Eudóxia

Mais uma noite histórica reuniu a nata da sociedade itatibense e esse aspirante a escriba de talento no Teatro Ralino Zambotto. No palco, um piano de cauda Fritz Dobbert prenunciava o que veríamos. Recital. Apesar de parecer tão difícil quanto o pote de ouro no fim do arco-íris, é muito mais simples. Principalmente quando o espetáculo é comandado por Eudóxia de Barros, uma das mais prodigiosas pianistas do Brasil.

Eudóxia entrou no palco com um vestido longo e verde. Noite de gala. Explicou um pouco sobre a primeira valsa e seu respectivo compositor – Debussy em La plus que lente (mais que lenta) –  e disparou a primeira da noite: “Vou pedir para desligar completamente o ar condicionado. Já é a segunda vez que eu peço. É muito ruim começar com as mãos frias. E desliga o microfone também“. Pôxa pessoal da técnica… custava desligar o ar na primeira vez? Olha a vergonha!

E assim foi caminhando o concerto. Faurè e Chopin completaram a primeira parte. E aí a coisa degringolou um pouco.

Eudóxia tem um jeitinho todo didático de lidar com o público. Ela falava sobre a técnica, compasso, dissonância das notas e outras coisas que 80% da platéia (inclusive eu), não entendeu. Ela até se enrolou um pouco em determinada parte, quando disse que o compasso 6 por 8 era tocado em 4 tempos, mas que havia acentos entre o 1º e o 3º tempo, onde pulava-se o segundo e o quarto. Ou algo assim. Ela ainda tentou um “deixa eu explicar melhor” que quase me fez dar risada. Alto. Explicar melhor? Puxa! Agora sim vai dar pra entender…

Acho que a platéia normal de Eudóxia é formada por gente que tem o piano na veia. Ou, pelo menos, que entende como funciona na teoria. É como você participar de uma aula de sueco avançado. Vai ficar boiando na conversa, sem que isso te impeça de rir quando todo mundo der risada. Ela não soube adaptar seu brilho para uma platéia leiga. Tínhamos o Sol, mas só conseguimos enxergar parte dos raios que dela emanavam.

Mas não pense erudito leitor que o show de Eudóxia não foi bom. Ao contrário, foi lindo de ver. A mão da pianista deslizava suavemente pelo piano, flutuava entre as teclas graves e agudas, acertando cada uma delas com precisão. O teatro pulsava nas tocatas, estudos, valsas e tangos. Mesmo sem entender, todo mundo sentia a música invadir a circulação, a respiração e outras funções vitais. Era relaxante. Era estimulante. Tudo ao mesmo tempo.

O ponto alto foi o bis programado (já que ninguém pediu, mas agradecemos por ter vindo) e que acabou resumindo o que eu disse nesse texto: a fantástica “Grande Fantasia Triunphal sobre o Hino Nacional Brasileiro” de Gottschalk, me fez arregalar os olhos diante do milagre da multiplicação dos dedos. Cada mão de Eudóxia parecia ter 10 exemplares constituídos de 3 falanges. A velocidade levou minha coordenação motora à nocout. Foi frenético. Delicioso. Encantou. Entretanto, não foi o suficiente para que se percebesse a genialidade da mulher. Veja:

Seres humanos tem duas mãos: a direta e a esquerda. Tá, ok, isso é óbvio. No piano, a mão esquerda toca a base (ou seja, uma repetição de notas que ficam ao fundo) e a direita toca o solo (aquela parte mais alta e que geralmente é a mais lembrada). Eudóxia intercalava as mãos e muitas vezes tocava a base com a direita e o solo com a esquerda, nas notas mais graves. Observe você mesmo aos (4:47 – 4:49). Isso é muito difícil  de fazer porque vai na contra-mão do comum. Não é todo mundo que consegue inverter base-solo sem perder o ritmo ou errar a nota.

Será que alguém percebeu?

Pra completar, o programa do Recital anunciou uma música de Camargo Guarnieri chamada “Dansa Brasileira“. Pois é meu caro… o programa do recital escreveu dança assim mesmo, com “S”.

E sabe da melhor? Eles ACERTARAM. Nesse caso, realmente é Dansa. São os mistérios do mundo erudito, de onde estivemos tão próximos e absorvemos tão pouco.

Um concerto técnico, experiente e variado. Um público um pouco perdido e que não encontrou o apoio necessário. Um choque de dois mundos. Assim foi Eudóxia de Barros em Itatiba.

A propósito: Durou apenas 1 hora e 45 minutos. Gostaria de vê-la tocar outras músicas, principalmente de Chiquinha Gonzaga, da qual é reconhecidamente especialista.

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