente. Dei meia volta, subi rapidamente em direção da catedral, tomei um elétrico, e meia hora depois voltava munido de um boné.”

Por causa de um boné em local inapropriado, o excêntrico visionário foi enervando a multidão (até porque ele fazia questão de percorrer os tapetes de serragem na contra-mão), que clamava pela retirada do acessório. É claro que ele ignorou. Apenas sorria. Segundo o Diário de SP “populares tentaram linchá-lo, investindo contra ele. O rapaz pôs-se em fuga, ocultando-se na Leiteria Campo Bello, situada à rua São Bento, até onde foi perseguido pelos mais exaltados”.

Pesquisas sugerem que Flávio de Carvalho realmente correu risco de vida. Foi obrigado a subir num telhado vizinho da Leiteria e aguardar reforço policial. E dizem que essa perseguição aconteceu ao som de Mata! Pega! Isso é que eu chamo de botar pra correr.

Flávio havia atingido seu objetivo e provado sua teoria de que os costumes e práticas da religião acabam por ser mais importantes que o ser humano em si. Pelo menos naquela época e naquela ocasião. Tudo por causa de um simples chapéu na contra mão.

E teve uma Terceira Experiência. Bem menos violenta e arriscada, mas ainda sim excêntrica e visionária.

Você sairia na rua vestido assim?

Flávio de Carvalho desenhou um New Look Verão e testou. Do ir yourself.

A roupa era bem bizarra. Além de listrada, tinha buracos na altura do axila (suvacão, para os mais íntimos) para arejar melhor o lugar, evitando a famosa pizza. A parte de baixo era formada por uma mini saia. Assim o ar podia também circular pelas hummm… partes baixas. O famoso playground… Já a meia era do tipo arrastão, para evitar que as veias ou varizes ficassem a mostra. Inteligente né? Bem… a sociedade e a imprensa não acharam tão inteligente assim.

Alguns acreditaram que ele era louco (ah vá!) e outros que era um homossexual exibicionista. Louco ou gay, o fato é que funcionou. Foi requisitado para diversas palestras, tendo que explicar os benefícios do uso da roupa, coisa que, de fato, só ele poderia dizer, já que foi o único a usá-la. E como sempre tem uma idéia por trás das experiências de Flávio, o plano maquiavélico era tentar instituir no Brasil as roupas unissex. Curioso é que hoje não se vê homens usando saias, mas versões femininas de roupas masculinas são muito comuns. Quem aqui nunca viu uma mulher de gravata levante a mão… Unissex mesmo só o corte de cabelo.

Vale citar, ainda, a casa de Flávio de Carvalho em Valinhos, interior de São Paulo. É uma mansão de 600 m² de área construída absolutamente diferente de tudo o que se conhecia na época.Visto do alto, tem a forma de um avião e não possui frente, lados ou fundo (!). Pilastras vermelhas sustentavam grandes pérgulas (ou pérgolas?), formando vãos livres muito úteis para o lazer ou mesmo para uma gostosa soneca na rede.

A piscina tinha luzes submersas, coisa que ninguém na região sonhava em ter. Lá, segundo as más línguas, ocorriam bacanais (achou que eu ia dizer suruba, né?). Tudo porque ele ia com seu conversível até a estação ferroviária do município e voltava de lá dando uma carona para as mais belas atrizes, cantoras e artistas plásticas da época. Quatro ou cinco ao mesmo tempo. Coisa assim você nunca fará.

Você pode matar a curiosidade e ver as fotos que a Revista Brasileiros registrou (não ligue para a aparência. A casa é tombada pelo CONDEPHAAT está passando por reformas). De fato, era uma baita casa…

Este é Flávio de Carvalho. Encantadoramente diabólico. Sutilmente provocativo. Doce perturbador da ordem. Pacato turbilhão de polêmicas. Performático e excêntrico. Um visionário.

Gostou do Flávio de Carvalho e quer saber mais? Selecionei alguns links que certamente vão te interessar:

2 pensamentos sobre “Excêntrico visionário. Eis Flávio de Carvalho

  1. Por Tutatis! Sabe, eu nunca tive medo de que o céu me caísse na cabeça… No entanto, mais que qualquer monstro, de Pinhead a Jason Vorhees, do Exorcista a Carrie, de Linoge ao Alien, os fanáticos religiosos sempre me aterrorizaram… O mal que eles são capazes de cometer segue ao lado de seu fanatismo, numa disputa ferrenha, sempre empatada!

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