Hora de declamar. Declame você também.

No meu tempo de Ensino Médio tive uma professora chamada Ângela Minutti. Não eram todos os alunos capazes de entender o jeitinho dela de ser e por isso não tinha um número considerável de admiradores. Talvez você mesmo não sentisse simpatia por uma professora que ficava apressando os alunos para terminar a prova, mesmo faltando 45 minutos para esgotar o tempo. Ela também não tinha a obrigação de gostar de todo mundo e, portanto, sinto-me privilegiado (alô André… Alô Caio) de pertencer a um seleto grupo que já frequentou sua casa.

Certa vez a magíster Ângela me chamou a parte e me propôs um desafio: eu deveria declamar um poema para classe. Bom… nada demais. Era só imprimir e ler. O quê? Não podia ler? Tinha que decorar? Bom.. ainda sim eu poderia contar com o apoio dos amigos. Hã? Eu não poderia contar a ninguém? Seria surpresa? E INTERROMPENDO A AULA DE SOPETÃO??? Pois é… de fato seria um desafio. Antes que me questionem, as boas maneiras me impediram de perguntar qual o tamanho do agrado que minha nota final receberia. O futuro viria a provar que não haveria agrado na nota…

Eu aceitei. Sei lá porque mas aceitei.

Fessora Ângela também me disse que mais uma pessoa faria o mesmo. Era questão de combinar a ordem. Aproveitei que teria uma parceira de micagem e treinamos a entonação, o ritmo, a fluência e a altura da voz. Tudo tinha que sair perfeito. Já que é pra fazer uma maluquice dessas, resolvemos fazer de forma honesta. E não é que a travessura parecia promissora?

Chegou o dia da apresentação. Ela entra na sala e não dá nenhuma pista. Nem na chamada. Começa a aula de sintaxe. Normalmente eu não prestaria atenção na aula  e tendo o peso de um Augusto dos Anjos nos ombros, fiquei absolutamente disperso. Estrategicamente estava posicionado no meio da classe: excelente visão para todos.

Eis que ela olha rapidamente pra mim e dá uma piscadinha. Não tinha mais o que esperar. Olhei para os meus amigos, soltei um baixinho “desejem boa sorte“. “É agora”. Levantei e num gesto dramático subi na carteira. Minha voz saiu densa e poderosa:

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!”

Declamei com vontade e com desprezo, colocando terror nas palavras. Deixando a modéstia de lado, sou um ator de razoável para bom. Na parte dos vermes aproveitei para apontar para alguns desafetos. Não sei se causou algum impacto, mas o sutil recado tinha sido dado.

Sinceramente eu nunca tinha ouvido um silêncio tão grande. Meus amigos mais próximos não tinham noção do que eu ia fazer e o meu pedido de boa sorte levou-os da confusão ao espanto. Acho que a cara de surpresa deles tinha contagiado a sala. Se nem eles, que eram muito próximos, estavam entendendo lhufas, o que dirá o cidadão que senta do outro lado e mal fala bom dia? Enquanto eu declamava, alguns não respiravam.

Terminei as palavras pouco românticas e logo em seguida entrou a Caroline também declamando Augusto dos Anjos. Eu sentei e senti os olhares dos amigos me fuzilando numa expressão muito clara de WTF???? Apenas sorri e deixei a adrenalina passar enquanto a magia continuava nas palavras da Caroline. Se não me engano ela declamou Versos Íntimos e ainda ofereceu um fósforo para alguém.

Depois que toda a tensão passou, eu ria. De alívio, de felicidade pelo plano maquiavélico do Cebolinha ter dado certo. Ria da cara de todo mundo achando que eu tinha oficialmente e irrevogavelmente ficado louco. Talvez eles estivessem certos.

Minha memória sofreu um lapso e não consigo lembrar se Dona Ângela simplesmente virou para o quadro negro e continuou a aula ou explicou o que diabos tinha acontecido. O resultado final foi excelente. Todo mundo gostou e muitos disseram que não teriam coragem de fazer o mesmo.

E você, destemido caro leitor, audaciosa leitora? Teria coragem de declamar o poema acima para seus amigos? Quer tentar? Combine com sua professora (ou melhor… nem combine! Surpreenda a tia também) e depois me conte como foi. No mínimo você vai ser assunto durante o dia…

2 pensamentos sobre “Hora de declamar. Declame você também.

  1. Aff….. eu lembro como se fosse hj…. foi maravilhoso… quase bati em vc para descer daquela carteira e parar de gritar… até entender (ou não) o q estava acontecendo…..

    e sim… a Carol ofereceu um fósforo…. e foi exatamente esse o poema q ela declamou… Versos Íntimos….. maravilhoso tbm…..

    Só vcs mesmo para tamanha coragem…. mas valeu a pena…!!!!

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