Em 1905 seu bisavô também era barbeiro

O trânsito das cidades está cada dia mais alucinado. Mesmo em cidades do interior, como Itatiba, engarrafamentos acontecem até fora do horário de pico e indivíduos sem um pingo de respeito fazem questão de mostrar para todo mundo que a sua buzina é mais potente que a buzina do vizinho. Uma corrida alucinada por algo que nunca vamos atingir. Todos querem chegar 5 minutos mais cedo para poder ter mais 5 minutos sem ter o que fazer.

Se você pensa, no entanto, que essa é uma característica exclusiva da modernidade, quebrou a cara. Há mais de cem anos, quando as bostas de eqüinos superavam as bostas de cães em qualquer avenida movimentada, você já encontrava barbeiros de todos os tipos, de todos os tamanhos. E a barbeiragem não ficava restrita as charretes ou Fords Bigode (?) com direção do lado direito. Os pedestres  – como eu, você, o Obama e o tratador de elefantes do zoológico – contribuíam para os absurdos pulularem diante dos olhos de qualquer um.

Dito isso, vamos ao que interessa. O vídeo abaixo é muito famoso. Tão famoso que eu nunca tinha visto. Mas você, que é um leitor atento e perspicaz, com certeza já assistiu. Ou não. Ele se passa em San Francisco, na Califórnia americana. O cameraman não era exatamente “a man“, mas sim um bonde. A ideia era justamente essa: instalar a filmadora 35mm na frente de um bonde e gravar mais um dia comum na vida daquela parte do mundo. Sem maquiagem, sem montagem, sem efeitos em três dimensões. Como diria Nelson Rodrigues: a vida como ela é.

Algumas coisas que você deve reparar enquanto assiste: Não há postes com dezenas de quilômetros de fios poluindo o ambiente; as pessoas ainda saíam às ruas de terno, gravata e chapéu, ou seja, ir à padaria era um evento muito importante. Já  as roupas das mulheres tinham panos sobrando, na minha opinião. O policial usa aquela clássica roupa de filmes…

E o principal: O trânsito era tão bagunçado quanto hoje, mesmo com um número absurdamente menor de veículos. Os carros faziam manobras perigosas (um, inclusive, anda na contramão até quase provocar um acidente. Outro tira uma fina dos bondes e quase bate de frente com um).
Os pedestres também não tinham noção alguma da realidade. Eles atravessavam em frente aos bondes, andavam em ziguezague, faziam questão de assustar os motoristas e ainda tinham o péssimo hábito de ficar meio aéreos em frente das lentes de uma câmera. O moleque do jornal? Esse aí tem a pachorra de parar na frente do bonde!

Regras? Quem precisa delas?

O vídeo se torna ainda mais impressionante e historicamente rico quando se sabe que, alguns meses depois, houve o chamado Grande Terremoto de San Francisco. Ele não tem esse nome só porque um cientista achou que devia ser assim. Com magnitude estimada média de 8.0 na Escala de Richter, cerca de 225.000 pessoas ficaram sem teto. Considere que aquela área tinha 400.000 pessoas e você tem aí um índice bem alto de desabrigados. O número de mortos não foi estimado, o que significa muita gente. MUITA gente mesmo. Ah sim… o que sobrou em pé acabou queimado pelo Grande Incêndio de San Francisco que ocorreu depois….

O vídeo é, portanto, um retrato fiel de como estava a cidade antes das catástrofes. Com certeza todas as pessoas e animais que aparecem nas imagens já morreram e 90% dos prédios e casas sumiram ou se transformaram em outras coisas. Se você gosta de refletir sobre questões existenciais e a fragilidade da vida, tem aí um ótimo material. Se você não gosta… bem… aproveite a viagem na máquina do tempo.

Será legal, daqui a 100 anos, poder assistir um vídeo gravado direto da câmera de um celular, mostrando a viagem num trem bala japonês, num ônibus de dois andares inglês e num trio elétrico baiano em pleno circuito Barra-Ondina…

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