Cidade pequena é uma merda

Naquele nascer tímido do sol ouvia-se o sino da Igreja Matriz repicar ao fundo. Tão ao fundo que, na verdade, estamos falando da Matriz da cidade vizinha. Assim começou o dia  num pequeno vilarejo encravado no meio do quase nada, mas que o Prefeito insiste em chamar de cidade quando faz seus discursos emocionados no seu palanque de madeira ilegal.

De fato aquela cidade era pequena. Um ovo, se você quiser uma comparação. Tanto é que  todos os habitantes –  do capelão ao cafetão – possuiam apenas 2 sobrenomes legítimos. Uma família casava-se c0m a outra e inventava um sobrenome, só pra impressionar aqueles que ousavam pedir a lista telefônica. Ousar é a palavra certa. Todo mundo lá se conhece por nome, sobrenome, apelido, ficha criminal, maternidade, emprego…. Todo mundo sabe quem traiu quem, quem tá devendo na venda ou quem ganhou um aumento no trampo só porque puxou o saco do patrão. Não adianta esconder seu segredo naquele porquinho rosado da estante da sala… todo mundo sabe.

Os parágrafos que você pacientemente leu dão uma ideia geral de como é o cenário da nossa historinha. O que eu quero contar é como Azaléia foi obrigada a sumir do mapa por causa de algo que ela não fez, com o dinheiro que ela não tinha, num local que ela nunca visitou. Vejamos como foi:

Azália era ruiva. Azaléia também. Azália tinha olhos verdes. Azaléia também. Azália gostava de pintar suas unhas com Amarelo Pastel, 219 da marca Hits, exatamente a mesma cor de Azaléia. Nessa altura da frase você já deve ter sacado que Azaléia e Azália eram irmãs gêmeas e gostavam de mostrar essa qualidade pra toda a população da nossa cidadezinha de merda.

Azaléia era a gêmea boa, pura, casta. Praticamente uma Paulina Martins. Já Azália, por sua vez, era a encarnação de Paola Bracho. Usurpadora Feelings. Mas como já dissemos exaustivamente nesse texto, a cidade era pequena, todos se conheciam… Azália não poderia colocar em prática tudo o que planejava. Teve que se contentar com um mero plano para comer bem. E quase de graça.

O plano deveria contar com a participação involuntária da irmã, ao menos no primeiro teste. E foi assim que aconteceu:

Azália entrou em sua cafeteria favorita para tomar seu brunch favorito. Sentou-se numa mesa afastada e pediu completo, com direito a croissants, cappuccinos, tortas de limão, pães recheados, doces, cafés… Não sairia por menos de 30 reias. Azaléia (a irmã boa) entrou pouco tempo depois. Pediu coisas leves, saudáveis. Não gastaria mais do que 7 reais para pagar tudo o que iria consumir.

Ambas satisfeitas após a refeição, pediram a conta. O pulo do gato deveria ser dado no momento da entrega da conta. Azália levantou-se, foi até a mesa da irmã, abraçou-a e beijou-lhe as faces. Enquanto a falsidade reinava em cima, em baixo suas hábeis mãos trocavam as contas. Azália saiu primeiro e pagou os 7 reais. Azaléia, coitada, argumentou com a moça do caixa que não tinha consumido tudo aquilo e que havia ocorrido um engano. Usou exatamente esses termos: “Sua garçonete deve ter trocado as contas“. Saiu pagando os 7 reais também.

Vitória de Azália! Em uma semana repetiria o golpe, dessa vez com uma estranha. E num restaurante maior, claramente o mais chique da cidade. O que não quer dizer muita coisa, claro.

Repetiu-se tudo como no teste. Escolheu uma vítima que estivesse comendo pouco, trocou as contas e saiu pagando menos da metade do que deveria. O pobre cidadão reivindicou seus direitos de bancar somente o que consumiu e conseguiu o consentimento da gerência. Só que dessa vez dona Flora, velhinha ranzinza e com o grau das lentes dos óculos muito baixo para corrigir seu problema de visão, presenciou tudo, atribuiu o golpe a Azaléia e como uma autêntica fofoqueira, espalhou para a cidade inteira.

Azaléia era oficialmente uma gatuna mau caráter, que se aproveitava da boa fé dos comerciantes para aplicar sórdidos golpes. Seus feitos foram inflacionados, de modo que se contava que até estátua sumida de Santo Agostinho era sua culpa.  A casa foi pixada com palavras de ordem e protesto. O capelão fez o sermão daquele Domingo falando sobre o ocorrido e meteu o santo pau na pobre garota. As lojas não lhe vendiam nada parcelado. Entradas no cinema lhe eram negadas. Nenhum garotão boa pinta lhe convidava pra sair. A vida de Azaléia tinha virado um inferno.

Sendo assim, nada mais restava para Azaléia. Era hora de abandonar aquela cidadezinha de merda. Para sua irmã Azália, um mundo de possibilidades abriu-se. Hoje ela ainda percorre cidades do interior aplicando seus pequenos golpes, sempre fazendo questão de apresentar-se como Azaléia.

Pobres gêmeas…

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