Vamos alimentar os leões?

Assassinato: ao vivo! (ou Muder Live! no original em inglês) é um filme de 1997. Não ganhou Oscar, Globo de Ouro, Palma. Nem mesmo um Kikito ou uma mísera nota alta no IMDb. Mas ganhou meu coração. Grandes coisas.

A personagem Pia Postman (interpretada por Marg Helgenberger, que vem a ser a moça do CSI) tem um programa de televisão, ao vivo. A ideia desse programa é contar os problemas das pessoas, tendo a opinião do público, de um especialista e da própria apresentadora. O formato é bastante comum nos Estados Unidos e aqui no Brasil tem em Marcia Goldshimitd seu maior e melhor exemplo.

Vamos combinar que ter o programa da Márcia Goldshimitd como similar não é exatamente motivo de orgulho, né? Mas, enfim… segue o jogo!

Só que em determinado dia, algo dá errado. Frank (!) McGrath invade o estúdio de pistola em punho (epa!) e mantém todo mundo refém. Exige que a emissora continue ao vivo, para que todos vejam que a apresentadora é culpada pelo suicídio de sua filha. Promete executá-la ali, na frente das câmeras. Mencionei que ele tem em mãos um detonador, que vai explodir a emissora se alguém resolver tentar alguma gracinha? Pois é…

Pois bem. Essa é a parte que eu paro de contar a estória passo a datilografar (hahahaha) porque o filme é bom. Ah sim… recomendo que você veja o filme antes de ler minhas humildes palavras. Talvez eu estrague alguma coisa, mas nada que vá interferir no final da trama, uma vez que eu não vou contar que ele vira uma barata gigante e… e… bem, esquece.

Sensacionalismo na tevê. Por que as pessoas assistem?

É meio que senso comum que o ser humano gosta de se apoiar nas desgraças dos outros. Podemos estar na merda total, mas ainda sim paramos para ver alguém em situação pior. Ou você acha que o Datena dá audiência porque ele é um rostinho bonito?

Pia, a apresentadora, está fazendo o trabalho dela. Ela é paga para explorar as histórias. Frank acha que a condução do programa que sua filha participou foi a causa determinante que levou ao suicídio (e foi mesmo, diga-se de passagem). Só que, na verdade, a culpa não é só da apresentadora. A culpa também tem que ser dividida com a emissora, os patrocinadores, a platéia (o “por que você está aqui?” em determinado momento tem que ser repetido todas as vezes que estacionamos em um canal) e a própria vítima, afinal, ela aceitou participar e assumiu o risco.

O trabalho não pára

Interessante notar que mesmo com todo o forrobodó (forrobodó?) rolando no estúdio, a maquiadora não deixa de cumprir sua função. O diretor manda o câmera pegar o melhor ângulo. A platéia começa a opinar. Desse modo o show continua, o que faz com que o programa mantenha sua premissa original. É fantástico perceber a naturalidade com que isso acontece. A crise vira apenas mais um caso. A diferença é a arma carregada.

Em dado momento, Frank faz um discurso inflamado, esbraveja para todas as câmeras… Eis que a apresentadora faz uma observação, ao meu modo de ver, pertinente. Foi algo como “gostou dessa sensação de poder que a câmera passa? Pois é… você sabe que também foi contaminado, né? Esqueceu suas motivações. Faz uma hora que você não menciona o nome da sua filha“. Ouch!

Montagem: Nós também participamos.

O filme foi pensado e montado de modo que nós também viramos espectadores daquele programa de televisão. É quase um mockumentary ao vivo. Você facilmente esquece que está vendo um filme, porque há o movimento típico das câmeras, o corte de imagem para o âncora do plantão, comerciais, reportagem do lado de fora do estúdio, GCs. Tudo bem que os efeitos de estática são muito fajutos, mas isso a gente releva.

Agora… se nós estamos assistindo, por tabela TAMBÉM SOMOS culpados pelo suicídio da garota. Quer dizer, a garota é ficcional, mas milhões de constrangimentos que vemos por aí são reais. Muito reais. Um circo não existe sem platéia. Assim é a televisão.

Um filme para pensar e debater

Esse é o tipo de filme para você pensar. Nem de longe é complexo, mas levanta questões importantes, cada dia mais pertinentes. Apesar de não existir tantas redes sociais naquela época, tudo encaixa-se perfeitamente. Conceitos como privacidade, ética, trabalho em equipe, sensacionalismo, limites da televisão, corrupção entre outros, são muito bem discutidos.

Bem… acho que esse não é um filme só para ver em casa, num sabadão, comendo pipoca, como entretenimento. Cabe melhor em escolas, universidades e é altamente indicado para quem se interessa por comunicação.

Eu gostei. Nota 8.

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