O Rei da Mesa

O título desse texto poderia ter sido inspirado nas traduções de nomes de filmes gringos. Se você procurar, aliás, é bem capaz de achar. A idéia, no entanto, é continuar minha autobiografia a conta gotas com o momento mais espetacular e glorioso de toda a minha carreira esportiva: fui campeão de um torneio de truco municipal de tênis de mesa.

Logo de cara eu já aviso que não queria ir, portanto, a conquista não é só minha. Tinha mudado para Itatiba uns 2 meses antes e minha última preocupação era participar de um torneio em um sábado pela manhã. Fui convencido por três amigos, menos de 12 horas antes. Até um leve treino numa mesa menor, torta, com raquetes adaptadas e com uma bolinha mais pesada que roda de rolimã nós fizemos…

Já que tinha me colocado nessa situação, achei digno estabelecer um objetivo: ganhar ao menos 1 partida. Justo. Acordar cedo pra ser derrotado logo de cara era o cúmulo. 1 vitória me deixaria satisfeito e com boas recordações. Pelo menos daria pra contar algum feito quando chegasse em casa.

Lembro de pouca coisa do torneio em si. Ganhei a partida um. A dois também. Fui ganhando partidas sem me preocupar com tabela, classificação ou whatever… Era tudo lucro. Até que um dos meus amigos vira e me fala: “Cara! Você tá na final! Já garantiu a prata!“. Como assim amigo? Final? Jáááá? Pois é… Só tive tempo e tomar uma água e partir pro combate… Vocês não imaginam o quão pilhado eu estava. De expectativa zero até ansiedade em níveis perigosos em 2 horas…

Ganhei o primeiro set. Perdi o segundo e terceiro. Estava perdendo o quarto set quando resolvi pedir um tempo para hã… amarrar o sapato. É… eu tive que inventar alguma coisa para respirar e me concentrar. Deu certo. Venci e fomos ao tie-break. Confesso que só lembro do último e derradeiro ponto. Ei-lo:

Saque meu da direita (minha direita) para a esquerda (direita dele). Devolução na paralela. Rebatida cruzada. E a devolução dele (acho que o nome era Thiago), cruzada, foi lenta e caprichosamente para fora. Fui acompanhando com o olhar até que a bolinha tocasse o chão. Desabei de costas, com um sorriso que tocava as duas orelhas. EU ERA CAMPEÃO!

Quem me tirou do torpor inicial foi meu amigo Lucas, um dos que tinham me convencido a encarar a disputa. Usou palavras sensíveis que até hoje eu me lembro: “filho da puta! Filho da puta! Você ganhou essa bosta, seu filho da puta!” Poeticamente épico, né não? Além de (carinhosamente) me xingar, também me ajudou a levantar. As pernas ficaram surpreendentemente firmes e descobri que era capaz de andar e continuar sorrindo. Por uma questão de fair-play fui cumprimentar o meu oponente, que estava se debulhando em lágrimas. O treinador dele o consolava, dizendo que ele era melhor, mas não ganhou por falta de concentração. Valeu, hein!

Ganhei uma medalha, que, aliás, preciso encontrar. Deve estar no único lugar que eu não olhei. O troféu ficou para a escola e deve estar guardado num armário até hoje. Além da memória, tenho também a raquete e a bolinha que me fez campeão.

Acho que não preciso dizer, mas deve ficar registrado: depois desse torneio não ganhei mais nada. Nenhum torneio, campeonato, interclasses. Necas de pitibiriba. Minha teoria diz que gastei toda a minha estrela/sorte nesse primeiro Inter-escolar.

E não em arrependo nem por um segundo.

Bonus Track: Acabei mudando de colégio no mês seguinte. E adivinhem para onde eu fui? Justamente para o colégio do meu oponente. Detalhe que numa aula de Ed. Fisica, o professor (que era o treinador do rapaz) comentou que das quatro categorias no torneio de tênis de mesa, o colégio tinha sido campeão em 3. Ainda bem que ele foi sensato o suficiente para não apontar o culpado pela derrota na quarta taça, que, por sinal, estava sentado em uma das carteiras, aproveitando o momento saia justa.

5 pensamentos sobre “O Rei da Mesa

  1. Salve, meu caro amigo!

    Lembro-me como se fosse hoje dessa conquista emocionante e surpreendente que ficará marcada para sempre em nossos corações.
    Acho que o que te fez campeão foram a frieza e humildade com que encarou o torneio. Soube se opreveitar da falta de fovoritismo para passar pelos seus oponentes e construir sua vitória!
    Confesso que minhas palavras de congratulações não foram lá das mais carinhosas, mas sairam da minha boca como aquele “CHUPA” que mandamos quando o “Timão” ganha do São Paulo ou do Palmeiras…
    Senti muita alegria e orgulho do meu velho amigo

    Abraços!

    • Mas é uma ilustre visita! Uma testemunha ocular dos fatos, que não me deixa mentir sozinho!

      Obrigado pelas palavras. E eu entendi suas palavras carinhosas. Saiu espontaneamente, do fundo da alma. Hahahaha. Eu faria o mesmo no seu lugar…

      Grande abraço Mestre

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