Resenha: RC em Detalhes

Em todo final de ano a tradição se repete: farta ceia natalina, panetones de marcas desconhecidas que simplesmente surgem na sua mesa, espumantes de qualidade duvidosa naquela cesta da firma. Na televisão, um especial da Xuxa, outro do Didi e olha só… não pode faltar o show do Rei Roberto Carlos.

Mas afinal, quem é Roberto Carlos e quem o coroou Rei?

A biografia escrita e organizada por Paulo César de Araújo tenta revelar e desmistificar um dos maiores astros da música brasileira. E consegue muito satisfatoriamente cumprir seu objetivo, não só porque fala da carreira de Roberto Carlos, como também de sua vida pessoal – revelando uma namorada que poucos conheciam. É pródiga também na parte que mais me fascina: a reconstrução histórica da época.

Antes de mais nada é bom salientar que o autor muitas vezes foge do papel de mero escriba e acaba se colocando na pele de um fã sem muita crítica. Algo que torna essa condição evidente é o veneno e as palavras ríspidas dirigidas a Ronaldo Bôscoli e a turma da Bossa Nova (segundo o autor, por terem censurado e barrado RC em sua incursão pela bossa nova). O que Paulo César esquece de criticar, no entanto, é que o próprio Roberto tentou barrar a mudança de nome de Erasmo Esteves, alegando que haveria um excesso de “Carlos” no meio artístico. RC pode. Bôscoli não.

Logo na introdução já se percebe uma certa obsessão fora dos padrões de um biógrafo. Talvez esse seja um dos motivos para que Robertão tenha entrado na Justiça impedindo uma nova reimpressão da obra, além de tirar de circulação aquelas já impressas – em estoque ou vendidas às livrarias. RC afirma também que lá há inverdades e “ofensas a pessoas queridas”, sem citar quais. Já o autor rebate e afirma que despendeu 15 anos de sua vida em pesquisas e entrevistas.

No tocante ao livro em si, achei bem estruturado. Conta em blocos quase cronológicos como Roberto saiu do anonimato em Cachoeiro do Itapemirim e partiu para o estrelato mundial. E a grande vitória é contar essa trajetória mostrando que RC também teve que enfrentar muitas portas na cara, mas, por outro lado, pode-se considerar sortudo por muitas vezes estar na hora certa, no momento certo e, principalmente, com as pessoas certas. Nomes como Evandro Ribeiro, Edy Silva, Carlito Maia, Magaldi e Prosperi são os tijolinhos na construção do astro.

Fato curioso é que o autor não se prende a figura Roberto Carlos. De fato, não é raro passar duas ou três páginas sem citar o nome, direita ou indiretamente, do cantor. Se você não estiver 100% focado no livro pode momentaneamente esquecer que está lendo uma biografia e achar que é um livro sobre a história da música. Isso é ruim? Não sei. Depende da sua expectativa.

Algumas coisas parecem exageradas – como o episódio da volta do festival de San Remo, na Itália. Outras acabam ficando sem uma base mais sólida, como as letras das múicas no meio do texto. Quem conhece as canções realiza o objetivo do escritor. Quem não conhece apenas lê as estrofes e não compreende a musicalidade envolvida, que, aliás, é o meu caso. Tive que pesquisar muitas delas no Youtube para entender o que se queria dizer… Se bem que esse ponto é comum a biografias de pessoas relacioandas a música.

O grande defeito do livro é trazer declarações de Robertos Carlos (e de outras pessoas) sem que a fonte seja citada. Araújo diz que fez entrevistas e uma profunda pesquisa para reunir o material. Entretanto, na hora de passar para o papel, não dá pra saber se tal frase foi retirada de revistas, jornais, coletivas de impresa, reprodução de conversa com amigos ou mesmo se foi alguma recriação ficcional para melhor ilustrar o tema. Sem citar a fonte, as declarações perdem um pouco a credibilidade, o que não é nada bom para uma biografia.

Depois de todas essas seríssimas análises, a pergunta persiste: Por que insistem em chamar Roberto Carlos de Rei?

Acredito que cada um tenha uma interpretação, já que cada página do livro é uma peça para montar o quebra-cabeças do ie-ie-ie romântico. Logo abaixo estão alguns pitacos sobre o que eu entendi. Se você não quiser ser influenciado pela minha interpretação, que pode tanto ajudar como atrapalhar, o texto termina aqui. Obrigado por ter lido, hein? Não deixe de procurar o livro em “pdf”, ok? Boa leitura! Tchau!

Se você decidiu continuar, digo primeiramente que Roberto Carlos começou preenchendo uma lacuna deixada por Sérgio Mallandro Murilo. Os jovens brasileiros precisavam de um outro ídolo e Roberto estava no lugar certo, cantando a coisa certa. O rock de Robertão era algo novo, inusitado, que foi suficiente para fazer Sergio Murilo ser esquecido e ainda extrapolou qualquer expectativa do público. Além de tudo, era fácil de repetir em casa, o que contribuiu para a fixação e repetição ad eternum.

Erasmo Carlos tem papel fundamental na coroação. As letras eram muito boas, inéditas e a produção contínua. Nunca faltava um sucesso novo para Roberto gravar. A dupla funciona em sintonia e, por isso, não deixa que nenhum aspecto da música fiquei devendo. Com isso, era possível lançar um LP por ano e, assim, manter o público cativo e angariar novos fãs.

Outro fator que garantiu o sucesso de Roberto foi a mescla de uma carreira pautada pela segurança e pelo pionerismo. Segurança porque cuidava-se muito bem da imagem pública de RC. Escândalos eram mínimos e logo abafados. Roberto sempre defende o que é maioria absoluta, evitando qualquer polêmica. Maysa, Elis e outros astros da época não tiveram a mesma sorte ou cuidado.

Só que Roberto também foi pioneiro: nas músicas que cantava, nas roupas que usava, nos programas que apresentava, nos festivais que participava. A marca maior (e nem dá pra contar a Jovem Guarda) foi a temporada de estréia no Canecão. Nenhum cantor até então tinha se arriscado naquele ponto.

Por fim, preciso mencionar a afinação, senso melódico e a simpatia de Roberto?

Se Roberto Carlos não é o seu Rei, pode ter certeza que todas as demonstrações de carinho que você vê na televisão – antes, durante e depois daqueles especiais – não são em vão. Após ler essa biografia, você não sairá, necessariamente, cantando “Eu sou terrível“, “Parei na contra-mão” e “É proibido fumar“, mas, assim como eu, vai respeitar muito mais o que fez e faz o cantor mais ouvido da História do rádio brasileiro.

Moedinha número 1

3 pensamentos sobre “Resenha: RC em Detalhes

  1. Roberto Carlos é indiscutivelmente um fenômeno. Assim como todos nós tem seus defeitos e virtudes. O que não se pode é achar que ele é isento de critícas, só por que é Roberto Carlos

  2. Roberto é o Rei da Musica, e jamais perderá esse título porque simplesmente não existe outro artista de tamanha grandeza, com um talento enorme tanto pra compor como para cantar e apesar de ser quem ele é ainda conserva sua humildade…outros por muito menos se acham. Ele cuidou muito bem da sua imagem e da sua carreira. Ja vendeu mais de 120 milhões de discos no mundo todo, canta em inglês, espanhol, português, italiano, francês e até em hebraico. É um artista consagrado e respeitado no mundo todo. Acho que o Brasil não valoriza o que é bom como deveria, esse é o país das bundas, futebol, carnaval, praia, corrupção, etc….

  3. Pingback: Libertem as biografias! | Ideia Fix

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