Pra quem você daria uma?

“Dois pontinhos luminosos surgem ao fundo, quebrando a escuridão. Olhando bem, percebe-se que eles crescem gradativamente, bem como o barulho que os acompanham. Poderiam ser classificados como “a salvação da lavoura”, mas não é esse o caso. Quando esse dois pontinhos luminosos tomaram a forma de dois faróis de xénon e passaram galopantes pela outra faixa da estrada, tudo voltou a ser trevas. Só restou uma penumbra vermelha que aos poucos foi se apagando, até sumir por completo”.

A cena que você acabou de ler descreve com muita felicidade, pra não dizer um grau elevado de inteligência, sagacidade, estilo, graça, beleza, perfeição… *picarro* Hum… digo… ela descreve o alegre momento em que você acha que vai ganhar uma carona, mas acaba sumariamente ignorado por outrem. Frustrante.

Por que as pessoas não dão carona?

Na verdade elas dão, mas não para qualquer um. São como mocinhas puritanas que selecionam muito bem para quem vão fornecer todo o seu… amor. O ato de dirigir para outra pessoa sem cobrar dinheiro ocorre em grande parte entre amigos ou pessoas que tem interesses em comum (trabalho, escola, balada). O ato é um gesto de desprendimento e altruísmo, exceto quando o caronado – a pessoa que recebe o dom divino – é justamente a pessoa que você deseja… er… copular.

A carona é tida como uma das formas mais eficientes para lidar com o problema do trânsito nas grandes cidades e, de quebra, contribui para que menos poluição seja despejada na atmosfera. Há aqueles que defendem faixas exclusivas para os carros com mais de 2 pessoas. Eu, particularmente, acho que chegaremos ao ponto de ter que reservar uma faixa exclusiva para quem não se encaixa em nenhuma categoria de faixa exclusiva.

Um aspecto interessante da carona é que ela aparece quando você menos espera. Entretanto, se você fica torcendo, rezando ou mesmo fazendo a dança da chuva – que nesse caso seria absolutamente inútil – ela não aparece. Concomitantemente (desculpa aí, hein?), a parte que faz o sangue subir até as têmporas e quase vazar pelos buracos da face é quando seu vizinho/amigo/parente passa por um ponto de ônibus, percebe que você está lá, não oferece carona, passa direto e ainda FAZ TCHAUZINHO!!!! É ou não é pra realizar, no indivíduo, uma sessão de lavagem estomacal… a vácuo?

Penso agora nas pessoas que combinam de rachar o custo da gasolina para garantir uma carona diária. E se o dono do carro fica doente, sai mais cedo, tem que voltar mais tarde ou simplesmente quer fazer alguma coisa diferente? Ele fica privado da sua liberdade em respeito ao outro. Ou não. Talvez ele ligue o botão do “dane-se” e deixe o amigão a ver navios, mesmo o dito cujo estando a 500 km do porto mais próximo. Situação incômoda para os dois lados, principalmente quando não há outro jeito de voltar pra casa.

Agora… dou a maior moral pro pessoal que fica na beira da estrada com o dedinho indicador polegar apontando pro lado e, principalmente, pros mais organizados que se utilizam de placar construídas com neon piscante mostrando o local de destino. Tem que ser muito macho para estar em qualquer um dos lados dessa equação: por um lado, vai saber qual a história e as intenções do tiozão suado que está implorando no acostamento. Por outro lado, vai saber a história e as intenções do boa pinta que está todo pimpão dentro do cubículo de ar condicionado.

Por essas e por outras é que eu pergunto: pra quem você daria uma?

Carona, claro.

4 pensamentos sobre “Pra quem você daria uma?

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