Alumia meu amor, alumia

Quase 24 horas sem energia elétrica. Esse foi o saldo de uma ventania que atingiu o estado de São Paulo nessa semana. As árvores balançaram, os fios malignos se tocaram e uma chuva de faíscas iluminou o tenebroso crepúsculo que se aproximava. Assim, a noite foi a base de velas, e o dia seguinte poderia ser metaforicamente jogado na lata do lixo, porque foi completamente inútil.

Completamente não. No mínimo, abre uma importante reflexão sobre a dependência que temos dessa ferramenta chamada ELETRICIDADE.

Começemos essa reflexão de forma cronológica e, principalmente, pelo óbvio: as lâmpadas não mais puderam irradiar o seu fulgor. Em outras palavras, ficou escuro pra cacete. Sem esses bulbos preparados para espatifar e espalhar caquinhos até onde você julgava impossível, a canela encontra mais facilmente a quina da mesa, o rabo do gato parece procurar a sola do seu pé e a porta da armário aparece magicamente aberta, em berço esplêndido para acertar a sua testa.

Mas calma… eu vou te ajudar a encarar esse dia:

Acenda uma vela. Assim você tem várias opções de entretenimento, uma vez que o computador, a televisão e o videogame estarão dormindo. Veja, você pode (tentar) ler um livro, (tentar) brincar de palavras cruzadas, (tentar) jogar baralho, (tentar) qualquer coisa. As tentativas podem te deixar com dor de cabeça, já que você forçou a vista tentando transformar seu globo ocular em farol de carro.

Cansou, né? Hora de chegar vivo no banheiro para realizar todo aquele ritual antes de dormir. Ou você acha que vai achar outra alternativa viável para se distrair? Ah.. bom… então vamos lá. Você leva a chama, apoia a dita cuja na pia e defeca a luz de velas. Não é romântico? Agora você se limpa, tendo o cuidado de ter certeza que está tudo limpinho mesmo. Limpou? Ótimo. Agora lave a mãos e escove os dentes. NESSA ORDEM PELAMORDOSMEUSFILHINHOS… Bom… vá pra cama porque está frio.

Chegou no quarto? Ótimo. Deite e assopre a vela que está no seu criado mudo. Ahhhhh… agora lascou, hein? Você não tem criado mudo? Apague a vela e vá tateando. É uma excelente hora para testar a sua memória fotográfica. E sim… aquela cadeira SEMPRE ESTEVE AÍ, não adianta dizer que ela brotou só porque você acabou de socar o dedinho no pé dela.

Feche os olhos e durma. Nem pense em levantar para beber água ou fazer aquele xixizinho maroto. Você não vai conseguir acender outra vela e já provou que é péssimo apostando na sua memória fotográfica.

Oh! Os passarinhos cantam, a luz solar invade os cômodo da casa! É DIA!!!

Você levanta serelepe, desvia da cadeira (eu não disse que ela sempre esteve aí?) e vai tomar banho. Fica peladinho (ui) e FUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU….. tá gelado. Chuveiro no modo polar. Mas você é esperto. Esquenta água no fogão e leva para o box. Um banho de canequinha pra começar bem o dia.

Você vai sair de casa e tem que abrir o portão automático no manual. Isso significa destrancar alguns cadeados e, principalmente, lembrar a sequência daquele cadeado numérico que o seu cunhado falou que era excelente. Nisso você já perdeu meia hora. Ufa… conseguiu sair de casa, está salvo. Você sim, mas sua esposa não.

Moderna Dona-de-casa

Vamos lá querida dona de casa. Temos muito trabalho pra fazer. Ou não. A roupa não pode ser colocada na máquina e nem o tanquinho. Esfregar tudo na mão? NEM MORTA! O que já está lavado não pode ser passado. A casa não pode ser aspirada.

Já sei o que você pode fazer… reze. Reze para que todos os alimentos armazenados na geladeira aguentem firme até que a eletricidade volte. Se bem que você já sabe que o ovo vai apodrecer e a manteiga vai virar sopa. Mas ainda dá para torcer por todas aquelas carnes caras no freezer. ELAS TEM QUE SOBREVIVER!

Faça um café. Ferva a água no fogão e separe o pó. HEY! Tem que usar o fósforo! Olha lá todo o gás escapando…. Você e essa mania de usar o botão de acendimento automático. Isso… jogue toda essa água quente no pó e beba um delicioso suco de borra.

Hora de aproveitar tudo o que uma casa sem luz oferece. Alegre-se! Hoje é aquele adorável dia de folga que você sempre falou quando dava bronca nos seus filhos. Tire esse dia pra você. Vá na janela e faça as unhas. Dá, inclusive, pra colocar a cadeira na varanda e tirar a cutícula pra vizinhança inteira ver que você é asseada.

O dia vai sumindo, a luminosidade da tarde vai dando adeus e você ouve o caminhão da empresa – que é muito bem paga – chegar para com conserto. E, por que não, para o concerto. Fios, escada, holofote. A família reunida assiste ao homens de capacete construindo a modernidade… Todos torcem para que eles simplesmente não desistam e tomem o rumo de suas respectivas casas. Hoje não, hoje não, hoje não…

Hoje sim…

E que se faça a luz! Viva! Finalmente tudo está…

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