Entrefix: Alcindo Mattiuzzo

O sol ameaçava sumir no horizonte quando cheguei ao número 117, uma simpática casa aos pés do morro do Cruzeiro. Ele estava lá, na sacada, olhando o movimento da rua. Dois lances de escada depois, apertei sua mão.

Apreciei por alguns instantes aquela bela vista da cidade e logo fui convidado a entrar, afinal, estava esfriando e ventando. Finalmente se realizava um desejo há muito guardado: entrevistar Alcindo Mattiuzzo, 78 anos. Ou, simplesmente, o Barbeiro. Sua história é uma de tantas fontes sobre a História de Itatiba. Sua barbearia fica no mesmo local há mais de 50 anos e daquelas portas de madeira já viu o desenvolvimento e os avanços de meio século de tecnologia e sociedade.

Acompanhe a transcrição dos principais trechos desse bate papo (de quase meia hora!) e conheça mais sobre a nobre e quase extinta profissão de barbeiro:

Frank Toogood: Vamos lá… qual a sua profissão?
Alcindo Mattiuzzo: Barbeiro. Meu pai sempre quis que um filho aprendesse a ser barbeiro. Os meus irmãos mais velhos tentaram, mas num… e depois eu acabei aprendendo. Trabalhei 6 anos e 10 meses na PABREU(Antiga tecelagem daqui de Itatiba)  na fábrica, de tecelão. Trabalha lá e sábado, depois do almoço eu não trabalhava, eu cortava cabelo com meu pai. Fui aprendendo com meu pai, tinha uns… vamos dizer uns 16 anos assim…

FT: Então seu pai era barbeiro?
AM: Meu pai era barbeiro também. Só que barbeiro mais simples, assim de sítio, mas enchia de gente, tinha que ver um pouco! Aí fui aprendendo, aperfeiçoando cada vez mais. Aí abri o salão no dia 20 de outubro de 1954. Tempo do… na época o Prefeito era o Erasmo Chrispim, então… ele até falou assim: “você pode fazer assim… você paga o… não precisa dar abertura no salão agora. Fica esse resto de ano e você pode ir trabalhar. No ano que vem, no começo do ano, você registra“. Parece que 5 ou 9 de janeiro, coisa assim, eu dei a abertura. Daí tinha que ter a certeira profissional, a carteira de saúde… todos os documentos certos. Daí continuei. Se eu chegar em outubro vai fazer 56 ou 57 anos…

FT: … só como barbeiro….
AM: … e só naquele ponto que eu estou.

FT: Só naquele ponto? A barbearia sempre foi ali…
AM: … e os móveis também. Naquele aparador de madeira que eu tenho ali, tem a data que eu abri.

FT: Eu lembro de ter visto uma vez.
AM: É, eu marquei lá. Foi o rapaz, o Chico… Chico…. Chico de Castro que fez, lá, coitado…. já faleceu (…). Fez um aparador de cada lado e o espelho no meio (…).

FT: Então quem foi lá em 1960 e alguma coisa sentou na mesma cadeira!
AM: Mesma coisa! Tenho freguês ali que quando eu abri o salão, eles tão vivos hoje, porque eram novos, né? E tão vivos até hoje e corta cabelo até hoje. Tem gente que faz 50 anos que corta cabelo.

FT: E corta ele, corta o filho, corta o…
AM: Já cortei de umas 4 gerações. Então tem umas par de família que eu fiz a conta. Cortei do avô, do filho, do neto e do bisneto do avô, né? 4 gerações. (Risos)

FT: Mas assim, a barbearia continua a mesma, mas e em volta da barbaria, como é que foi modificando?
AM: Ah… em frente era um curtume. Faliu… era uns alemães que tinha, sabe? Na época que eu comprei tinha uma parte de cima, ali onde é a faculdade [Universidade São Francisco] agora, ainda tinha bastante couro. Faziam correia para as fábricas. (…) Quando a faculdade entrou ali, eles aterram tudo ali. (…) Mas quando eu vim eu tive sorte, porque era antes para eu trabalhar ali e eu não vim, por causa do mau cheiro que tinha. No fim, acabou o mau cheiro, acabou o curtume e eu vim trabalhar ali perto, bem na frente.

FT: E as ruas eram de terra?
AM: As ruas eram tudo de terra. Quando chovia ali, era um assento, formava um barro. Pessoal que passava ali atolava tudo, sujava tudo o sapato. Depois calçaram. Começaram a calçar de lá para cá. Quando eu abri ali eles estavam fazendo calçamento ali naquela farmácia, perto do meu salão. Eu abri ali em 54, então vieram com o calçamento pra cá. Depois de muito tempo, até antes de calçar, [campainha toca] a empresa do Cometa e do Expresso Brasileiro passavam por aqui que e vinham para Águas de Lindóia e tudo.

FT: Começaram a usar como via e começou a movimentar...
AM: É, começou a movimentar…

FT: E assim.. lá na barbearia [toca a campainha novamente]. Eu acho que está tocando a campainha.

Nesse instante, o seu Alcindo atende a porta e recebe um pacote. Não consegui ver direito, mas me pareceu ser uma imagem da Mãe Rainha (obrigado especial ao @hbariani, @smmrsnts e @MasonMMM pela ajuda ao identificar a imagem).

Vale o registro que seu Alcindo exerce a função de Ministro da Eucaristia na Igreja de São Bento e Nossa Senhora Rosa Mística, localizada em seu bairro. É a famosa Igreja do Cruzeiro, local de aparições misteriosas. Mereceu inclusive a visita de Cazuza. Mas isso é história para outro post.

E sim… aproveitando a pausa na entrevista, interrompo o texto e a entrevista com seu Alcindo Mattiuzzo continua na semana que vem. Não perca a segunda parte!

2 pensamentos sobre “Entrefix: Alcindo Mattiuzzo

  1. Cara, que mundo ovo esse da internet. Ler uma entrevista dele me deixou até meio emocionado. Sempre cortei cabelo lá. Agora só não corto porque é logisticamente complicado e porque ele fecha muitas vezes por causa das missas e tal. Mas continuo tentando ir.

    Eu não vi a imagem que você mencionou, mas sei que até a minha mãe recebe uma imagem de N. Senhora de tempos em tempos. Eles fazem um negócio parecido com um revezamento, ela fica um pouco em cada casa, volta de mês em mês, se não me engano. É uma tradição bonita.

    Engraçado vc comentar também o negócio das aparições. A casa da minha mãe é duas quadras abaixo da igreja, e meu pai era Ministro da Eucaristia na época. Ele era muito amigo do Alcindo, iam pescar juntos e tudo… se bobear, você deve ter visto até umas fotos do meu pai e dos meus cunhados com ele, pescando, ele mostra pra todo mundo. Mas enfim, na época (das aparições) eu me sentia muito no centro da coisa toda e volta e meia conto pra alguém das coisas que aconteceram na época.

    Quando você voltar lá na barbearia, por favor, diz que o André filho do Bertinho Taffarello mandou um abraço pra ele. Com certeza ele vai lembrar 🙂

    Ah, caso você não saiba sou eu o André marido da @deh_capella.

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