Reerguendo São Luiz do Paraitinga

Começo de 2010. O peru ainda não havia sido totalmente digerido, a farofa ainda estava na geladeira e a ressaca do reveillon ainda não tinha passado totalmente quando começou a chover. E a chuva foi forte. MUITO FORTE. O rio transbordou, mas não como das outras vezes. São Luiz do Paraitinga, cidade histórica, de Oswaldo Cruz e Elpídio dos Santos, estava submersa. E, infelizmente, não é força de expressão.

Quase uma centena de casarões tombados foram completamente subjugados pela força das águas. A Igreja Matriz, o símbolo maior da cidade, estava completamente no chão.

Em amarelo você vê o que é a Praça Oswaldo Cruz. Mais acima, em vermelho, a Igreja Matriz. Do outro, em verde, o Mercado Municipal.

Mas o tempo passa. Para mim, para você e para São Luiz do Paraitinga. Tive a oportunidade de visitar o local nessa semana, e vou contar o que vi 1 ano e 9 meses após a tragédia. Impressões gerais de quem sentiu o clima e viu de perto as consequências da força da enchente.

Três estágios: danificado, restaurado e em reforma

Primeira constatação importante ao chegar no centro de tudo: não há mais escombros pelas ruas. Um detalhe bobo, mas que significa o começo da reconstrução. Ao andar pelas ruas da cidade fica visível que a maioria das casas recebeu telhas novas e, principalmente, pintura. A cidade é colorida! O comércio é o principal beneficiado pelas mãos de tinta, mas as casas não ficam fora.

Isso não significa, no entanto, que os traços da enchente tenham desaparecido. Muito pelo contrário. Andar pela área central é ser lembrado constantemente que muita coisa foi destruída. A marca d’água em várias casas ainda é bastante forte, sem contar as fachadas com muita lama, provavelmente de gente que abandonou o local. A mesma rua intercala o restaurado com o danificado. Abaixo algumas imagens dessas duas pontas.

O ponto mais emocionante é, sem dúvida, a Matriz. Ela é apenas um esqueleto do que outrora foi. É assustador ver o tamanho daquela igreja e imaginar que aquilo desabou pela força da água. Nas laterais, os tijolos antigos, encontrados nas escavações e na limpeza (que eu acho que ainda não terminou) são separados e empilhados, esperando para serem usados na reconstrução. Talvez sejam também restaurados, uma vez que podem não estar 100% confiáveis.

No local da porta da igreja, o sino. Dei sorte de presenciar um momento simbólico. Um rapaz fez o sino badalar manualmente. Vi aquele sino grande, pesado, sendo acionado pelas mãos do homem. Pode ter sido apenas impressão, mas senti o silêncio na praça toda. Os carros parecem ter desligado os motores, as conversas esmoreceram, as pessoas pararam de respirar. O sino repicava solene. PAM… PAM… PAM… Quase em câmera lenta.

O sino pára de retumbar e a vida volta ao normal. O comércio vende seus artesanatos, os bares suas bebidas, as pessoas conversam nas praças. É domingo… é isso que se faz em cidades do interior.

Saí de lá com a impressão de que é inevitável olhar para o céu nublado de São Luiz do Paraitinga e não lembrar daquele começo de 2010. A chuva caiu, a Igreja ruiu. Mas nem tudo foi pelo ralo. Muito trabalho há de ser feito. E o será.

Quem reconstrói tudo aquilo que eu vi, certamente será capaz de terminar. E a inauguração da nova Matriz será o desfecho desse pesadelo. Espero ansioso, pois São Luiz do Paraitinga não pode parar. É história demais para ser lavada de uma hora para outra.

Não deixe de ler a magnífica história da Capsula do Tempo, enterrada por Romildo Guimarães em 1927. Absolutamente sensacional…

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