Quanto vale uma boa ação?

Quantos de vocês tem coragem de parar, sem nenhum tipo de premeditação ou planejamento, para realizar uma boa ação, no meio do movimentado dia-a-dia em que vivemos? Quantos de vocês interrompem um deslocamento para atender o inusitado pedido de um desconhecido? Passei por uma situação semelhante e comecei a pensar sobre o preço da boa ação. Mas vamos contar a história, para que a reflexão fique com algum contexto.

Precisa MESMO de um dia específico pra isso?

Voltava eu, todo serelepe, da faculdade. Não tinha matado aula, mas mesmo assim era cedo – ou seja, 21:00. Faço os 20 minutos que separam meu lar doce lar do centro de estudos a pé, porque quem só caminha tem saúde. Estava obviamente escuro, e eu passava por uma rua deserta, até de carros.

Ouvia um podcast qualquer COM O CELULAR NA MÃO, quando uma voz me chamou, pedindo para que eu fizesse uma ligação do meu celular. Era um senhor e ele estava dentro de uma casa, atrás de um muro de meio metro de altura. Em cidades do interior algumas casa não tem portões altos, grades, cercas de arame farpado ou cacos de vidro tunados com estricnina. Era o caso da simpática residência de tijolinhos.

O tiozinho me chamou e, pela voz, já se percebia que estava meio mamado. Voz pastosa, sem firmeza alguma. Aquilo que o ébrio sóbrio leitor  não está acostumado a vivenciar. Mesmo sendo um tiozinho, dentro de uma casa, a luz amarela dentro do instinto acendeu. Não dava para falar que estava sem o celular (maldita hora de não usar o fone de ouvido), então dei a criativa desculpa da falta de crédito. O tio estava bebaça, mas ainda tinha poder de raciocínio: “não tem problema… ó… é só ligar a cobrar que ele atende“. Perguntei o motivo da ligação. Ele me disse que tinha esquecido o celular dele na casa do Daniel e que era pro cara lá guardar o celular dele. Seja lá quem fosse o tal do Daniel…

A rua deserta, durante a noite e alguém pedindo pra eu usar o celular numa história no mínimo estranha. Não cheirava bem. Em vez de fazer o que qualquer macho faria, ou seja, correr o mais rápido que as pernas aguentassem, acabei fazendo o que o cara queria, por via das dúvidas. Perguntei o número, disquei (a cobrar, evidente) e, para tirar qualquer resquício de dúvida, coloquei no Viva Voz. Assim ele saberia que eu não estava fingindo.

Alô, seu Benedito? Estou aqui com o seu Daniel e ele me pediu pra eu falar pro senhor guardar o celular dele, que ele esqueceu aí com o senhor

Ih rapaz… e não é que esqueceu mesmo? Pode deixar que eu vou guardar“.

Respirei um pouco mais aliviado. A história era verdadeira, mas ainda não excluía o fato de que a qualquer momento ele poderia sacar um revólver, faca ou o CD do Justin Bibier para me forçar a entregar qualqur coisa. Qualquer coisa mesmo. Enfim… desliguei e garanti para o tiozinho que estava tudo bem, que era só ele ir buscar o celular.

Ele agradeceu e estendeu a mão. Como sou um lorde, estendi a minha para cumprimentá-lo. Quando demos o aperto que selaria a paz e minha salvação, o cidadão me puxou e eu bati o joelho no muro. Aí eu quase me borrei.

Pensei: “pronto, agora eu to ferrado. Vai me sequestrar“. Mas não. Ele só queria chacoalhar a minha mão com mais intensidade e reafirmar que não queria me sacanear, que estava de boa, que agradecia o favor, que era só o Daniel guardar o celular “e tá vendo só? não disse que não era nada demais, dava até pra você ter ligado a cobrar…”. Enquanto meu braço subia e descia seguidas vezes.

Mais uma vez, como um polido lorde, consegui me desvencilhar, dei boa noite e me mandei. Ou melhor, vazei dali o mais rápido possível, porque a sensação de estar sendo observado ainda era enorme. Cheguei em casa totalmente em segurança.

Depois que o fato se consuma e o final é feliz, fica claro que não era nada de extraordinário parar e fazer um favor pro amigo desmemoriado. Não custou absolutamente nada fazer a ligação, deixou o próximo satisfeito e eu ainda acrescentei um pontinho positivo, na grande caminhada para o Paraíso. Mas na hora foi completamente o oposto. De repente, se a mesma situação acontecer de novo, poderei tomar outra decisão.

Me parece um ciclo vicioso: as pessoas ficam arredias e desconfiadas quando ouvem histórias de violência, mas quando precisam de alguma coisa de um desconhecido, pedem. Estes, por sua vez, se negam a ajudar, porque também são desconfiados e arredios. A negativa em ajudar só aumenta o grau de tensão, não permitindo que o ciclo se quebre, já que cada vez mais desconfiados e aredios ficarão.

Quanto vale uma boa ação para você? Vale o desperdício do seu tempo? Vale a possibilidade de ser assaltado? Como fazer para uma boa ação autruísta ter um valor agregado maior? Isso é possível? E, por último, quando é que eu vou parar de perguntar e deixar você comer seu brigadeiro de panela em paz?

Um pensamento sobre “Quanto vale uma boa ação?

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