Carmen

Nem nos meus sonhos mais criativos eu poderia moldar uma cena tão surreal: toda a alta sociedade itatibense e eu, esse sortudo blogueiro, reunidos no Teatro Ralino Zambotto para apreciar a única apresentação de uma montagem das mais populares óperas já idealizadas: Carmen.

É uma vergonha que eu, que tanto critico Itatiba, nunca tenha assistido a nenhum espetáculo no teatro da cidade. A espera acabou sendo recompensada. Carmen reúne cantores líricos de alta performance e qualidade. Qualidade que as vezes a gente nem imagina que possa existir no Brasil, subestimando o trabalho de profissionais que praticam uma arte fora do que a sociedade prega como moderno. Chega até ser injusto destacar alguém, mas em meio a barítonos, contraltos, sopranos e tenores, a voz de Gabriella Pace tocou mais fundo. Foi de arrepiar.

Carmen também foi uma aula de teatro. O cenário principal era a Taverna La Pastia, “onde quase tudo aconteceu“. Quando as cenas se passavam fora da taverna, as mesas e cadeiras eram transformadas em peças de Lego e magicamente sobrepostas umas as outras, numa harmonia arquitetônica de dar inveja. Fico me perguntando como é que os coadjuvantes/contra-regras conseguem montar os cenários alternativos praticamente no escuro.

Todas as árias foram cantadas em francês. Isso parece meio óbvio, mas era um detalhe que eu não esperava até as primeiras notas chegarem aos meus ouvidos. Para que fosse possível entender o que diziam (já que esse blogueiro não tem conhecimentos básicos da língua de Voltaire) , um pedaço de telão acima do cenário (pode ser visto na foto) mostrava as legendas. Confesso que ficou um pouco desconfortável dividir a atenção entre dois focos tão distintos, mas considerando as outras opções (no original em francês e sem legendas ou árias traduzidas para português) realmente não tinham muito para onde fugir.

O toque de charme da peça foram as danças flamencas. Coisa bonita demais sentir a energia dos tamancos batendo na madeira e o doce estalar da castanhola. E isso não seria possível sem os dançarinos profissionais Mário Talarico, Priscila Assuar e Dani Varejão.

Como não podia deixar de ser, sinto-me obrigado a levantar um ponto levemente negativo da peça, que de forma nenhuma macula o impacto tremendamente positivo que tive dela: a  iluminação. Acho que em algumas cenas faltou um pouco de luz, ou pelo menos um direcionamento melhor dos holofotes. Isso pode ser culpa do próprio diretor ou dos equipamentos do teatro. Ou dos dois.

Outra coisa que me ocorre agora é descobrir quem era o cidadão inconveniente que puxava palmas toda vez que uma ária acabava, mesmo aquelas que deveriam ser completadas pelo silêncio da reflexão. Isso acabou se tornando repetitivo e cansativo, além de tirar o brilho das palmas nos momentos de mais impacto, que certamente são coroados pelo som que vem da platéia.

Toréador, en garde ! Toréador, Toréador !
Et songe bien, oui, songe en combattant
Qu’un œil noir te regarde,
Et que l’amour t’attend

As 500 pessoas que estiveram no Ralino Zambotto podem se considerar privilegiadas. O Instituto Casa da Ópera merece mais que nosso agradecimento. Merece o prestígio de uma casa lotada. Sempre. Merdè para eles.

Você assistiu Carmen em Itatiba ou em uma das outras 17 cidades do Circuito Cultural Paulista? Conte pra gente suas impressões! Não esconda nada e, se tiver que meter a boca no trompete, no trombone ou em qualquer outro instrumento musical, fique a vontade.

Um pensamento sobre “Carmen

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