História incompl

Se eu fosse responsável pela contratação de uma ascensorista para minha empresa, colocaria como pré-requisito “não ser curiosa”. Sério. Nunca trabalhei em tal função, mas deve ser muito desconfortável sentar num banquinho e ouvir conversas aleatórias sem ter um raciocínio para seguir. Não é questão de bisbilhotar a vida alheia. Simplesmente não dá para exercer a função numa bolha hermeticamente fechada e isolada do mundo real. Ainda que esse mundo seja a cabine de um elevador.

–  Ahhhhhh menina! Deixa eu te contar da festa ontem! Bafão!
– Conta aí. Não esconda nada porque você sabe que eu descubro.
– Hahahaha… isso é verdade. Então… o Paulo, aquele da Contabilidade. Eu vi o Paulo fazendo você não imagina o quê!
–  Vai! Não enrola!
– O Paulo… ih, chegou… Então o Paulo es… *voz sumindo*

Fale a verdade: não dá uma agonia, um comichão desgraçado para saber o que raios o tal do Paulo da Contabilidade estava fazendo na festa? Dá vontade de travar o elevador e sair correndo atrás da dupla, só pra ouvir o final da história.

Sem querer filosofar, a vida está cheia de histórias incompletas.

Outro dia estava esperando ônibus para voltar para casa, após um cansativo dia de trabalho. É, não dê risada, seu pilantra. Eu pego ônibus sim, e daí? Bom…. estava eu esperando o coletivo quando um senhor com uma verruga estranha no lado do nariz (ah, vá… você SABE que é impossível não reparar e ficar encarando um negócio desses)  me perguntou que horas o ônibus chegava em Itatiba. Como estou rigorosamente a par dos  horários e tempo de trajeto, entreguei as informações de bandeja.

Ele retribuiu – como geralmente acontece – contando sua história. Disse que precisava chegar em Itatiba até 19:05, porque de lá pegaria outro ônibus, nesse horário, para Bragança Paulista. Minha conta dizia que ele chegaria as 19:00, portanto, qualquer mínima obstrução, demora, trânsito, pneu furado… enfim, qualquer coisa que impedisse a perfeição ferraria  a logística da coisa toda.

Eu desci do ônibus alguns pontos antes do cidadão-da-verruga e, portanto,  fiquei em modo ascensorista: sem saber como terminou a saga cronometrada. Frustrante.

Se você trabalha com atendimento ao público sabe exatamente o que estou falando. As pessoas tem como necessidade – sem exagero – contar seus problemas, não importando se o ouvinte vai ou não interferir no enredo. Ela TEM que partilhar o que está vivendo. De impostos atrasados a maridos violentos. Parece até condição básica do ser humano.

Eu não me excluo dessa característica, antes que a nobre leitora pense que sou um snob (snob? Putz…). A partir do momento que tenho (mal e porcamente) um blog e conto tudo o que vocês leram acima (leram?), não estou fazendo outra coisa senão dividir experiências e situações que eu vivi. Só que eu procuro não ser (muito) chato e só conto as coisas legais (ou pelo menos que eu considero legais). Sendo mais humilde, ao menos aquelas que vão forçar um sorrisinho ou uma reflexão. Só vou conseguir te fazer chorar se for de desgosto. Hummmmm….

A propósito: encontrei o tio-da-verruga outra vez. E… vitória! Logística WIN!

Um pensamento sobre “História incompl

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