A velha organista cega

Oportunidade
sf
(lat opportunitate) 1 Qualidade de oportuno. 2 Ocasião favorável; ensejo. 3 Conveniência.

Ouvi uma voz as minhas costas. Isso, na sua vida, pode não significar absolutamente nada. Até aquele instante no qual eu resolvi me virar 180º também não significava. Eu estava na rua. Os barulhos poderiam se misturar e a voz ficar encoberta pelas buzinas, motores, falatório geral. Mas a voz cantava. “Senhor põe teus anjos nessa rua, senhor põe teus anjos nessa festa“. A letra as vezes não encaixava na melodia, mas mesmo assim a voz continuava a cantar.

Quem cantava era uma senhora com capuz. De longe, parecia que eu tinha encontrado mais um daqueles artistas de rua (eu tenho certeza que você já viu peruanos/bolivianos tocando flauta e vendendo seus CD’s). Mas só parecia. Como eu não tinha mais nada pra fazer (você marmanjo, sabe como é a relação mulher-vitrine, né?) , me aproximei e comecei a prestar atenção. Quem diria, naquela manhã remelenta de Domingo, que eu encontraria essa senhora?

Ela continua com seus anjos, a espada desembainhada… Tocava bem até. A voz era um pouco tremida, mas vinha de dentro. Com o perdão do clichê, ela cantava com o coração. Interessante…. ela não olha para o teclado. Quer dizer… na verdade, ela não olhava para lugar nenhum. Sim… era uma organista cega.

As pessoas passavam e esboçavam um sorriso, um risadinha. Não dá para condená-los. De fato, a cena era pitoresca: um senhora sentada numa cadeirinha, de capuz, cega, tocando Pe. Marcelo Rossi em seu pianinho eletrônico. Mas quem parava para olhar com atenção ficava encantado com a determinação da senhorinha. Ela podia estar em casa naquele domingão – estava frio, oras – mas decidiu trabalhar. Não sei se ela não tem opção e precisa disso para sobreviver. Também não sei como ela chegou lá ou como vai embora… Mas estava cada vez mais interessado.

Perguntei qual música ela mais gostava de tocar. Ela respondeu o seguinte: “Ai, eu gosto daquela do Roberto Carlos, “Como é grande o meu amor”. Quer ouvir?“. Nem preciso dizer que aceitei…A senhorinha pegou a bolsinha na qual guarda o dinheiro que recebe (pode chamar de couvert?), fechou o zíper e sentou em cima. Sim… ela falou que a molecada já roubou dinheiro dela. Nem falo o que dá vontade de fazer com essa gente (gente?).

A velhinha tocou e cantou. Eu filmei o número, pensando já em como poderia mostrar. Mas antes eu precisava da autorização dela.

Perguntei se poderia filmar. Se ela dissesse que não, esse texto não sairia com a imagem abaixo. Ela aceitou, sob uma condição: “Mas deixa eu ajeitar meu olho antes“. Com os dedos,  ela colocou no lugar as duas esferas de vidro. Quem disse que as senhoras cegas e organistas não tem vaidade?

Enquanto conversávamos, a velha organista ganhou uns trocados. Ao menos 10 reais, de diferentes pessoas. Não sei dizer se foi a presença de alguém filmando, conversando e, indiretamente, fazendo uma propaganda. Espero, sinceramente, que nossa artista tenha um publico disposto a bancar a sua arte…

Meu maior erro foi não ter perguntado o nome ou captado mais informações. Mas foi melhor assim… Agora, o mistério da velha organista cega das ruas de Serra Negra/SP permanece. Espero encontrá-la outro dia.

Infelizmente, o audio do vídeo não ficou legal. Vou tentar melhorar essa questão para complementar esse texto.

Que as suas segundas-feiras sejam de muito empenho, dedicação e alegria. As minhas serão, a partir de agora

3 pensamentos sobre “A velha organista cega

  1. eh impressionante…ela eh uma batalhadora…em penxar k agente ainda reclama de algunx problemas k tem,k n xegam a 1% do k ela ta a passar pra ter k estar ayh… espero k esteja tdo bem com ela e que seja somente um passatempo ela estar ayh a cantar..
    voce nunka maix cruzou com ela?passou no mesmo lugar que viu ela?? espero qe esteja tdo bem com ela…
    e parabenx pelo artigo,tenho a certeza que mudou a maneira de penssar e vida de muita gente………..

  2. hoje mesmo eu estava me lembrando dela.. Fui 3 vezes a Serra Negra e todas as vezes a vejo e converso com ela! Realmente a gente muda o jeito de pensar e viver a vida depois de ver e conversar com ela.. tentei me imaginar no lugar dela! A historia de vida dela nao e nada facil.. ela mora ao lado de um corrego e da enchentes e enche de agua a casa que ela mora alugada. E assim ela sempre perde varias coisas! Ela mora sozinha, tem uma mulher que vai uma vez por dia na casa dela ajuda-la.. Se tivesse condicao daria uma casa a ela e daria tudo o que precisasse para i bem estar dela.. Qdo crianca ela enchergava disse ela! Esse domingo estarei indo pra la.. espero poder encontra-la bem! Que Deus esteja sempre ao lado dela a guiando.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s