Precisa-se de elogios. Remunera-se bem

Dentre todos os funcionários daquela repartição pública, Alcidinei era o primeiro a chegar. Era ele que acendia as luzes, fazia o café, ligava os computadores, passava um pano nas mesas e verificava se tudo estava nos conformes, não necessariamente nessa ordem. Era também a última alma viva a abandonar o local de trabalho, desligando as máquinas, arrumando as cadeiras, guardando as canetas as gavetas e apagando as luzes, necessariamente nessa ordem. Era o funcionário exemplar, que nunca será promovido e seu salário não será maior em função dos seus esforços. Só por essas duas características, já valia a pena tê-lo no staff.

Entre o grande evento de chegar e o de partir de sua Secretaria, ele trabalhava. E trabalha bem pra caramba. Tudo o que você precisasse ele dava um jeito de conseguir, mesmo que não fosse de competência dele. Telefonava para todos os ramais, almoçava o mais rápido possível para voltar ao batente, levava relatórios para fazer em casa, ajudava os velhinhos, entretia as crianças, buscava água para os engravatados. Os colegas percebiam essas qualidades e, obviamente, empurravam o seu serviço para o pobre Alcidenei. Ele não ligava. A alegria da vida dele era trabalhar como funcionário público.

Você pode achar estranho as expressões “funcionário público” e “trabalho” estarem relacionadas sem que um “não” esteja infiltrado. Mas pode confiar nesse narrador que agora usa toda a sua capacidade de argumentação para desmistificar a figura lendária da quem bate o ponto em uma Prefeitura, Câmara ou qualquer emprego que necessite de um concurso.

As vezes, tudo o que aqueles seres esquisitos e que segundo o senso comum tem a vida ganha por mamar nas tetas do Governo precisam é de um elogio.

Conto isso porque certo dia – uma sexta-feira, pra ficar mais dramático – aquele advogado suado que aparece pouco antes do expediente terminar, carregando uma resma de papel debaixo do sovaco, adentrou as belas portas de mogno polido. Ao ver aquela cena sinistra tornar-se realidade, os funcionários foram sumindo, um por um. Exceto Alcidinei, que manteve-se impassível, esperando o árduo serviço que certamente enfrentaria. Ele não tinha o que temer. Estava armado com seu crachá no pescoço, sua caneta na mão e o carimbo ao alcance dos dedos.

Foram longos 43 minutos de perguntas, respostas, argumentações, digitações, corridas até a impressora para pegar folhas e mais folhas. O suor vertida de cada poro de Alcidinei. Várias vezes teve que refazer tudo, pois aquele adevogadozinho de meia pataca insistia que estava tudo errado: era inadmissível que seu nome fosse escrito COM acento.

Ao final da batalha, a surpresa: “Muito bem meu rapaz. Foi o melhor atendimento que eu recebi em mais de 32 anos de serviços. Estou impressionado. Não posso fazer outra coisa senão elogiá-lo diretamente ao Prefeito. E é isso que vou fazer agora“.

Alcidinei esboçou um sorriso de satisfação. Iria esfregar, finalmente, um cargo de confiança na cara dos colegas. O advogado era influente. Tudo valeria a pena.

O advogado saiu do guichê, foi até o fim do corredor e parou, antes de colocar o pé na escadaria. Olhou para os lados, girou 180º e refez os passos, dessa vez retornando até onde estava nosso herói. A pergunta não poderia ser mais direta:

Sofro de perda de memória recente, amigo. O que é que eu ia fazer agora?

O sorriso desapareceu da face de Alcidinei com a mesma velocidade com que tinha aparecido. Não lhe restou outra resposta:

Nada importante, senhor. Pode ir em paz“.

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