A coragem do professor

Eu já tive diversos professores em minha jornada escolar/acadêmica. Não sei se consigo contar ou lembrar de todos. Cada qual com suas características marcantes. Uns eram mais engraçados, outros mais rígidos, os chatos, os camaradas, aqueles que sabiam controlar uma classe barulhenta e, claro, a dona Neide (piada interna, desculpe). Já falei sobre alguns deles em outra oportunidade, inclusive.

Todavia, nenhum deles foi tão corajoso ou levou tão a sério a arte de transmitir conhecimento do que o Irineu. Ainda não decidi se as atitudes são apenas estratégia ou se é algo espontâneo. Também não sei se é realmente importante saber disso agora. Vocês vão me ajudar a escolher ao final.

Mas vamos aos acontecimentos, antes que você desista de ler: Em sua primeira aula, Irineu deu uma bela comida de rabo bronca de proporções novelísticas nos alunos que voltaram do intervalo fora do horário estipulado. Não foi um simples “não cheguem atrasados”. Ele evocou a moral, os bons costumes, a criação que os indivíduos tiveram, o valor de uma universidade, a questão da bolsa de estudos… Chegou ao ponto do professor utilizar o indicador para apontar para cada um dos atrasadinhos. O tipo de sermão que me faria levantar, pegar meu material e ir para casa. Chegou nesse nível, acreditem. Foi algo pra botar moral e mostrar quem era o chefe naquela matilha.

Depois dessa delicada lavagem com telha de barro, acreditei que ninguém mais cometeria a ousadia de prolongar o lanche noturno. Mas eu estava errado!

Na semana seguinte outras pessoas não cumpriram o horário. E o bicho pegou de novo, como era previsível. Só que não foi preciso contar de Adão e Eva até o lançamento do iPhone 5. Bastou uma bronca rápida, certeira e a ordem que chocou a sala toda: Fora! Fora da minha aula!“. Strike 3. Out. Fim da linha. Cartão vermelho. Game over. Não lembro de atitude parecida em meus 2 anos e meio de Universidade. Mesmo no Fundamental e Médio foram raras as vezes. E não foi apenas promessa, palavras ao vento. De fato os tartarugas foram expulsos.

Você pensa que isso foi o suficiente? Não. Não foi. O povo que guarda a pontualidade junto com a foto da avó peladona é insistente, gosta de emoção.

Na terceira vez – sim, houve uma terceira vez – Irineu trancou a porta da sala. Sério. Inevitável dizer que bateram e com força. E aí o Irineu virou bicho, ameaçou abandonar a aula, mas terminou por ir bater boca com os inconvenientes. Chegou muito próximo de baixar o nível, mas acabou se controlando.

Tudo testemunhado por 100 alunos (essa palhaçada de 100 alunos na sala, aliás, é assunto para outro post).

Eu entendo o professor. O cara prepara a aula, estuda, separa o material… enfim… trabalha de corpo de aula (e de fato ele se entrega nas aulas expositivas). De repente tem o raciocínio interrompido por gente que não tem a capacidade de respeitar dois ponteiros de relógio. Ou alguns borrões, quando digitais.

Mas vou te falar, viu: tem que ter coragem para peitar os alunos e, infelizmente, os pais dos alunos (quando menores) que acabam procurando a direção da escola, indignados porque o filhinho querido chegou em casa com a orelha quente. Não são todos os professores que tem essa disposição, porque sabem que, provavelmente, vão ser delicadamente orientados a não mais disciplinar o corpo discente.

Depois ninguém entende porque alunos agridem a diretora, ou dão cadeiradas nos professores ou ainda destroem a escola deliberadamente. A questão, claro, é muito mais profunda do que uma bronca bem ou mal dada, mas é inegável que, num problema complexo como a educação no Brasil, esse tipo de variável seja displicentemente ignorada.

Lamentável.

Ah… parabéns Irineu. 


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