Mendigo no shopping? Não.

Muitas coisas me irritam no jornalismo. Me dão nojo, inclusive. A principal delas é a parcialidade disfarçada de imparcialidade. Não ouvir os dois lados é um crime. Deveria ser passível de perder o diploma. Se o diploma valesse alguma coisa, claro.

Em uma matéria sobre o tratamento dado pelos planos de saúde aos idosos, o programa Custe o Que Custar, da Bandeirantes, demonstrou diversos aspectos – verdadeiros – sobre o tema. Entretanto, não ouviu NENHUM gerente ou responsável pelos planos de saúde. Não deu chance para defesa. Isso, além de uma péssima prática jornalística, é covardia. Da mais pura e simples. No meu ponto de vista, a pauta, até então muito bem elaborada, perdeu toda a credibilidade.

Mas eu quero focar *onomatopéia de foca* em um tipo muito original comum de matéria: filmar moradores de rua tentando entrar em restaurantes, shoppings e afins. Isso é a maior sacanagem! E com o estabelecimento particular!

Para começo de conversa, nem deveria existir a “condição” de morador de rua. Problema social dos mais graves, começa na educação, passa pela habitação, segurança, saúde… um problema social completo e com bonus tracks. Teríamos um longo debate apenas sobre isso. Ah sim… é bom salientar que as pessoas não SÃO moradoras de rua. Elas ESTÃO moradoras de rua. Isso faz toda a diferença para a análise a seguir…

Quando você – enquanto imprensa – coloca moradores de rua nas piores condições possível (incluindo uma caixa de papelão desmontada nas embaixo do braço) tentando utilizar um estabelecimento particular, obviamente vai ter o resultado que espera, ou seja, que as suas cobaias (oh sim… você os usou como cobaias) sejam barradas. Os seguranças estão errados? Claro que não!

Os shoppings, pegando um exemplo mais palpável, têm um determinado público alvo, normalmente mais abastado financeiramente. Moradores de rua NÃO são o público alvo, mesmo que seja apenas para usar o banheiro ou a praça de alimentação.

O parágrafo acima é duro, cruel? Sim. Mas não há escapatória. O público que vai a um shopping quer ver um padrão de vida, no mínimo, igual ao que pertence. Quer ter contato com outra realidade financeira. Se é para ver as mesmas imagens, sentir os mesmos cheiros, ter as mesmas sensações que em um comércio popular, o próprio consumidor se dirige a 25 de março ou ao Saara. Como eu mesmo já fiz inúmeras vezes, por sinal.

Aposto que você que torceu o nariz (ainda se torce o nariz para exprimir contrariedade?) para os dois últimos parágrafos será (repare bem o tempo verbal) o primeiro a trocar de calçada/de mesa/fechar o vidro do carro ao ver um morador de rua.

Mas nem para usar o banheiro, uma necessidade fisiológica? Nem pra isso. O estabelecimento particular tem que ter autonomia para permitir o acesso de quem quer que seja, exceto quando previsto por Lei (o caso do cão-guia em um restaurante. Tem que ser liberado, por mais que as regras do restaurante proíbam cachorros). Cabe ao poder público construir e manter em condições aceitáveis banheiros de uso coletivo.

Ah tio Frank… mas i si o mindingo tomá banho, fazê a barba e vestir uma beca legal, qui nem eu vi num pograma aí? Óbvio que ele não deixa de ser morador de rua, mas essas condições o ascendem a um outro nível social, ainda que superficialmente. Isso é o suficiente para o estabelecimento. E até para você que vai dividir o mesmo corredor. Você não precisa saber que aquele rapaz olhando a vitrine da loja de animais busca seu almoço no lixo alheio porque acha legal.

Para variar, lá vem a mesma conclusão de sempre: num mundo onde a informação é tão acessível, não podemos nos dar ao luxo de nos acostumarmos a apenas engoli-la. Temos que saborear e digerir ingrediente por ingrediente. Afinal, o cara que está te alimentando vai te dar algo nada saudável, né? Você não quer isso, né? Ué… mas, mesmo pouco saudável, não é alimento também? Hummmm…

PS: Vamos lá… grite aí nos comentários. Diga que eu sou um chato, burro, falei besteira. Pode até dizer que eu voto no partido X ou Y. Mas vamos debater, trocar ideias, ok?

UPDATE: Conversando com um advogado sobre o assunto, reuni mais a informações pertinentes ao tema aí de cima. Veja que interessante:

Barrando a entrada de moradores de rua, o shopping pode ser acusado de um crime – tem um nome legal bem legal – resumido por mim como “constrangimento” (mexe com Direito Civil, Penal, Constitucional…). O segurança não pode gritar, empurrar, humilhar ou utilizar-se de artifícios grosseiros. Tem que ter tato.

Portanto, nessa ótica, o shopping tem que liberar o acesso. Mas essa discussão dá uma longa tese, viu? Se o argumento é constrangimento, não é nenhum absurdo supor que o próprio morador de rua cause constrangimento aos consumidores do shopping.

É uma linha tênue, delicada, que vai cutucar liberdades individuais, preconceitos, superficialidades… um campo minado. Nessas horas, o bom senso (o que é o bom senso?) deve agir em ambas as partes.

Um pensamento sobre “Mendigo no shopping? Não.

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